Marty Supreme, de Josh Safdie
(EUA, 2025)

Marty Supreme é o primeiro longa-metragem de Josh Safdie separado de seu irmão, o tal do Benny Safdie. A separação da dupla marca com dois filmes minimamente parecidos: The Smashing Machine, onde The Rock é o homem-grande-bate (porém sentimental), enquanto Marty Supreme é um filme onde vemos que a perda do Oscar por Timothée Chalamet não foi um erro do academy award for best actor, nem mesmo um erro do próprio Timothée e de sua visão equivocada sobre teatro ou dança. Timothée Chalamet perdeu o Oscar fazendo justamente o que ele fez durante cento e quarenta e nove minutos: um herói trágico do século XXI, um homem perdido na sua própria hybris que procura enfrentar sua própria arrogância e falha, e a abraça, e termina, mesmo que parcialmente vitorioso, derrotado.
Por que não somos todos Ashita no Joe?

Todos somos o Joe do amanhã era o grito emanado pelos estudantes no Japão dos anos sessenta. O grito era usado tanto pelo movimento estudantil de esquerda radical quanto pelos movimentos de extrema direita e tinha em mente a identificação com o personagem Joe Yabuki.
Na época, durante a década de sessenta, os estudantes usavam capacetes e pedaços de pau enquanto paralisavam a universidade contra a permanência das tropas estadunidenses em território japonês. Essa massa do movimento estudantil, o chamado exército vermelho japonês, bradava em coro: Todos somos o Joe de amanhã!
O amor por Ashita no Joe não era o único amor dividido entre os grupos de esquerda e de extrema direita no Japão.
Enquanto os jovens do movimento estudantil paralisavam a faculdade, receberam o escritor Yukio Mishima, um notório defensor da restauração do pleno poder para o imperador japonês.
O encontro de Mishima com os estudantes foi notável, uma vez que Mishima era uma figura de certa notoriedade na extrema-direita japonesa. Entretanto, o quebra pau que era esperado não aconteceu.
Em ocasiões futuras, Mishima comenta que se os jovens comunistas estivessem comprometidos em “lutar em nome do imperador e da nação”, ele se juntaria à sua luta armada no dia seguinte para expulsar os americanos do país.
Joe Yabuki surge de um contexto parecido com o de Marty Mauser. Joe Yabuki é um perdedor, um arruaceiro que aprendeu boxe na cadeia.
Ele saiu do banco de praça onde dorme no começo do primeiro capítulo para o desafio com o campeão mundial.
Joe Yabuki é uma figura de resiliência e, justamente por isso, marca o Japão do pós-guerra. O Japão pós-Hiroshima, no Japão pós-Nagasaki. O Japão da ocupação militar americana.
Ele simboliza o esforço dos jovens em conquistar o mundo! No caso de Joe, com o boxe, no caso do Exército Vermelho Japonês com a luta armada, as greves estudantis e a política.
Marty Mauser também quer conquistar o mundo.
Timothée Chalamet tentou conquistar um Oscar.
Ao final de Ashita no Joe, o pugilista japonês desafia o campeão mundial José Mendoza, a luta é decidida pelos pontos e Joe Yabuki morre exausto no córner (e junto dele a luta do movimento político da esquerda japonesa).
Não somos todos Ashita no Joe porque queremos viver no final.

