O Esquema Fenício, de Wes Anderson
(The Phoenician Scheme, EUA/Alemanha, 2025)

Wes Anderson é trovador de uma elite de herdeiros de um lugar privilegiado, onde percebem de camarote um mundo em ruínas, seus personagens possuem geralmente dois movimentos: de continuar construindo seus impérios de decadência, geralmente acelerando-a, e de valorizar a verdadeira aventura humana. O quanto esses movimentos são conflitantes ou se alimentam gera a riqueza de um cinema que não é desonesto quanto a si mesmo, acredita nos sentidos que se propõe. É difícil não simpatizar com os caminhos e razões que levam seus personagens a se virarem para os próprios sonhos, abandonando pouco a pouco ilusões que os prendiam ao mundo, a missões de importância pública ou mesmo à moral estabelecida pela sociedade. Pelas frestas das loucuras tão queridas de seus personagens, vemos um mundo real que faz ainda menos sentido. Qualquer estranheza do cinema de Wes Anderson realça a estranheza do mundo que escapa à sua estética.

O Esquema Fenício leva às últimas consequências muitas das visões que compuseram seus personagens até aqui. E se seus personagens, com suas filosofias aristocráticas, suas visões lúdicas, seus universos autocentrados, seu egocentrismo amigável, não tivessem limites para seu poder, e se os meninos fossem os donos da casa, os donos do mundo. No mundo adulto, caem por terra as espirais em que os personagens de Wes Anderson entram sem que entendamos exatamente qual é a deles. Zsa-Zsa Korda constrói a si próprio como um herói, mas não se entende exatamente um herói de que: um herói de si próprio, um herói de cinema. Seu heroísmo se resume a seus valores e suas aventuras, ou às diferenças que se evidenciam entre eles e os vilões mais vilões.

Ao explicar seu plano, mostra algumas caixas e diz que cada uma contém uma ‘ideia’, mas nenhuma contém qualquer ideia, cada caixa contém tão somente um trambique vislumbrado por ele para manipular os números que estão próximos de seu inevitável desabamento, dado que sua fortuna está toda fundamentada em pilares de fumaça. Seus planos e discursos mirabolantes quase nos comovem, se esquecermos por um momento que não há qualquer horizonte em sua trajetória que não o de proteger, administrar e expandir sua fortuna que esfacela por entre seus dedos, o que apenas será possível fazendo que alguém pague a conta, talvez até com a vida de populações inteiras. O que a fome heróica, o despeito alucinado de Korda busca é conseguir tirar vantagem do que existe no universo para ser tirada, lucrar dos recursos que existem no planeta. A pequena ironia que nos faz gostar um pouco dele é que ele é um boêmio, um artista, um aventureiro, um carismático, e não uma mesa de robôs engravatados.

Não falo tão somente, no entanto, de medi-lo com a nossa régua ou com a régua de um mundo ainda mais doente. O próprio Zsá-zsá nos dá a cruz e a espada: ele não tem medo da morte, não se protege, não se blinda, ele flerta com ela o tempo todo, ele tem tesão nela. Há como supor que, para ele, grandes homens travando batalhas épicas em que multidões morrem, nações se erguem ou caem, reis se ajoelham e plebeus ganham os céus, faz tudo parte do humano, o mundo funciona dessa forma há séculos, e para além de sua força bruta e infindáveis recursos, o próprio não acredita valorizar a própria vida mais do que a das muitas vítimas da má sorte que vão morrer na miséria. O mundo não é menos cruel para ele próprio, em sua concepção. O que não faz parte do jogo são os manipuladores fantasma no alto de um prédio com o mundo nas mãos. Escolha seu veneno, aprenda a morrer e um brinde aos que ainda têm um coração.

