
Musk, de Alex Gibney
(EUA, 2026)
Por trás do Triunfo da vontade ou Freud contra os Foguetes
O pai de Elon Musk narra a vez em que matou três homens, ressaltando serem negros, numa grande tempestade de sangue que ele conta como se fosse uma aventura qualquer que viveu. Ver o homem falar é impressionante, ele é tudo que o filho queria ser, pura violência e praticidade, que fariam até o Bolsonaro parecer simpático.
Musk vem da África do Sul, povo (os sul-africanos brancos) cantado na cultura popular como colonialistas broncos, sem qualquer talento ou humor, assassinos racistas sem quaisquer modos. Elon Musk vem desse mundo excessivo e deseja um nível impossível de controle da própria imagem. Este documentário busca ser o avesso desse controle, expor o máximo que conseguir o Musk que este gostaria de imaginar que está seguro e intocável ali embaixo do tapete. O talento de Musk para se mostrar uma figura patética é realmente formidável. Esse tipo de imagem, iluminando umas às outras, a paisagem humana que vai daquele velho facínora esclarecido, aquele saco de chumbo que é o pai de Elon, até o presidente dos Estados Unidos levantando para Musk cortar, com uma risada de cumplicidade engatilhada como reação.
O melhor do filme está em sempre buscar tais imagens que cabem numa tela de cinema. A paisagem humana, bem ilustrada. O dom de contar uma história, conseguindo fazer a gente entender o que está acontecendo, num nível muito profundo, humano, real. Ver as cenas, as lacunas, os mosaicos. É o típico documentário feito por um excelente jornalista nova-iorquino. Tem senso de dimensão e de narrativa para a telona, na medida em que um jornalista o tem. A estética sem estética, sem papas na língua, começa com um “Ok, vamos lá. Se é pra fazer um filme sobre Musk, vamos utilizar uma linguagem tal.”. A linguagem é a do videogame, com umas animações vergonhosas que vão sendo basicamente um layout de reportagem escolhido. Como cinema não cola, mas serve para segurar um filme simpático do início ao fim, sem jamais perder sua gravidade ou dignidade.
Os cenários que vemos revelam muito, visualmente, sobre as elites do mundo, geralmente entrevistadas em suas casas, filmadas como uma foto de catálogo da Casa Cláudia. A narrativa é tão contundente que não resta espaço para imaginar que o documentário, de tão imparcial assim, possa ser cúmplice em qualquer nível do sistema, isolando Elon Musk. Tudo é muito imputável de responsabilidade, inclusive os entrevistados, nenhum deles flor que se cheire, parece estar tão interessado em antagonizar Musk, que não tem problema em mostrar sua cara de quem, bom, não está muito longe do problema. Até mesmo o pai de Musk é tão orgulhosamente o que é, e tão animado para dar uma controlada na própria reputação que está no brejo mesmo, que parece animado em aparecer num filme que é todo sobre como o filho é o sociopata implacável criado para ser. De resto, todo mundo ali, por mais criminosos que sejam, deve ter chegado em seu limite, limite que Musk não tem: viu o abismo do abismo do abismo do abismo. Prefere qualquer coisa ao mundo de Musk.
Porém, os signos que cabem ao talento de um bom jornalista para captar estão sempre apetitosamente presentes. Especialmente a paisagem de rostos que vemos, a energia toda por trás da coisa, que é o que interessa mais ao cineasta do que um simples Elon Musk qualquer. Por exemplo, jogado num momento qualquer, uma influencer de extrema-direita celebra, mostrando empolgação, e mostra ao lado dela, Charlie Kirk, também manifestando essa empolgação. Ambos estão com emoção zero, apenas aquele cinismo e atitude triunfante. A performance do triunfo é central ali e, talvez, seja digna do dobro de atenção, o que é esse contraste entre a fineza espontânea, o verdadeiro triunfo, o de Barack Obama, e a pequenez caótica de Musk. Até mesmo o carão rigidamente carismático de Kamala Harris, os lábios retorcidos pensativos de Bernie Sanders, o perene sorriso sacana de Bill Clinton.
Há coerência o suficiente na narrativa inteira, quatro horas dela, para expor esta mesma coisa central, essencial, presente em tudo que vemos, todo o funcionamento do poder, seus caminhos e rastros, sua sombra e sua violência. O mundo inóspito em que vivemos, tão inóspito quanto o desinteresse também cínico do cineasta em fazer qualquer coisa que não contar, pura e simplesmente, o puro e simples. É uma experiência de meditação coletiva, um dossiê. Separa o joio do trigo, inclusive como existência: ele existe, aqui, passando a limpo com a gente tudo que tem que passar a limpo e, portanto, concluindo, deixando claro e dito, que lá e acolá estão eles, e eles triunfaram, seguem triunfando, e é por isso que esse documentário pode existir e dizer tudo que diz, porque tanto faz. Até que chegue a destruição cada vez mais completa de nossa liberdade, que o documentário denuncia como a imensa farsa de dizer que o dono do poder tem o poder, é do mal, e não tem nada que a gente possa fazer, seguirá existindo um documentário como esse. Que é a pedra no sapato do Elon Musk, o grão de areia em sua camisinha, mas é isso aí, conforme o filme demonstra, o Elon Musk também está destinado a não ter paz, e está disposto a destruir a humanidade inteira antes de assumir isso: eis que então a pedra no sapato é o gozo dele no final. Apenas quem ri melhor, isso não vai sobrar quem possa contestar, é quem tem o botão das bombas todas.
Afinal, é isso que no fim das contas, o documentário é obrigado a demonstrar: no plano de Musk, não é preciso vontade, apenas triunfo. Fausto às avessas, ele já tem. Sua natureza é possuir, multiplicar, inflacionar. Confiança, e principalmente capital, é capital. Seu único talento, como ladrão e facínora, é o de dar a risada final, e essa ele já comprou. O dinheiro existe para que isso aconteça. Há que ser cínico, pois Elon Musk já comprou o final desse filme: alguém tem que contar a história de como ele venceu. Ele é o herói, o único possível. Aquele que vence, aquele que o jogo beneficia, o privilegiado. Construindo com tanta justeza o retrato de um mundo tão amargo e cínico, o filme nos encurrala, não resta para nós senão desejar estar de fora desse jogo, recusar toda a construção de narrativa que criou esse anti-Fausto, essa torre de Babel de narcisismo ferido e alucinado. Ao documentário, há que celebrar o joio do trigo: que a simpatia dessa reflexão nos sirva para refletirmos sobre uma possibilidade de estarmos do mesmo lado, o de Freud contra os foguetes. Que não seja um grande filme, mas que também possa ter sua beleza no fato de que é um testemunho da própria inutilidade.
Villar da Cruz
