O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho
(Brasil/França/Alemanha/Holanda, 2025)

Cineasta de Recife violenta espectador em sessão de “O Agente Secreto” no PlayArte Marabá em São Paulo

Jovem crítico e cinéfilo paga R$ 20,00 (vinte reais) para ver o novo filme do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho na sala PlayArte Multiplex Marabá e é golpeado a cavalheirescos golpes de luva na face durante sequência final do filme.

O Agente Secreto (2025) é o novo filme de Kleber Mendonça Filho. Lançado após Retratos Fantasmas (2024), o filme traz novamente à tona um imaginário sobre Recife e o cinema que se apresenta como sendo publicamente bastante caro ao diretor. Não é à toa que, enquanto Kleber escolheu filmar as salas de cinema de Recife no ano passado, neste ano decidiu que essas mesmas salas seriam palco desta obra, filme esse projetado em tela com uma expectativa ímpar, visto que não apenas se trata de um filme de Kleber Mendonça Filho, diretor de uns e outros filmes célebres como Um Som ao Redor (2013) e  Bacurau (2019), mas também é um filme estrelado pelo ator Wagner Moura, que no presente momento de sua carreira vem ganhando considerável notoriedade, fazendo sucesso tanto em solo brasileiro quanto lá fora. Esse parágrafo de introdução se faz bastante desnecessário, no entanto, uma vez que essas informações são de conhecimento público e comum, mas gosto de evidenciar o fato de que O Agente Secreto tem de tudo para ser um case de sucesso para uma ambição como a disputa ao Oscar e a consagração internacional, coletando prêmios e elogios no mundo. 

O filme se constrói bem desde o início. A apresentação de Armando, uma cena em um posto de gasolina onde o frentista guarda um cadáver ensanguentado à espera da polícia, o policial que chega não pelo cadáver, mas sim para averiguar o pequeno fusca amarelo que acabou de parar no posto para cobrar propina do motorista. Essa cena, de dramaturgia tão bem-sucedida, serve para criar a ambiência de uma certa paranoia que permeia o filme. Esse recorte da vida de Armando, que acompanhamos durante o filme, é fortemente gerido por uma necessidade de cautela. Esse cagaço que toma conta da vida de Armando é mais ou menos o que nos prende ao início do filme. Não sabemos quem ele é, só que esconde algo que desconhecemos a princípio. A revista que os policiais justificam como sendo um processo rotineiro acaba nos gerando um enorme tensionamento, uma vez que pode simbolizar um potencial final para nosso personagem bem ao início do filme.

A chegada de Armando à cidade de Recife é marcada por outras situações e o mesmo clima de paranoia que toma conta dessa introdução do filme tensionando esse mesmo clima de perigo, de suspense. O signo usado por Kleber Mendonça ao longo de todo o filme para personificar essa ambiência de um perigo eminente é justamente o Tubarão (1975) do diretor Steven Spielberg. A cidade de Recife torna-se o predador: os policiais, o órgão público onde Armando trabalha registrando os nomes dos desaparecidos e até mesmo as pessoas de dentro e fora de zonas seguras frequentadas pelo personagem. O filme de Spielberg se mescla com os jornais de Recife, a aparição de um tubarão com uma perna humana dentro do estômago gera um cenário de uma inusitada excentricidade que rapidamente nos coloca um sinal de alerta na cabeça.

A construção de uma Recife setentista, envolta em mistérios e casos inusitados, é feita com primor pelo cineasta que vai nos alimentando com certa paranoia enquanto nos introduz a toda cosmologia forjada pelo filme: o conjunto de apartamentos com o grupo de excêntricos desabrigados, perseguidos e refugiados, o prédio público no centro de reconhecimento de desaparecidos, local onde Armando acaba trabalhando temporariamente enquanto se esconde em Recife à espera de seu passaporte e até mesmo o cinema onde o sogro de Armando trabalha como projetista. Este último vale um parênteses mais profundo: o cinema São Luíz foi um objeto de fascínio do diretor em seu filme anterior, Retratos Fantasmas, neste ano em O Agente Secreto o cinema se transfigura em igreja, não no sentido em que Kléber mostra em Retratos Fantasmas com o cinema fechado que tornou-se igreja, mas sim no sentido de que aquele cinema torna-se refúgio: lá as pessoas não estão a mercê do tubarão, não precisam fugir e se esconder da polícia ou do exército, aqui as pessoas se sentam nas poltronas para assistir ao Tubarão, para encarnar e desencarnar experienciando O Exorcista (1973) e por isso é lá onde Armando consegue conversar com o grupo que o auxilia para sua fuga do país, onde ele pode se esconder enquanto pede por seu passaporte e onde as fitas são gravadas para deixar sua história a posteridade.

