Mandaloriano e Grogu, de Jon Favreau
(EUA, 2026)
AS CRIANÇAS E OS ADULTOS
O Mandaloriano e Grogu mal é um filme, e não uso aqui a polissêmica “filme” no sentido qualitativo, embora isso também seja possível, tanto é mau filme. Sabe-se muito bem que, na realidade, ele é uma temporada de série de TV compactada e lançada como longa-metragem, nada de novo no horizonte da franquia. Trata-se também do primeiro filme “Star Wars” desde 2019, quando o fracasso crítico de A Ascensão Skywalker fez com que a Disney apostasse no lançamento de séries televisivas diretamente em seu serviço de streaming em detrimento de grandes eventos cinematográficos. Portanto, Mandaloriano é um filme derivado de uma série que é, por sua vez, derivada do universo expandido de uma franquia de filmes bilionária e em estado vegetativo do ponto de vista criativo desde 2005, quando George Lucas concluiu (e muito bem) Vingança dos Sith e deixou a franquia mais ou menos de molho até a bagunçada e mal sucedida tentativa da Disney de reavivar Star Wars para as novas (?) gerações. A maioria dos produtos de Star Wars da Disney são completamente sufocados pelo microgerenciamento corporativo que guia absolutamente qualquer decisão estética ou narrativa, em uma tentativa neurótica de agradar a maior faixa de mercado possível. Ao mesmo tempo, sem um olhar sólido de um demiurgo único, tudo neles parece improvisado da pior maneira possível, com a exceção de um episódio de televisão aqui ou ali (Andor é, até certo ponto, um ponto fora da curva). O que define a nova época de Star Wars e faz com que os filmes mal pareçam filmes é a paranoia corporativa e diluição criativa, tudo isso manifesto de maneira distinta a cada novo filme ou episódio.
O Mandaloriano e Grogu é mais um capítulo em uma história de completa erosão, de esvaziamento espiritual, de imbecilização e de abandono de qualquer valor artesanal, da ascensão do conteúdo, de um gigante que respira por aparelhos. É surpreendente de alguma maneira, pois não deixa de ser um new low, a vanguarda da mediocridade, da preguiça e da ganância bilionária, sem qualquer motivo para existir que não autofagia – até as cores do filme muitas vezes lembram vômito. Se a Disney tentou, em seus últimos projetos, compensar o cinismo corporativo que vaza através de cada imagem com cafonices emotivas e histórias megalomaníacas que não servem a outro propósito se não a nostalgia, aqui não há núcleo emocional algum: nenhuma tentativa de construção de personagem, nenhuma boa sequência de ação, nenhuma boa gag, nenhuma boa direção de arte. Se já era excesso de generosidade considerar esses elementos como pontos positivos em um filme de Star Wars pós-George Lucas (já que eram pincelados tão esparsamente), e se o que havia de pior já tinha dificuldade de justificar a própria existência (o que é A Ascensão Skywalker além de contenção de danos após a péssima recepção de Os Últimos Jedi?) , a novidade que O Mandaloriano e Grogu traz é que, finalmente, todos os envolvidos com a produção pararam de fingir que se importam, e que vão continuar alimentando a pocilga simplesmente por alimentá-la. É a quinta ou sexta pá de cal de Star Wars, desta vez a mais niilista, a mais feia e também a mais descartável, menos cinematográfica. O melhor espírito infantil dos filmes originais se foi, o apreço pela mitologia universal e pelo herói também, e com isso também se foram todas as texturas toscas e charmosas que vieram com Star Wars – Uma Nova Esperança e que compunham um horizonte de cultura pop sem qualquer potencial ofensivo, além de um projeto sem dúvida autoral. Star Wars, como está agora, não pode mais fazer parte do nosso mundo, é algo a ser evitado ativamente, não diferente de outras imensas franquias sob o selo Disney. Merece o desprezo, a indiferença, é apenas mais ruído no cenário cultural mainstream que, em breve, nem terá mais a atenção das crianças. O rei está nu, esse cinema já não existe mais há um tempo. As estruturas estão expostas, qualquer projeto estético que vem do seio da indústria está em frangalhos e o cinema que vem de cima se alimenta apenas de si próprio e não quer mais fingir que não. Por fim, não há mais prazer algum, e isso é o principal aqui, quando olhamos frontalmente para Star Wars.
