O Dia em que Ela Volta, de Hong Sang-soo
(그녀가 돌아온 날/ The day she returns, Coreia do Sul, 2026)

A garantia de pelo menos dois filmes do Hong Sang-soo por ano na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo serve como um bom vento nas velas, esta espontânea e nova tradição é um alívio bem-vindo em meio às conturbações da vida. Tanto pela doçura e espontaneidade dos personagens quanto, em igual medida, pela escuridão e pela honestidade que guia o olhar do realizador em direção ao desespero do cotidiano: Hong Sang-soo é o mestre absoluto das conversas suaves sobre temas difíceis no cinema contemporâneo.

A estrutura de O Dia em que Ela Volta não é espelhada, como em tantos de seus outros filmes, nos quais os conceitos de passado, presente e futuro dramatúrgico são implodidos ao longo do filme em rupturas formais, ao mesmo tempo delicadas e expansivas. Como em Através do Fluxo e Uma Visitante Francesa na Coreia, para citar dois de seus inúmeros trabalhos recentes, as típicas variações sobre um mesmo tema ocorrem dentro de um sistema diegético mais convencional e de uma estrutura linear. Para isso, a premissa não poderia ser mais perfeita para Hong Sang-soo: uma atriz é entrevistada três vezes por três garotas diferentes a propósito de seu retorno ao mundo do cinema. Evidentemente, perguntas se repetem, respostas se repetem, e variações graciosas vão tomando forma. A mise-en-scène da empatia de Hong Sang-soo existe aqui de maneira minimalista e eficiente, longos planos-sequência fixos acompanham as proximidades e distâncias entre cada uma daquelas figuras tão ricas em gestos, tão reais. A insistência da atriz em compartilhar uma cerveja com cada uma de suas entrevistadoras, enquanto diz, para as três, que não sente mais tanta vontade de beber, cria, sem dúvida, um dos momentos mais engraçados no cinema de Hong Sang-soo em um bom tempo, arrancando gargalhadas sinceras da plateia, que se encontra em estado de pura identificação: o ponto de vista privilegiado do espectador desnuda toda a performance da entrevistada na repetição do convite a beber, coloca em perspectiva todos os nossos pequenos rituais.

As duas primeiras jornalistas se mostram facilmente impressionáveis, fica claro que admiram a atriz e a colocam em alguma espécie de pedestal. Assim, a intimidade entre essas mulheres se intensifica em meio a risinhos lisonjeados, troca de elogios e pequenos momentos de flerte em meio a desabafos honestos e densos sobre a vida profissional e doméstica, envelhecimento, amor próprio. A doçura dessas interações é tamanha que somos levados a crer que, não fossem as rígidas convenções do rito profissional que é a entrevista, esses momentos de flerte poderiam escalonar até culminar em um beijo espontâneo ali mesmo, na mesa do restaurante que as mulheres dividem, ou em um fugaz e improvisado ato sexual, de pura entrega. Os limites das conversas, sejam eles autocensura ou materiais, como o próprio tempo limitado para cada entrevista, são postos à prova com a íntima troca que ocorre entre entrevistadora e entrevistada, em cada uma das três vezes. Se na maioria dos filmes, o tempo para cada conversa parece ser ilimitado, e toda a vida subjetiva dos personagens é reduzida a preocupações do puro presente, Hong sang-soo vai no caminho oposto, onde se aproxima da vida: nunca parece haver tempo suficiente, uma conversa está sempre na iminência de ser interrompida. Ao mesmo tempo, os personagens parecem estar sempre em uma espécie de limiar, no qual qualquer gesto poderia libertá-los de todas as amarras sociais, o que nunca de fato se concretiza. A linha é tênue entre o abismo profundo, depressivo, e a entrega dionisíaca aos prazeres do presente. Em O Dia em que Ela Volta pouco se fala de trabalho, quando fala-se é sempre por um viés subjetivo, que permite que as mulheres fiquem tateando a consciência uma da outra e, ao final, encontram esse denominador comum que é o peso de simplesmente tocar a vida em meio a um mundo em frangalhos, de inúmeros sofrimentos.

O Dia em que Ela Volta é, no fim das contas, doce, mas não só. Nossa protagonista-atriz, que desesperadamente busca acreditar em um mundo no qual as coisas são sempre o que são, límpidas e transparentes e livres de infinitas ressignificações, fica preocupada com o que revelou em algumas de suas conversas com as jornalistas. Seus olhos doem e ela pede para que a cortina seja fechada – está aí um gesto muito sutil, carregado de simbolismo e que prenuncia seu incômodo com a exposição excessiva de sua alma, ou a luz está simplesmente forte demais, e pronto? De qualquer maneira, o tino perfeito de Hong Sang-soo para amargura funciona de maneira exemplar: a graciosa atriz, por um breve momento, se perde na própria performance e, friamente, liga para uma das jornalistas com a intenção de censurar alguns trechos do texto, como é de praxe, ainda que esse comportamento venha a partir de uma mudança quase completa de estado de espírito. De cócoras no meio-fio, com um cigarro na mão e o telefone na outra: fica evidente que a amargura deste pedido ricocheteou e incomoda nossa atriz de imediato, tanto quanto a exposição da própria intimidade. Talvez reclamar com a jornalista tenha materializado sua preocupação mais do que o necessário, e esse momento de gargalo é tão dolorosamente verdadeiro quanto a gag da cerveja é bonitinha, e igualmente verdadeira. A atriz se torna madame por um minuto, contra a própria vontade, mas a partir das próprias escolhas o tempo todo, sob total controle de si própria. Como assistir a momentos assim e não pensar que Hong Sang-soo é um dos maiores diretores da atualidade?

O filme termina com um exercício de performance, que funciona de fato como uma espécie de terapia metalinguística. A atriz encena, com uma colega de classe, uma versão dramatizada e escrita às pressas por ela mesma das conversas que acabaram de transcorrer. Falando de si mesma, falando sobre si mesma e, por consequência, amando a si mesma e entrando em uma determinada frequência, nossa protagonista está pronta para seguir em frente.

Lucas Bueno