A destruição da instituição da igreja, no entanto, também ocorre no filme. Quando o assistente de projeção do cinema decide colaborar com Augusto e Bobbi, esses que talvez sejam a maior personificação do signo central do filme, o tubarão, dentro do enredo. A figura dos dois matadores remove a segurança na instituição quase que sacra do Cinema São Luiz para Armando, e possivelmente acabam sendo as figuras responsáveis pela morte do protagonista que, em uma corrida contra o tempo para conseguir a documentação necessária para fugir do país, acaba sendo morto, jamais chegando a retornar para sua casa e muito menos conseguindo fugir com o filho.

Se O Agente Secreto consegue trazer à tona o tubarão setentista e suas presas afiadas para assombrar o espectador nessa emocionante história de um pai, seu filho e a tentativa de fugir da realidade bruta e cruel de um Brasil em meio à ditadura militar, em determinado momento, Kleber Mendonça Filho tenta subverter os limites da linguagem do espetáculo cinematográfico. Deixa as pernas saltantes de lado e tece um comentário sobre um terror mais realista, concreto e historiográfico. No caso, ele tenta recorrer a seus crimes passados, e por isso precisamos voltar ao breve lide do começo do texto.

O cineasta recifense tem um certo histórico de violência com os espectadores de seus filmes. Em Um Som ao Redor, ele já praticava da violência contra o reles espectador que assistia ao filme sentado nas poltronas de cinemas. A sequência final do filme, onde não vemos o desfecho da vingança contra Francisco, nós somos também violentados. É um tapa forte e sem aviso que nos tira da vingança consumada contra os coronéis. O estrondo dos fogos, o tiro e os latidos são um tapa sensorial que nos desnorteia, arde nossos rostos e nos permite um êxtase sonoro e visual. Ele nos furta, nos violenta, mas é fetiche.

Em O Agente Secreto, o êxtase sensorial é trocado por uma foto simulando uma manchete de jornal, por uma personagem por quem não me importo e uma atuação esquisita de Wagner Moura no final do filme, onde vive o filho de seu personagem. Enquanto assistia ao filme no frisado PlayArte Multiplex Marabá, a Recife paranoide e predatória construída desde a primeira sequência do filme é abruptamente raptada e, em seu lugar, nos é apresentada uma sala onde duas mulheres escutam fitas com a história de Armando enquanto conversam entre si. As observações trocadas pelas duas são referentes à própria história de Armando, como se houvesse uma necessidade de nos jogar goela abaixo a simpatia pelos personagens que nos foram apresentados até agora. A dramaturgia podre das cenas na sala das fitas, que não adiciona e nem tira nada do espectador, apenas serve para substituir cenas que poderiam ser exploradas dentro da Recife predadora e setentista de Kleber Mendonça, junto às poucas informações que nos são dadas sobre as personagens, causam um estranhamento imediato e tiram o impacto que essas cenas deveriam ter, ou seja, a ideia de que Armando teve sua história privada, que um simples desentendimento com um industrial custou a vida de um homem, tirou um pai de um filho, é mascarada pelo desinteresse do espectador nos personagens, nas imagens e na dinâmica estabelecida dentro das cenas.

Ao ver a foto de Armando morto no chão, pensei comigo mesmo que, se fosse cortado novamente para a sala das fitas, deveria sair da sala sem olhar para trás e tomar como fato consumado: era uma ótima experiência o filme que tinha visto até aquele momento. Fiz um cálculo mental rápido sobre quanto faltava para o filme acabar, olhei para os assentos do lado, onde meus amigos assistiam ao filme, e afundei minha bunda na cadeira. Levei outro tapa de Kleber Mendonça Filho. Se bem que, se Um Som ao Redor foi um tapa, O Agente Secreto foi um furto. Um furto, porque enquanto vejo o filme, sou tomado da posição de espectador e colocado de escanteio para ver uma personagem que tenta sintetizar minha experiência com o resto do filme. Se Jean-Luc Godard tem o mérito de ter criado o anti-espetáculo cinematográfico, como Jairo Ferreira comenta em seu texto Godard Não Passa Fome, Kleber Mendonça Filho, em seu O Agente Secreto, tem outro mérito: o filme que se assiste sozinho e que fala plenitudes sobre si mesmo sozinho.

D. A. Soares