O caso de Sede de Amar ou Capuzes Negros, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1978)

Lygia Reichenbach (continuísta), Hideo Nakayama (foquista) e Carlos Reichenbach (diretor de fotografia)

O caso de Sede de Amar, ou como preferia Carlos Reichenbach, Capuzes Negros, é um dos insólitos episódios de uma indústria defeituosa. Capuzes Negros era o título preferido de Carlão, mas seu astro Luiz Gustavo e os produtores optaram pelo afável – leia-se vendável – Sede de Amar. Porém, esse é apenas um pequeno detalhe de uma relação complexa que gere a existência escondida deste filme.

Este é um filme de contrato para Reichenbach, de uma maneira totalmente diversa de seus filmes para os Galante, que também eram produtos ‘industriais’, dentro do sistema da Boca. Lá havia acordos, certamente, quantidade de nudez sendo o mais óbvio deles, mas os filmes eram integralmente aquilo em que ele acreditava. O Capuzes Negros foi feito tendo como seu autor intelectual seu roteirista, Mauro Chaves, não seu realizador. Deveria ser um veículo para Luiz Gustavo e Sandra Bréa, seus astros, recheado de piadas infames apesar de seu tema trágico. Reichenbach era tal qual os técnicos ali presentes: executava uma visão de mundo que estava distante da sua. Entre isto e inúmeros problemas de produção que cercaram a filmagem, afastou qualquer afeto ou real interesse do Carlão de que Sede de Amar fosse um filme seu. Alimentou nele a ideia do oposto, de que esconder e garantir que não fosse visto como parte da sua obra era obrigação dele como autor.

Trata-se de um filme que envolve temas muito específicos, como tortura conjugal, e o filme seria em sua essência um retrato oposto a tudo aquilo que Reichenbach prega. Não teríamos nem mesmo as contradições que forjam o mundo dele, levando alguns a considerarem este o oposto do Ilha dos Prazeres Proibidos, comercializado no ano seguinte. Eu ouvi algumas tantas vezes o próprio dizer que escondia propositadamente este filme. Não havia qualquer desejo de que ele fosse visto por alguém que não estivesse presente na ocasião de seu lançamento, o que é fascinante, pois trata-se de um filme de considerável sucesso, visto por muitas pessoas, na época que esteve em cartaz. Não sei qual era a opinião do Luiz Gustavo, a estrela do filme, que a minha geração aprendeu a conhecer como estrela da televisão, em especial do Sai de Baixo na TV Globo. O mesmo vale para Mauro Chaves, o roteirista do filme, que Carlos Reichenbach considerava o autor intelectual deste filme. Não sei o que eles pensavam sobre Reichenbach, nem sobre o que ele espalhava sobre tudo isso. Creio que estavam satisfeitos que seu filme existiu, saiu, rendeu dinheiro e sumiu, como são geralmente os caretas, artistas ou não, afinal.

Durante a produção, o dinheiro acabou, Carlão e sua equipe arduamente o finalizaram, ele contava que sua esposa, a Lygia, estava grávida em ponto de repouso, porém estava nos sets ao seu lado lutando nessa trincheira, como continuísta, sempre sentada, conforme a foto que usamos para ilustrar acima. E ainda assim, mesmo tendo Reichenbach e sua família se esforçado tanto para o filme acontecer, ele estava certo de que esse filme que julgava reacionário não merecia ser visto por seus fãs jovens, não poderia fazer parte da obra de sua carreira. E, sendo assim, mesmo diante de poucas informações, me lembro apenas de uma exibição dele após sair de cartaz, logo após Carlão partir, na Cinemateca, sessão que escolhi, pessoalmente, não assistir, porque apesar de muita curiosidade, sempre senti que seria uma traição deste que considero um farol.

É diferente do caso de outros títulos de sua juventude, como o Corrida em Busca do Amor, secretamente guardado por ele que dizia estar perdido até um colecionador revelar ter uma cópia. Hoje é sabido por pesquisadores, como o Daniel Caetano, que fez o inventário do Carlão, que o filme estava lá na sua casa, mas nem por isso ele fez alegações contrárias à exibição da cópia descoberta tardiamente. Ao contrário, exibiu, participou das conversas e estimulou que o filme fosse visto. Já para Capuzes Negros, ou Sede de Amar, como queiram, ele sempre escolheu o caminho do desaparecimento. Assim seja, Carlão.

Guilherme Martins