O cineasta que eu conheci

Não me lembro se foi no ZAZ ou no Cineclick, mas foi lendo as colunas de Carlos Reichenbach que tive contato com o cineasta originalmente. Seu olhar forte, aberto e a maneira franca de se comunicar eram marcas que seduziam este adolescente que sonhava em fazer filmes de gênero. Na época, o Carlão frequentava as mesmas listas de discussão que eu e tantos amigos cinéfilos. Ele realmente se misturava com os jovens, sem qualquer julgamento. Lá se proferiram coisas inteligentes e também garranchos aterrorizantes e escrotos sobre filmes e o mundo. Nunca vi Reichenbach tratar qualquer pessoa com indiferença. Mesmo os boçais, ocasionalmente, mereciam o respeito.
Quando cheguei a São Paulo em 2003, não demorei a conhecer Carlão pessoalmente. Sua disposição em falar sobre cinema era rara, incomum mesmo entre tantos cinéfilos. Ele compartilhava conhecimento numa velocidade ágil, imparável. Apesar de ocasionalmente ser duro e impiedoso com algum filme – por exemplo, considerava que Cidade de Deus tinha uma montagem que ele comparava aos cortes de um açougue – ele era muito bondoso. Lembro-me de um dia estarmos caminhando numa madrugada e ele me perguntar se Nina, o filme do Heitor Dahlia, era mesmo tão ruim. Quando eu confirmei a minha impressão do filme, ele indagou: poxa, mas não tem nada de novo que vocês gostem, ou algo assim. O Carlão falava mais dos seus filmes em seu blog ou nos escritos das colunas, pessoalmente, ele preferia falar de cinema ou de acessórios ao cinema. Mas ‘nós’ gostamos mesmo é dos seus filmes, mestre.
Falar de cinema extremo, Ruggero Deodato, Takashi Miike e, claro, de pirataria, eram os assuntos que Reichenbach mais desfrutava na minha companhia quando estivemos juntos. Sempre fui corsário – cresci tendo dois videocassetes ligados um no outro, copiando filmes, gravando clipes, devorando tudo obsessivamente. Tenho dezenas de VHS com filmes gravados nos anos 90, eu e meu irmão, antes de sermos críticos de cinema, fomos campeões de locações regularmente nas locadoras de Cuiabá, posso dizer que tudo que me interessava, copiava. Quando conheci o Carlão pessoalmente, descobrimos esse elo rapidamente. Debatia com ele sobre tudo, os gravadores de DVD, a segurança do eMule e quais players rodavam os dvd-r de quais marcas. Ele afirmava que meu player da LG rodava até ‘lixa de unha’. Sempre contou sobre as expedições pessoais, pesquisas profundas sobre gênero e filmes bizarros que poucos ousariam ver. Todos que o conheceram podem confirmar: não haverá outro cinéfilo como Carlos Reichenbach.
Não à toa, seu cinema tem tantas referências. Não apenas sobre o cinema, sobre filosofia, vanguarda, poesia, artes plásticas, política. Carlão devorava arte, de todas as formas. Tornou-se um brilhante escritor também por estudar todo dia. Não perdia interesse em nada. Sofreu com a visão piorar porque isso o impedia de fazer tudo que mais amava. Ver, ler, rever, reler – o importante é rever, ele sempre falava. Na casa dele, um apartamento grande, a algumas quadras da minha casa, estive uma vez. Acompanhei Ruy Gardnier e Francisco Guarnieri para uma entrevista para a Contracampo que não foi publicada na época. Já nem lembro os motivos da entrevista, porque no final encontrar o Carlão era sobre conversar sobre tudo e um pouco mais. Me lembro dos seus três cachorros, pequenos poodles adoráveis, com cachinhos brancos. Acho que conversamos duas horas naquele dia, umas duas fitas do gravador do Ruy. Anos atrás o Ruy recuperou uma destas fitas e publicou, com ajuda da Natália Reis e do pessoal da Multiplot, uma versão fracionada do papo. Nessa época, eu tinha 18 anos. Estava lá para aprender, com o Carlão e também com o Ruy. Absorvi muito destes encontros, ocasionalmente não concordamos, mas ele, a maior parte do tempo, apenas compartilhava aquilo que amava. Suas obsessões.
O cinema pornográfico, por exemplo, sempre lhe interessou. Não sei o quanto o Carlão conheceu sobre os pinkus, mas hoje, fico pensando quantas conversas interessantes e figurinhas poderíamos trocar a mais com o meu conhecimento aos 40, quantos giallos e eurosleazes, politiziotteschi, papos que não ocorreram porque não tinha chegado neles ainda. O Fernando Di Leo, um de meus cineastas preferidos, li pela primeira vez sobre ele com o Carlão mencionando, mas fui ver muito depois, infelizmente não pude falar com ele a respeito. Lembro-me que conheci na época os filmes de Aldo Lado, cineasta italiano, também por dica dele. Estes vi na época e me chamava atenção que fazia uma mistura de cinema de gênero com erudição literária que lembrava de leve os filmes de Reichenbach, mesmo não sendo livres como os dele. Aprendi com ele sobre Sergio Sollima e Damiano Damiani, sobre o encontro incontornável do cinema de gênero com a política, sobre os faroestes zapatistas, mas também sobre alguns filmes impiedosos e monstruosos de Umberto Lenzi, no extremo oposto, que fascinavam ele muitas vezes. Como disse o Leopoldo Tauffenbach, o Carlão propagandeou Bruce La Bruce antes de ser moda. O quanto dessa cinefilia incansável define seu cinema? Por que seus filmes são muito mais que isso, como uma poética única que remete à filosofia tanto literata como nas ruas.
Quantos cineastas mostram a cidade de São Paulo como Reichenbach? Um discípulo factual de Person. As locações naturais como Iguape foram transformadas em paraíso idílico em seus filmes, mas quando vemos Extremos do Prazer, ou a fazenda Maristela no Falsa Loura, todos os espaços mudam sob a perspectiva de seu olhar. É como se a magia que ele vivia, na sua forma de se relacionar com tudo, também existisse no que tateava visualmente com suas imagens, suas lentes e tons.
E se era tão poético, imagético, deslumbrante, como foi tão humano, tão celebrado como pessoa, cuidadoso, respeitoso, interessado. Sem preconceitos para além dos padrões contemporâneos. Embora anteveja em seus filmes a ascensão da extrema-direita na sociedade contemporânea, muitos que combatem a mesma nas redes talvez não compreendessem o rigor do olhar de Reichenbach, desconfiado, mas aberto a observar os limites da mente. Afinal, os olhos livres são o toque definitivo do cineasta que conheci.
Guilherme Martins
