Natal Amargo, de Pedro Almodóvar
(Amarga Navidad, Espanha, 2026)

Almodóvar continua, em Natal Amargo, sua jornada de depuração de estilo tardio com bastante deleite, sem sinal algum de cansaço. Ainda que seja mais irregular do que O Quarto ao Lado (2024) e mais forte que Mães Paralelas (2021), seu novo filme compartilha com ambos a mise en scène em fogo baixo e um ritmo particular. O drama também se dá muitas vezes entre consultas médicas, e a sombra da morte iminente é uma ameaça cotidiana e onipresente, um traço cada vez mais característico de sua dramaturgia e que ele domina particularmente bem, tanto em Natal Amargo quanto em qualquer um de seus longas-metragens recentes. Aqui, o cineasta Raúl depende de seus medicamentos para dor, e sua personagem principal, a também cineasta Elsa, sofre com uma enxaqueca decorrente de crises de pânico. Tentativas de suicídio, acidentes e doenças – os diversos dramas dos personagens “reais” ao redor de Raúl passam inevitavelmente por eventos assim, bem como as de seus personagens ficcionais, os quais acompanhamos paralelamente enquanto a “vida real” sangra na ficção e gera, assim, profusão de conflitos. Há aqui um filme dentro do filme, e ainda que aquele esteja ainda em fase de roteiro, acompanhamos sua jornada (a de Elsa) como acompanhamos a jornada real (de Raúl), dramatizada por um olhar que não é o de Elsa nem o de Raúl, mas o de Almodóvar. É esse terceiro ponto de vista que entrelaça as histórias e que parece sugerir, com muito bom humor, que o próprio Natal Amargo, 2026, dir. Pedro Almodóvar nasceu de muitos conflitos pessoais do artista com seu círculo mais íntimo e inevitavelmente retratados de alguma maneira aqui.
Além disso, nota-se que a narrativa não é mais rocambolesca e nem busca fugir, de maneira alguma, do bom drama burguês cotidiano. Almodóvar se mantém absolutamente fiel à vida de seus personagens, geralmente artistas de classe alta que vivem o puro suco do conflito doméstico enquanto são forçados a resolver seus dramas entre mil e um compromissos institucionais inconvenientes. Quanto a isso, Natal Amargo é muito bem resolvido e talvez seja seu filme recente que melhor tensiona o universo interno dos personagens, sempre à beira de um ataque de nervos, com essa rotina de eventos chiques e uma devoção intensa ao trabalho artístico – lembramos aqui imediatamente do cineasta Mallo, interpretado por Antonio Banderas no sensacional Dor e Glória (2019), e da escritora Ingrid, interpretada por Julianne Moore em O Quarto ao Lado. É cômico notar também, já que falamos aqui de um filme construído na metalinguagem e que sugere algum nível de autobiografia, que o personagem de Raúl sugere um Almodóvar muito mais romantizado do que o frágil Salvador Mallo de Dor e Glória, e é interpretado em Natal Amargo justamente por quem deu vida ao grande amante de Mallo no filme de 2019.
Faria muito bem ao filme, porém, uns vinte minutos a menos. Os olhos tristes de Milena Smit são sempre comoventes, e Almodóvar já fez ótimo uso da atriz em Mães Paralelas, onde ela teve protagonismo. Aqui, ela interpreta uma sofrida amiga de Elsa, estabelecida por Raúl bem cedo no filme e depois esquecida. Em um momento de insight criativo, Raúl decide criar uma subtrama para ela, pois sentia que faltava algo em seu roteiro, que alguma ponta havia sido deixada solta. Acontece que, justamente na tentativa de amarrar tudo na estrutura tão pensada do filme, Almodóvar erra bem mais do que Raúl – não há nada particularmente engajante no drama de Natalia com Elsa, e embora haja uma tentativa de ratificação ou de justificativa dessa sequência ao longo do terceiro ato do próprio Natal Amargo, as cenas continuam não funcionando tanto quanto as outras. Esse contraste é evidente demais e enfraquece o filme logo antes do último ato, que, em compensação, é o melhor de todos.
O filme termina com Mónica, a antiga assistente de Raúl, furiosa com seu novo roteiro (leia-se, com a história de Elsa), que ela julga insensível demais ao incluir dramas de sua própria vida, cuja tinta certamente ainda não secou e que ela não gostaria de ver retratado em um filme pelo ponto de vista de seu antigo patrão. A seguir, somos agraciados com cena atrás de cena de gritaria entre Mónica e Raúl, que discutem de maneira quase ensaística, quase como um diálogo no estilo de The Critic as Artist, de Oscar Wilde, em formato de telenovela. Raúl argumenta que ficção é ficção e será recebida, portanto, como ficção, mas Mónica permanece teimosa e irredutível. Mónica, porém, consegue apontar diversos pontos cegos na ficção de Raúl, que articula com facilidade vários aspectos de sua vida ao longo da narrativa, mas esquece de outros tão importantes quanto. O companheiro bem mais novo de Elsa, por exemplo, análogo ao companheiro do próprio Raul, desaparece completamente do filme depois do primeiro ato, e enquanto Mónica leu tudo isso, nós, como espectadores de Natal Amargo, também sentimos a súbita falta de ambos os personagens, sem esperar que isso seria de alguma maneira colocado em xeque. É com esse divertidíssimo e espertinho final que Almodóvar encerra mais um de seus trabalhos. Que venha o próximo, já estamos no aguardo.
Lucas Bueno
