O Natal dos Silva, série de André Novais de Oliveira, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Correia
(Brasil, 2025)

A falta de dramaturgia que pense as tradições brasileiras no contexto natalino é curiosa, tendo em vista a enorme tradição dela, especialmente na televisão. Se existem, e obviamente existem inúmeros especiais natalinos produzidos com o selo Globo no passado, eles geralmente oferecem fantasias utópicas como numa atualização de Frank Capra, distantes da cultura do Brasil, ao contrário da série produzida pelos rapazes da Filme de Plástico. Há espaço sim para a fantasia, a utopia nas relações humanas, mas na expressão pura, é uma série que tenta nos aproximar de um mundo palpável. Das pessoas às decorações, o amigo secreto, o peru, os ritos. Todos os elementos tradicionais desta comemoração religiosa – algumas delas vão aproximar alguns espectadores mais que outras de se enxergar em cena, o que é natural, visto que as famílias são diferentes, mas as similaridades serão, sem dúvidas, enormes com a realidade das famílias brasileiras. Neste aspecto, o mais óbvio da série, ela tem sucesso em tornar o feriado crível, luminoso e tátil. Mas como eu disse: esse é apenas o primeiro desafio.
O lastro da Filmes de Plástico vem de longe. O sucesso dos filmes produzidos pelos rapazes deu a eles o selo, raro, de uma produtora autoral. Seus filmes respeitam profundamente seus autores individuais, mas, respeitadas as particularidades, são diferentes do resto e semelhantes entre si. O primeiro filme que vi com o selo deles foi o curta-metragem do André Novais, Fantasmas. Articulava crueza, cinema digital e ressentimento expressivo de forma única. É engraçado e trágico. Nunca escrevi sobre ele, inclusive nem o enxergava num viés coletivo naquele momento, porque, francamente, foi me apresentado num contexto individual. Tive a certeza de que o Novais seria relevante, imaginei os possíveis longas que poderiam surgir de uma mente criativa como aquela. Eles viriam e não se pareciam em nada com os que imaginei, o que deve ser bom, a previsibilidade não é uma qualidade interessante. Alguns curtas depois, escrevi pela primeira vez sobre uma obra deles quando assisti ao filme coletivo assinado pela Filmes de Plástico, o filme distópico Estado de Sítio, uma espécie de filme de apocalipse com filme de galera, brincadeira com coisa séria. É um bom filme, naturalmente caótico e irregular, carregando diversos autores, sobre o qual escrevi na época no meu blog, tive uma enorme identificação com ele. Muita coisa aconteceu nestes mais de dez anos. A Filmes de Plástico foi definindo sua cara, algumas pessoas saíram, outras se solidificaram. A obra de Andrés Novais e Gabriel Martins como realizadores é hoje celebrada, oficializada, e é sim, a meu ver, possível afirmar que a realização de uma série natalina com o selo autoral para o grupo Globo, seja um marco que torna o sucesso da produtora mais do que um acontecimento da bolha cinéfila. Sim, eu sei, Marte Um extrapolou essa bolha, outros filmes extrapolaram no seu ritmo, me sinto às vezes mais seguro apresentando suas obras para público não-cinéfilo do que para os iniciados, que esperam pelo que vão receber. A comunicação popular sem abandonar o pé no vigor é um mérito raro e verdadeiro. Mas estamos falando de uma série de natal lançada na Globoplay, uma barreira que soaria intransponível nos tempos de O Estado de Sítio ou dos queridos Fantasmas.
Feito esse preâmbulo íntimo, particular, entre eu e eles, podemos retornar a O Natal dos Silva. Um grande desafio que torna a série um pouco desigual é que os episódios têm linguagens bastante distintas, o que é interessante, mas também custa um pouco, porque televisão é também foco e nem sempre aquela enormidade de personagens parece capturar todo o meu foco. Acho que o primeiro episódio é o mais careta, de certa forma, e talvez fosse inevitável, porque precisa introduzir o ambiente e acaba sendo calcado na natureza agressiva da Bel, irmã mais velha e que tornou-se a dona da morada após a passagem da matriarca. A estrutura dramática é construída ao seu redor, seus filhos são mais cuidadosamente construídos que os seus sobrinhos, é ela quem herda e a forma como gere a casa, e o primeiro Natal sem a matriarca é o que dita o ritmo da série.
Embora ao longo dos cinco episódios a Bel seja bem construída, num primeiro momento ela é mais histeria que calor, o que é dramaticamente útil para a chegada dos outros personagens, formando um rastro que vai fazer mais sentido no quinto e derradeiro episódio, quando vemos a Bel depois do pandemônio que se dará na noite. A minha sensação é que a abertura deixa um gosto de interesse, mas não fascina como seriam os próximos episódios, um pouco pela fauna de personagens que seriam desenvolvidos e que não estão presentes neste, que é basicamente uma introdução ao núcleo dela, seus filhos e sua nora. Apresenta alguns temas importantes e a direção de arte marcante da série, que cria aquele ambiente luminoso e cheio de penduricalhos tão reconhecíveis, mas creio que se permite voos menos ousados dos que viriam, goste-se ou não dos próximos episódios.
