Nouvelle Vague, de Richard Linklater
(França/EUA, 2025)

Se há um caminho a não ser seguido na concepção de um filme como Nouvelle Vague, é a reverência excessiva. Não há nada mais chato e redundante do que a ideia de filmar Jean-Luc Godard, François Truffaut, Jacques Rivette e Éric Rohmer como figuras mitológicas. O próprio Godard disse tudo o que precisava ser dito sobre a Nouvelle Vague ao longo de décadas, e as representações que ele fez de si mesmo são insuperáveis. Examinando um pouco mais esses obstáculos, é inevitável perguntar se há qualquer caminho a ser seguido no desenvolvimento de um filme como Nouvelle Vague. Para qualquer pessoa que se interesse de fato pelo tema, está claro que um alicerce do movimento que o diferenciou de tantos outros é a inserção que os jovens turcos fizeram de si próprios na história da arte, selecionando também seus próprios mestres. É a vanguarda de mãos dadas com o passado, autoconsciente e moderna. Portanto, para qualquer realizador que se interesse de fato pela Nouvelle Vague francesa, a ideia de uma ficcionalização clássica de recorte amplo, mas focada principalmente na produção do manifesto estético gigante que é Acossado, pode muito bem parecer ingênua demais, separada completamente do espírito de fato daqueles filmes que tanto amamos.
Mesmo que o cinema dos cinco da Cahiers e de muitos de seus contemporâneos adjacentes fosse muitas vezes sobre o próprio cinema, a ideia de uma cinebiografia simples em 2026 inevitavelmente parece estudantil, deslumbrada demais e certamente pouco interessaria aos homenageados. Se, como pessoas do cinema, acreditamos em Godard, como ignorar tudo o que surgiu depois da Nouvelle Vague, em termos de autocrítica de seus próprios realizadores? Como não levar a cabo a filosofia do próprio Godard, que nas História(s) do Cinema afirmou que “O único grande problema do cinema me parece ser onde e porquê começar um plano e onde e porquê acabá-lo” e não rejeitar, a priori, um filme como Nouvelle Vague? A realidade é que uma tendência que atravessa as mais diversas formas e parece incrustada na origem dos mais diversos filmes de agora é uma autofagia sufocante. Os filmes parecem interessados somente em si mesmos, e não no mundo. Com essa tendência muito bem calcificada, é natural receber com cautela e alguma paranoia notícias relacionadas a projetos como Nouvelle Vague, mesmo se gostamos do realizador, como é o caso.
Richard Linklater, muito habilmente e contando com a descrença de muitos cinéfilos, conseguiu criar brechas, mesmo que nem sempre tenha conseguido desviar de todos os obstáculos. Nouvelle Vague não é um de seus melhores trabalhos, mas Nouvelle Vague é um bom filme menor, que equilibra muito bem um acúmulo de pequenos prazeres cinéfilos com um olhar mais distante, que evita completamente tanto a reverência quanto o cinismo na composição de seus retratos. Nouvelle Vague é permeado pelos melhores instintos afetivos de Linklater, e, sendo assim, há muito mais carinho do que respeito pela persona de Godard. Se o Godard de Guillaume Marbeck é muito charmoso e gracioso, ele também é uma figura cômica, e não é retratado como um gênio no sentido mais restrito e clichê do termo. Isso demonstra que Linklater se importa com duas coisas importantes na história de Godard e dos demais redatores da Cahiers, e que foram esquecidas em retratos mais ácidos, cegos e ressentidos como o de Hazanavicius: desde cedo havia uma autoconsciência muito grande por parte dos redatores-realizadores, personagens tão grandes no imaginário quanto seus próprios filmes; e Godard, no início, era uma presença que agregava humor ao grupo, enquanto Rivette e Truffaut eram pontas de lança mais sisudos. Há muito humor no Godard de Linklater, mas não há nesse humor ressentimento algum: o olhar é gracioso e generoso, não uma vulgata fácil e anti-intelectual. De partida, o filme admite um grande grau de simplificação muito bem-vindo, e não há interesse algum na psicologia de Godard ou no que ele foi e viria a ser antes e depois da rodagem de Acossado. A síntese de Linklater encontra um limite, por exemplo, nas máximas clássicas que Godard solta ao longo do filme – muitas vezes essas falas, ditas por Godard ao longo de muitos anos e aqui esgotadas na diegese em questão de dias, são as mais forçadas das piadas internas para cinéfilos. De qualquer maneira, Linklater sabe que não é nenhum Luc Moullet, que realizou de Les Sièges de l’Alcazar, e portanto sabe que sua relação com a Nouvelle Vague é a de um cineasta cinéfilo texano nascido nos anos 60. Essa relação está muito bem articulada em Nouvelle Vague, tanto na generosidade dos retratos quanto na distância imposta entre o diretor e seus personagens. Há um esmero aqui que nunca é vulgar e que transcende de fato qualquer retrato oficialesco, mas Linklater jamais impõe uma intimidade excessiva com seus personagens.
