O que não pode ser dito, de Dan Sallit
(What Can’t Be Mentioned, EUA, 2026)

“Não complica. Não sedimenta. Não há como reter. Como não se deixa plasmar, não se dissolve. Não levanta, não evola, não flui. Não tem noção de nada. Não tem nada. Não acontece na forma afirmativa. Não dá para pegar e puxar – nem esvaziar. Nem esquecer. Nem fingir que não.”

Leonardo Fróes

Para que serve a psicanálise? De fato, para nada. Pode soar algo como um passatempo ou um jogo, uma proposta. Uma mecânica da palavra, um lugar. Uma possibilidade, uma linguagem, um estudo. Uma poética, uma história da literatura. Um projeto. Como explicar no mundo real, para quem não se interessa por psicanálise? Se não acumula, não sedimenta, não constrói. A psicanálise dá resultado? Ué, que resultado exatamente você estava esperando? O resultado da vida é a morte?

A psicanálise de Freud é considerada por muitos uma linha filosófica bastante pessimista. Se formos tomar como parâmetro as expectativas dos fãs incautos da psiquiatria contemporânea, o próprio Freud é bastante cético em relação à psicanálise. Se essa forma de terapia conseguir pegar um indivíduo incapacitado de viver e torná-lo pelo menos capaz de performar uma vida normal sem ser um risco a si e a seus arredores, o pai da psicanálise ficará satisfeito. Ou, ai de mim, nem tanto os arredores.

Tipo Jackie pressionando o irmão e a cunhada a articularem algo que, para ela, está no ar. O casal grávido escolheu não saber o sexo do bebê até o nascimento. Isso não é, de forma alguma, do feitio do irmão, mas ele também não se incomoda com a escolha feita pela esposa. Jackie quer despertar algo no irmão, despertar seu desejo, sua verdadeira vontade, alguma potência que ela acha que talvez o irmão não se interesse o suficiente em manifestar. Algo, inclusive, que o difere da esposa, quanto a quem Jackie está buscando alguma forma de expressar o que realmente pensa, ou algum motivo para não pensar que é simplesmente uma mulher simpática. O irmão termina por encontrar a coisa certa que precisa dizer para Jackie: algumas pessoas tiveram suas vidas bagunçadas pelo erotismo, outras não.

A psicanálise não é necessariamente sobre o indivíduo libertar seus desejos, é principalmente sobre conviver com eles. Jackie fala que algumas pessoas são boazinhas demais para psicanálise, ela é xiita de uma visão de psicanálise em que todo mundo vá viver a realidade no pêlo e domar os dragões dos sentidos, se libertar e crescer. Mas você pode chegar para o seu psicanalista e dizer: “Meu objetivo com a terapia é acordar”, ou dizer: “Meu objetivo com a terapia é adormecer”. Jackie não aceita que algumas pessoas sejam, ou queiram ser, meio “vanilla” mesmo, e pareçam mais calmas e resignadamente felizes, enquanto outras vão sempre estar se contorcendo por aí.

Acreditando que o irmão precisa tomar alguma consciência, alguma atitude, Jackie faz brotar uma crise que não precisava existir. Faz um questionamento pertinente que vai despertar um problema que não estava ali nem tinha por que estar, sinceramente. Isso tem mais a ver com a psicanálise. Ela não vai necessariamente encontrar o equilíbrio, a psicanálise é disruptiva. O nome original do filme é “O que não pode ser mencionado”, que é algo diferente do que não pode ser dito. Aquilo que não pode ser dito, pode ser mencionado. E aquilo que não pode ser mencionado, pode ser dito. Mencionar é trazer para a realidade, não simplesmente dizer. Até porque, e é essa a dinâmica estabelecida por Lily, é que a gente pode dizer tudo, mas nem tudo a gente precisa mencionar. A psicanálise é perigosa, é como uma pedra radioativa, que você toca por sua conta e risco. Você vai ganhar superpoderes ou definhar?

Não se trata exatamente do que o irmão é ou quer, ou da psicanálise em si. É Jackie quem parece estar nesse lugar intermediário da psicanálise, em que o indivíduo abriu a caixa de Pandora da própria liberdade psíquica, mas ainda não consegue lidar com todo esse embaraço que aí se encontra. Para Freud, esse estágio pode não ter fim, pois depende muito do caráter do indivíduo, sua disponibilidade para agir dessa ou daquela forma, de acordo com suas verdades ou em busca delas, e das circunstâncias, do mundo ou do corpo.