As atuações memoráveis são um marco desta série – Rejane Faria, figura recorrente na Filmes de Plástico, é quem carrega os tons mais complexos da série, uma vez que Bel é a personagem menos agradável. Ela é o centro do sentimento familiar, nem sempre feliz, mas tão vital. Sem ela, nada disso soaria tão tátil. Outros tantos brilham, destaco como Renato Novais é um ótimo ator. Ele interpreta um dos irmãos com menos enredo e é um personagem para qual eu torcia que voltasse à cena. A Lucimara é uma personagem fabulosa, interpretada por Raquel Pedras, porque é uma personagem que pareço reconhecer da nossa intimidade. Sua presença, falsamente invasiva, da pessoa que pertence, mas é relembrada o tempo todo de que não pertence àquele ambiente, é real demais. É outra pessoa desagradável, difícil e até mesmo odiável, e por esse motivo, tão emocionante. E Carlos Francisco, cuja simplicidade torna seu domínio de cena tão assombroso, tem pelo menos um momento fantástico inesquecível, no quinto episódio, quando faz seu monólogo sobre como a mãe roubou a louça especial que eles usam no Natal de uma patroa. Apesar do teor pesado da história, a tranquilidade dita a potência especial de Carlos, e aquilo tudo soa tão prosaico quanto possível, a história diverte e reflete muito do que é a vida daquela família sem sensacionalismos, quando o causo termina, eles voltam a catar o lixo do chão, em grupo, naturalmente.
O episódio mais ousado, sob a ótica da produção, é, sem dúvida, o episódio dirigido por Maurílio Martins, o segundo da série. É todo gravado num plano sequência, com elipses e uma fauna de personagens se movendo pela casa. A orquestração é interessante, me remete outra vez à simplicidade porque é tão difícil de ser feita, mais de trinta minutos com tantas cenas se intercalando, que me chama atenção o tempo que tomei para notar, mesmo com o olhar treinado, não termos cortes. Não sei até que ponto, honestamente, vejo motivos para o que vou, respeitosamente, chamar de firula, mas é um episódio divertido, introduz muitos personagens, alguns bem coadjuvantes, que são muito bons, engraçados. Me parece que é um caso de tentar adicionar pimentas ao tempero da série, ousadias pontuais que trazem para ela aqueles elementos autorais que o grupo não quer abrir mão no seu cinema popular.
Enquanto esses movimentos vão se encaixando e conhecemos a família, fica explícito que o tema verdadeiro, ao menos na ótica dramática, é como todos passam por problemas financeiros e a casa da falecida matriarca, aquela que serve como cenário para todos os episódios, torna-se a provável solução. Num destes impasses clássicos de uma trama familiar, Bel herdou a casa porque foi quem viveu com a mãe até o fim, embora a casa seja, em tese, de todos. Assim, ela não deseja vender, mas todos desejam que a casa seja vendida. Gritaria, porradaria, tudo vai se dar nesta noite um tanto sobre esse motivo, mas a resolução, que não será muito surpreendente, virá nos últimos momentos da série.
O episódio do amigo oculto é divertido, mas é um pouco previsível, permitindo lermos cedo demais as intenções e erros dos personagens que geram as confusões. De qualquer forma, ele funciona dentro da efetividade televisiva, sem maiores encantos. O que menos me agrada é o quarto episódio, embora ele esteja longe de ser ruim. A catarse da treta é boa, mas creio que ele alinha de forma meio pragmática todas as subtramas, como um levantador visando o atacante que seria o quinto episódio. Foi o que menos me agradou, no sentido prático, do prazer de assistir. Fica a dúvida, totalmente irrelevante, se a série não seria melhor com um pouco de síntese e espalhando alguns destes elementos ao longo de um episódio a menos. Mas, admito, não significa nada além de uma curiosidade – como está, funciona, mas me parece que neste ponto, sinto sinais de cansaço na noite sem fim.
O melhor episódio é o quinto. É o mais bonito, recheado de pequenos momentos memoráveis. Citei o monólogo de Carlos Francisco, mas é justo apontar a grande sequência emocional que é quando Lin cuida da Bel, a melhor sem dúvida entre as duas personagens. A tensão entre a aceitação da mãe pela noiva do filho é uma das poucas tramas paralelas realmente desenvolvidas em todos os episódios, com atenção e cuidado. A paciência e a doçura nada necessárias de Lin que desmontam Bel é o golpe que desvenda de vez a personagem agressiva da irmã mais velha da família. Sem a intervenção de Lin, sua personagem sendo o elemento novo naquele circuito, talvez não prestassem atenção a Lucimara, nem Bel baixasse a guarda para, enfim, cuidar dos irmãos e da família como uma segunda mãe. Talvez seja tudo, um pouco, sobre Bel permitir-se o papel tão indesejado, porque é um peso cruel para ela, de assumir ser a figura que cuida de todos os outros. A própria afirma para Lin: não sou sempre desse jeito. Ninguém é como nas noites de reunião familiar. Como é uma série que pretende ser filiada à tradição e a nossa é ditada pelo cristianismo, nos é imposto, para fechar, a oração – todos precisam se entender antes de agradecer, e fica para cada um a própria reflexão: onde a tradição acaba e começa a caretice. Aos meus olhos, é tudo natural, não é um conto rebelde. É o conto de Natal, talvez tenhamos feito a volta e terminado apenas atualizando o Frank Capra, mas será mesmo isso uma questão? Como entretenimento televisivo, é um sucesso.
Guilherme Martins