Benicio del Toro cumpre gloriosamente o papel de ser o corpo que escapa com sua intensidade, suas sutilezas indomáveis, às rígidas estruturas que compõem o cinema de Wes Anderson. O universo do autor é um lamento, uma denúncia, uma tentativa de iluminar a prisão que sua classe foi responsável por instaurar para se proteger, para controlar, dominar, operar. Num golpe final de cinismo, o personagem que mais graciosamente escapava a tal mundo de posturas engessadas das quais escapam pirilampos de emoção e verdade, o aloprado professorzinho de Michael Cera, revela-se o mais arrogante e ridiculamente charmoso de todos os personagens. Eu sei beber, mas aprendi que sou menos inibido quando finjo estar bêbado. Wes Anderson expõe seu jogo da forma mais deliciosa nesse labirinto de performances. Se a igreja católica é uma estrutura hipócrita e automatizante, com seus dogmas repetidos até o esvaziamento, é também representada como uma virtude a fidelidade que a freira tem a seus votos, mesmo que em algum nível ela esteja se enganando. Que ela se encontre após de uma forma ou de outra, inseparável das prisões em que se abrigou, é também o saldo maior de sua aventura, necessário inclusive à resignação que no fim das contas já faz parte dela quando precisa e para sempre precisará, como todos os personagens de Wes Anderson sempre precisam. Se estamos perseguindo novos horizontes, temos que aceitar em algum momento que estamos mesmo é nos conformando com o fim do mundo e aceitando nossa impotência fundamental, e a inutilidade essencial da vida. Frequentemente, os personagens de Anderson se encontram quando deixam de procurar ou fugir.

Se Wes Anderson tem o costume de propor um jogo de estruturas rígidas e abalá-lo ao longo do filme, O Esquema Fenício vai ficando mais difícil de assistir quanto mais este se mostra um jogo de cartas marcadas. Tendo cada vez menos a dizer, o cineasta vai se vendo ainda com uma trama longa e complicada nas mãos para amarrar, e se sabe divertir com o controle e a esperteza, se resume a bater cartão na longa cena das trapalhadas finais, que poderiam, inclusive no modo como são filmadas, ser um episódio preguiçoso de comédia de domingo na televisão. Enquanto isso, as primeiras imagens são algumas das mais fortes de seu cinema, com uma carga de construção de mundo inigualável. Kodar na banheira cercado pelo ballet das enfermeiras, a dignidade com que elas andam, a melancolia e presença com que ele descansa, não só um grande retrato do poder, do mundo, como do cinema de Wes Anderson.

No fim das contas, não é muito do interesse de Anderson firmar uma mensagem que traga respostas diferentes das óbvias ao grande cinismo que toma conta de seu universo. Toda a construção farsesca aqui, aliás, revela, mais uma vez, que conhecemos muito bem a doença, conhecemos os valores que vão nos salvar, e não é uma historinha ou uma solução que vai frear a máquina da morte. Algo interessante que Kodar personifica, porém, é tal abstração moral que sustenta a hipocrisia burguesa, e a economia de morte e destruição que ela opera. Quando acusado de um único homicídio, da mãe de sua filha, Kodar fica indignado e ameaça processar. Posteriormente, de passagem, menciona que seus negócios são responsáveis por escravidões em massa e possivelmente genocídios. É ofensivo, imputável por lei, dizer que esse homem matou alguém pessoalmente, mas está dado que ele mata povos inteiros sem olhar seus rostos. Justamente essa fronteira entre vidas que possuem identidade ou não, possuem valor ou não.

Um bilionário pode possuir muitos argumentos, e muitas formas de sustentar tais argumentos, para dizer que não é um assassino em massa. A primeira e única escolha que lhe cabe, no entanto, já foi feita quando ele decidiu preservar seu lugar de bilionário. Entre o discurso e a realidade, o horror imperdoável e um coração bom escondido em situações particulares, Kodar acaba encontrando um dos mais morais finais entre todos os personagens de Wes Anderson. Ele deixa para trás a fortuna e vai começar uma vida de verdade, agora do jeito certo, no mundo real, com valores humanos e uma boa energia no ar. Largar uma fortuna e dedicar seus dons a trabalhar num restaurante é a forma mais nobre de dar as costas ao mundo em que vivia e focar em si, viver o viver. É engraçado que o filme se embarace tanto por quase toda a sua duração nesse soluço sem propósito que é toda a monótona, redundante trajetória de Kodar e, de repente, num golpe, tome o caminho mais moral possível, deixando clara a diferença entre o mundo dos negócios, diagnóstico todo do problema, e o mundo da vida real, do amor e do trabalho, a alternativa certa.

Talvez o momento em que esse conflito entre movimentos mais encontrou uma amálgama que não delimita claramente seus valores foi aquele em que os irmãos Tenenbaums assumiram sua paixão e ganharam com naturalidade a bênção do pai. Talvez seja por isso o momento mais belo, mais amargo de seu cinema, não há saídas, caminhos eternamente sombreados pelas mudanças e traumas que marcaram suas inflexões. Talvez, como sociedade, devemos aceitar sempre e mais que não podemos senão seguir caminhando enquanto o ideal normativo insiste em ficar para trás.

Villar da Cruz