O Samurai e o Prisioneiro (2026), de Kiyoshi Kurosawa
(黒牢城, Japão, 2026)

Existe uma certa graça nos dramas históricos. Não que a visão de mostrar os grandes homens que movimentam o mundo de fato me interesse. Mas a leitura dos homens de hoje sobre esses “sujeitos de referência” é o que de fato me interessa. Por isso mesmo que o filme de Kiyoshi Kurosawa sobre a Era Sengoku pareceu interessante no primeiro momento. Existe uma ideia sobre o espírito de seu tempo que esses filmes buscam dentro de alguma compreensão sobre o material adaptado. No caso de Kiyoshi Kurosawa, o espírito do tempo da Era Sengoku é Oda Nobunaga, o primeiro dos três grandes unificadores do território japonês. Ele que melhor representa a sociedade gerida pelos samurais, pelos homens que carregam a espada.

Me apoio na figura de Oda dessa forma porque, olhando para o filme de Kurosawa, essa mesma figura é o que permeia todo o conflito que segue a trama palaciana de Murashige. Parte disso se deve, principalmente, a forma como Nobunaga e o Murashige de Kurosawa são, na verdade, figuras opostas entre si: Murashige se nega a matar o garoto enviado para si como refém em resposta a rebelião de um vassalo, enquanto isso, Nobunaga personifica o conflito dos samurai com os Jōdo Shinshū, com suas execuções em massa dos monges, na ocasião do cerco do Monte Hiei. O filme adota bem esse retrato excêntrico sobre Nobunaga, uma figura belicosa, cruel e megalomaníaca: na única cena em que aparece, decapita duas criadas casualmente enquanto conversa com Murashige, depois disso ordena que seu vassalo execute o restante das criadas na sua frente. Essa cena torna-se marcante já que, ao longo do filme, vemos Murashige organizando a resistência contra Oda enquanto debate a moralidade do futuro unificador militar do Japão. Os sujeitos que lhe servem como interlocutores são justamente seus vassalos, sua esposa e, por fim, o estrategista Kanbei Kuroda.

O filme trabalha a tensão do cerco com uma certeza sobre a batalha que está por vir: o castelo sozinho não terá forças para resistir ao cerco de Oda e, justamente por isso, Murashige precisa manter a moral de seus homens alta. Ele confia que o castelo possa ser capaz de resistir até a chegada de reforços de outro lorde que procura se opor a Nobunaga. Esse lorde, no entanto, pode não participar da batalha. A tensão do conflito político aumenta quando, contra a vontade de Murashige, um assassinato ocorre dentro dos muros de seu castelo.

Esse assassinato, no entanto, não é de um aliado, mas sim de um refém político. A partir daí, o senhor do castelo precisa se perguntar se existe alguém o traindo dentro de seu castelo ou não. As muitas tramas interligadas fazem ele procurar conselhos com Kanbei e, a partir daí, a dialética do Samurai e do Prisioneiro se inverte: Murashige torna-se prisioneiro da própria dúvida enquanto Kanbei, tão designado a sua própria leitura do zen, mesmo perante a morte de sua família, continua conspirando a serviço de Oda. Mesmo sem a espada, um verdadeiro Samurai. Ambos, no entanto, prisioneiros.

D. A. Soares