O filme se apresenta com esse certo frenesi bastante familiar para aqueles que acompanharam Josh e Benny em Joias Brutas. Marty Mauser encrenca com tudo e todos no seu caminho enquanto corre das dívidas, da paternidade, do emprego, das questões da sua família com sua carreira como jogador de tênis de mesa e dos seus cobradores enquanto corre pelas ruas de Nova York colecionando novas dívidas, novos cobradores e novos desarranjos. Marty Mauser é um desajustado, ele é um judeu filho de uma mãe solo que finge estar doente para manter o filho por perto. Ele é o segundo do Ranking Mundial de tênis de mesa, vice-campeão do British Open, mas ainda assim dorme com todos os outros atletas em um quarto compartilhado. Marty Mauser, mesmo assim, não aceita se encontrar nessa posição: ele desafia Rockwell e seu dinheiro, desafia a associação internacional de tênis de mesa, ele aplica golpes contra as pessoas no boliche, contra os dirigentes da associação e, até mesmo contra o personagem de Abel Ferrara, outro inconformado golpista que não aceita ser passado para trás pelo próprio Marty Mauser.
O que vemos ao longo do filme é esse sujeito que arrisco chamar de herói, um homem que se orgulha de seu talento excepcional para o tênis de mesa (e para a enganação, por que não colocar assim?) e se arrisca para viver pelo fruto da sua própria excepcionalidade. Marty Mauser não é um herói nacional, ele não tem esse tipo de carisma inspirador e o tênis de mesa não é tão grande assim no ocidente. Ele não é um herói virtuoso e inspirador para seus amigos, afinal, ele não é exatamente um cara leal e uma presença agradável para a vida dos outros. Marty Mauser é desagradável, ele não leva desaforo pra casa e dificilmente se importa com os problemas dos outros: seja Kay Stone e a crítica ruim de sua peça, seja seu amigo Wally (interpretado por Tyler The Creator) e seu táxi danificado ou a gravidez de sua amiga Rachel. Marty não é um sujeito hiperfocado, ele sempre precisa fazer uma ou duas coisas ao mesmo tempo, sempre precisa resolver dois ou três problemas (falhando miseravelmente ao tentar fazê-lo) e, mais do que isso, Marty Mauser é um herói do barulho, do caos, dos múltiplos inimigos.
O filme demonstra essa mesma coisa com sua trilha, que aparece durante as perseguições, ou em momentos chave: quando Marty consegue finalmente focar no seu treinamento, ou quando ele viaja pelo mundo atuando como performer no show de abertura, ou então quando Kay Stone vai até seu quarto. O momento chave é quando Marty pode finalmente ver seu filho através do vidro da maternidade. A música Everybody wants to rule the world que encerra o filme, talvez resuma bem a figura do Marty Mauser de Timothée Chalamet: o mundo não o pertence, mesmo assim ele deseja esse mesmo mundo. Quando a trilha não é composta pela música, ela procura nos causar tensão, atenuando o clima de urgência que tangencia o filme em todas as suas tramas paralelas. Enquanto vemos Marty treinar no ginásio, vemos Rachel discutindo com o marido, um confronto que começa a ser cada vez mais físico.
Justamente por conta disso, desse barulho, desse senso de urgência, que Marty encontra dois antagonistas: um se estende a sua vida, seu espírito, Milton Rockwell, e outro dentro do esporte, o atleta japonês Kato Endo. Endo inclusive é interpretado por Koto Kawaguchi, atleta surdo de tênis de mesa. No vídeo sobre sua vitória nos é dito que Koto perdeu sua audição e, por conta disso, sua eficácia vêm do silêncio. Esse antagonista é outro herói, um homem dignificado por sua perícia, tal qual quanto Marty, mas ao contrário do americano, o japonês não é um herói do barulho, da cacofonia, mas sim um herói que se fortalece através do silêncio. Esse, inclusive, é o motivo para se tornar um competidor notável no British Open, sua raquete não emite som, e isso é notado pelos competidores, isso é argumento para a indignação de Marty com o resultado da partida.
I. Me pergunto se Kawaguchi é um grande apreciador do teatro e da dança. Se já foi flagrado no teatro Nō e no tempo livre pratica Nihon Buyo. Um amante das artes que ninguém vê.
Endo, no entanto, mesmo sendo um contraponto interessante a Marty, não é seu antagonista principal dentro do filme. Aquele com quem ele disputa é Milton Rockwell, o esposo de Kay Stone. Se Marty quer o mundo, Rockwell representa os homens e mulheres que já o possuem. Rockwell é um CEO, um homem rico que tenta controlar o mundo. Ele quer definir o resultado da partida com Marty e Endo e, frente a frente com um desafiador Marty Mauser, ele se coloca em posição de designá-lo de volta para o seu lugar, ou melhor, Rockwell define que Marty Mauser deve ser colocado para baixo. Ele abaixa as calças do personagem de Timothée e o espanca com a raquete, ele propõe que Marty, que já havia concordado em perder a partida, tenha que beijar o porco. Ele nasceu em mil e seiscentos e dois, viu vários outros Marty Mausers, e viu que eles não acabaram em nada (muito provavelmente graças a ele).
A confissão fica explícita com o discurso final. Ao se assumir como um vampiro, figura mística e sobrenatural, ele assume também o seu papel como um corregedor sobrenatural, quase que divino, motivado a castigar Marty pela sua hybris. Mas quem é o alvo dessa mesma hybris? É Rockwell, que é maior que Mauser, mas mesmo assim ele se põe acima dos desígnios da superioridade financeira. É a associação internacional de tênis de mesa, que sofre o golpe do hotel e acaba multando Marty. E, por fim, são seus iguais. Wally, que danifica seu táxi para ajudá-lo, Rachel, que está grávida e abandonada pelo próprio Marty, e até mesmo Dion, esse é de quem Marty se aproveita para vender sua marca pessoal usando o dinheiro dele e a empresa do pai do rapaz.
Marty poderia ter se consagrado como herói trágico, entretanto ele não é imolado ao final de sua história. Sua hybris o faz usar o dinheiro do personagem de Abel Ferrara para apostar no tênis de mesa. Toda a trama sobre o cachorro passa a ser o julgamento de Marty pela sua hybris. Ele pensa que vai conseguir enganar Ezra Mishkin, mas no fim acaba perdendo o cão ao ser cobrado pelos outros caras do boliche, e isso acaba por gerar uma nova pendência. Uma que é resolvida não por uma tramoia, não por um jogo de tênis de mesa, mas sim pelo confronto de duas forças opostas: o choque do proprietário da casa onde Moses, o cão, está preso e Abel Ferrara, que veio para buscar seu cão. A troca de tiros não tem a participação de Marty, mas acaba por resolver todos os seus problemas.
II. Quando penso em Kay Stone nesse filme, o fato de Timothée ter falado mal do teatro fica ainda mais engraçado. Tipo, sério? Você quer mesmo puxar o saco dos atores veteranos votantes enquanto você fala mal de teatro publicamente a troco de nada?
O gênio Timothée!
Marty Supreme se encerra com Mauser vendo seu filho, separados pelo vidro. Marty não conquista o mundo com o campeonato de tênis de mesa, ele é um dos filhos modernos de Odisseus, ele volta para a casa deixando para trás sua complexa trama de enganação e, como um herói moderno, mesmo não sendo aquilo que procura, ele domina o mundo ao ver a criança. O feito heróico de Marty, o seu telos, é atravessar a rua sem morrer atropelado. Na real, no caso de Marty, envolve atravessar o Pacífico e voltar para casa, conhecer seu filho.
III. Lembrei da cena de Marty no teatro. Definitivamente, o ator esqueceu de sair do personagem.
O gênio Timothée!
Marty Mauser não é um herói trágico, muito menos Ashita no Joe, isso se deve ao fato de que acima de tudo, ele quer se manter vivo.
D. A. Soares