Jackie coloca muito bem a psicanálise no mundo, justamente no mundo denunciado pela psicanálise – no “Mal estar na civilização”. Psicólogos são foda, pode ter certeza, eu conheço essa gente. Qualquer teoria daria super certo, se não fosse pelo ser humano. Freud sonhava com um mundo em que a psicanálise libertaria o ser humano de alguns embaraços que o separa de um mundo mais em harmonia com os desejos e bem-estar da maioria, e fosse pelo menos mitigada a violência natural presente em qualquer contato entre seres humanos, cada um seu universo próprio e ambos essencialmente indiferentes em relação ao outro. O problema para isso, o próprio Freud afirmava, é que, conforme a própria psicanálise comprova, o ser humano terá sempre uma resistência natural à psicanálise. Nem mesmo nossa psicóloga, tão daora, tão esperta, tão cabeça aberta e bom coração, é livre dessa resistência, ela, por seus próprios motivos, não quer fazer terapia. Não importa o quanto a teoria seja bela, a prática nos coloca de volta no lugar de reles seres medíocres, que têm medo de psicanálise.

A sociedade que Freud sonhava tem, portanto, como obstáculo, o próprio ser humano. Sua escrita não era inacessível, pelo contrário, ele esperava que seus livros pudessem ser lidos por todos, se tornassem best-sellers, para que realmente transformassem o mundo na prática, que estivesse ao alcance de qualquer um entender sua teoria. O mundo sonhado por Freud era um em que todos fossem tocados pela psicanálise e tudo fosse por ela transformado, mas ele próprio sugeria a impossibilidade disso, uma vez que a recusa à psicanálise já está sugerida nas descobertas clínicas de Freud. O mundo previsto por Freud, portanto, é mais ou menos exatamente o nosso: a psicanálise existe, e o mundo se desenvolveu à revelia dela, exatamente na direção que ela denunciou. Ela transformou tudo, no entanto, por ser destinada ao fracasso, aumentou também as distâncias, agravou nossa compreensão do problema, e, talvez, até o sofrimento de quem a busca. No entanto, seria impensável um mundo sem ela, até por ser uma descoberta filosófica meio inevitável, a estrutura do inconsciente e a genealogia da natureza humana.

O mundo de O que não pode ser dito é justamente este: a psicanálise não curou, não salvou vidas, ela reconfigurou o problema, bagunçou o tabuleiro. Jackie reclama o tempo todo das estruturas sociais, das amarras da sociedade, das hipocrisias, dos moralismos, dos modos e etiquetas. No entanto, ela própria é bastante prescritiva em modos de ser, comportamentos, e bastante recatada quanto a demonstrações muito emocionadas de afeto. Esse, aliás, é outro risco da psicanálise: trocar os indivíduos reprimidos por amarras sociais, por um indivíduo cínico que agora faz questão de condenar, ele próprio, excessos afetivos, mesmo na intimidade. Jackie está perdida nesse labirinto, atirando pra todos os lados, sem entender direito o que fazer com as ferramentas que tem. Sem ter o controle do que fazer, do que sentir, como sentir, como expressar, articular, construir, desenrolar. O que prescrever, o que aconselhar, o que exigir, o que demandar, o que permitir, o que inibir.

A psicanálise não acumula, não sedimenta, não constrói. O trabalho nunca está feito, e, dia após dia, o ser humano se demonstra tão frágil, confuso e descontrolado desde o primeiro dia, tão dependente do trabalho que só ele pode fazer, trabalho no qual seu próprio corpo, sua própria mente, pode ser seu inimigo. Por mais que se localize aqui e ali, ou por mais que se entendam como angústias as suas angústias, o ritmo em que as coisas acontecem, em que se toma as rédeas do que se faz, se percebe o que se está fazendo ou se perde o controle, é, de fato, não um sem agruras. Jackie é a besta humana, como sempre incapaz de encontrar aquela dramaturgia fina e tranquila buscada por muitos que vão atrás da psicanálise, seu corpo, o vinho, a matéria orgânica da carne da pele do sentir, o labirinto de variáveis da vida e o enorme desconforto de cada momento, tudo jamais deixa de ser uma grande aventura. E talvez o que ela busque que a deixa tão em desacordo com a vida, é a própria aventura.

Nada disso parece muito pessimista, já que, conforme aceitemos o tal pessimismo da psicanálise, que vida exatamente esperávamos além da que temos, da que segue sendo possível dia após dia? Dado serem adultos operacionais, a psicanálise para eles não é questão de vida e morte, é uma escolha. São livres. Mesmo tão movido, em sua essência, pelo trágico abismo da miséria humana, não parece forçado que o filme seja assim tão simpático.

Villar da Cruz