Apesar do clima despretensioso e, ao mesmo tempo, do cuidado na representação de Godard, muitos dos elementos secundários são o que há de melhor em Nouvelle Vague, como é o caso de Everybody Wants Some!! e de outros filmes de ensemble de elenco de Linklater. O Raoul Coutard de Matthieu Penchinat, por exemplo, é um destaque especial em um elenco de apoio particularmente vivo. Fotógrafo de guerra, Coutard foi diretor de fotografia de Acossado, e seu desencaixe constante em um set de filmagem de um Godard inexperiente rende alguns dos melhores momentos bem-humorados do filme. O mesmo vale para o assistente de direção Pierre Rissient, interpretado por Benjamin Cléry, e para o produtor Georges de Beauregard, de Bruno Dreyfurst, os dois contrapontos pragmáticos ao jovem Godard. Personagens com uma presença narrativa mais forte em Nouvelle Vague tendem a parecer caricaturas suavizadas demais, como é o caso do François Truffaut de Adrien Rouyard. Se a representação de Belmondo e Jean Seberg, interpretados por Aubry Dullin e Zoey Deutch, é pouco fiel à realidade e peca pela leveza excessiva (leveza sendo aqui a palavra de ordem de Linklater para todo o filme), é também verdade que a trama mais solta, cujo andamento depende apenas do progresso das filmagens de Acossado, permite que momentos de flerte entre os dois surjam de maneira muito natural e graciosa.
Os velhos mestres da Nouvelle Vague são os únicos filmados com um grau maior de reverência. Trata-se de outra sacada muito boa de Linklater, que assume o ponto de vista dos jovens redatores da Cahiers na hora de filmar Melville, Rossellini e Robert Bresson, cujas cenas servem o mesmo propósito: a mentoria do jovem Godard. Tratam-se também de acenos ao público iniciado e ansioso para ouvir, da boca de bons atores, os resumos dos processos de trabalho desses realizadores tão rigorosos e que o público-alvo de Nouvelle Vague certamente conhece muito bem. As omissões biográficas que poderiam frustrar grande parte desse mesmo público são muito bem compensadas com um grande repertório de piadas internas espirituosas, como o olhar de desaprovação que Godard lança a Jean Seberg quando ela menciona uma fala de Casablanca durante uma sessão intensa de citações de Humphrey Bogart.
Linklater confia muito nessas piscadelas, e se muitos desses momentos podem depender da boa vontade do espectador para funcionar ou não, é com muita sinceridade que eles são colocados no filme, sem qualquer pitada de cinismo. E é dentro de todos esses limites que parecem insolucionáveis que Linklater conseguiu fazer um dos melhores menores filmes do ano, se valendo de todo o espírito carinhoso presente em toda sua filmografia e assumindo, sem qualquer vergonha, que muitos dos prazeres de Nouvelle Vague são uma piada interna compartilhada entre ele e o espectador familiarizado, que nutre uma relação com todos os retratados muito parecida com a dele.
Lucas Bueno