“I’m not sure what, exactly, why we were asked to do this”.
– confissão de Jon Favreau, diretor de Mandaloriano e Grogu
Não vamos nos enganar, desde o início da Era Disney, tudo se deu da mesma maneira em algum nível, o resultado dos filmes fala muito mais alto do que a emoção documentada em vídeos promocionais de O Despertar da Força ou Solo, Uma História Star Wars, por exemplo. Sabemos que, hoje em dia, esses filmes começam e terminam como tarefas corporativas e nada mais. De qualquer maneira, é cômico que um dos cineastas com menos visão em Hollywood diga isso tão abertamente, sem qualquer cuidado, sem qualquer esforço para manter alguma fachada de dignidade, que seja de mérito artístico próprio. É um filme cuja falta de esmero na realização não é apenas uma suposição ou uma avaliação crítica com base na forma, no encadeamento das cenas, das sequências. Além de Favreau, a presença criativa de Dave Filoni também se faz sentir da pior maneira possível: o co-roteirista assina um texto que poderia muito bem ter sido escrito por inteligência artificial, também uma espécie de remake genérico do desenho animado que produziu para a saga Star Wars há quase vinte anos atrás. Se é possível, com os olhos semicerrados, distinguir dois times criativos distintos na franquia Star Wars da era Disney, é seguro dizer que a ala Favreau-Filoni é de longe a pior e menos talentosa. Tony Gilroy, no outro extremo, responsável pela série Andor, é o menos ofensivo de todos, claramente contente em fazer uma série de guerra no espaço genérica com todo o sabor de televisão de prestígio contemporânea e com alfinetadas claras à era Trump. Se nem sempre ele é bem sucedido, há coisas interessantes do ponto de vista da lógica interna do universo que ele constrói, no simples andar narrativo seriado e no elenco estrelado, com destaque especial para um divertidíssimo Stellan Skarsgård. Se não há mais densidade de fato em Andor, há mais atmosfera, mais construção de suspense do que em Mandaloriano e Grogu.
Voltemos ao filme. A trama gira em torno do caçador de recompensas mandaloriano interpretado, em uma cena, por Pedro Pascal. A obrigatoriedade ritual do personagem de esconder seu rosto permitiu que Pascal trabalhasse apenas por um dia em set e o restante do tempo em uma cabine de dublagem, ainda que o trabalho de voz poderia também, assim como o roteiro, ter sido feito por inteligência artificial. Com seu companheirinho Grogu, cuja rentabilidade em formato de bonecos de pelúcia provavelmente foi um dos principais fatores que levou a Disney a ligar o sinal verde e lançar O Mandaloriano e Grogu como primeiro filme da franquia em sete anos (e o primeiro depois da pandemia), o caçador de recompensas precisa primeiro capturar um oficial imperial e depois lidar com dois senhores do crime alienígenas. No centro da trama também está Rotta, filho de Jabba o Hutt, uma lesma bombada que é sequestrada e que o Mandaloriano precisa resgatar para obter, em troca, a localização do oficial imperial com os senhores do crime. A própria trama se fecha ao redor de si mesma rapidamente quando, ao final do primeiro ato, descobrimos que quem sequestrou a lesma bombada foi o próprio oficial imperial, e uma vez neutralizado, só falta para nosso protagonista lidar com os senhores do crime, que pretendem matar Rotta. Com a ajuda de Sigourney Weaver, uma general rebelde que ajuda o mandaloriano na batalha final mais sem sentido que vi em muito tempo, tudo dá certo no final. Não há mais substance alguma além disso, o filme é estruturado como uma série de tediosas sequências de ação que ocorrem sucessivamente. A aventura é banal e não há esplendor ou charme visual algum. Falta catarse, falta suspense, qualquer surpresa ou qualquer emoção. Falta também qualquer qualidade cinematográfica. Não há por que tentar ser generoso com Mandaloriano e Grogu, não há por que relevar sua completa insignificância, prefiro apenas reiterá-la. Há tempos já não me interessa nada que não esteja minimamente na contramão, mas creio ter sido generoso o suficiente (para mim, a outra face da moeda do rigor é a generosidade) com o que quer que tenha vindo antes desse capítulo particularmente feio de erosão de dentro de Hollywood. Se lidei antes com Star Wars como se fosse um filme, já não há mais motivo algum. Que seja esquecido.
Lucas Bueno
