
O Sentido da Vida, de Ryusuke Hamaguchi
(急に具合が悪くなる / Soudain, Japão/França/Bélgica/Alemanha, 2026)
Ryusuke Hamaguchi é um humanista radical: ele tem uma boa fé monstruosa nessa criatura bestial chamada de ser humano. Seu Drive My Car, filme lançado em 2021, aposta na capacidade dos humanos de se comunicar. Não apenas para dialogar, mas para criar algo novo, para entrar em comunhão entre si: com o texto de Tchekhov e os contos de Murakami, os personagens entram em comunhão sem a necessidade de falar o mesmo idioma, a peça nasce enquanto Kafuku, enfim, perdoa Oto. Já em Evil Does Not Exist, a comunidade tem um sinistro, porém muito forte senso de coletivismo levando brutalmente a sério seu compromisso com a manutenção da comunidade e da natureza. Nem mesmo Takumi, ou o homem que ele mata, são de fato malignos, sua violência surge de outra ordem: o instinto natural, as pressões de uma irresponsável classe dominante. Hamaguchi é um homem que não se interessa pela maldade, e mesmo os homens malignos, os pobres homens violentos, eles ainda merecem sua compreensão benevolente.
Diferente de Drive My Car ou Evil Does Not Exist, não acompanhamos nossos personagens em locações fixas: enquanto Kafuku se mantinha na cidade de Hiroshima, onde precisa ensaiar sua peça, e Takumi vive em seu vilarejo, trabalhando como zelador quando sua comunidade é ameaçada por um empreendimento imobiliário em O Sentido da Vida, trabalhamos com suas personagens em trânsito: Virginie Efira vive Marie-Lou, uma antropóloga formada que completou seus estudos no Japão, mas trabalha como diretora de uma casa de repouso na França, em paralelo, Tao Okamoto interpreta Mari Morisaki, uma filósofa que terminou seus estudos na França, mas que, ao voltar ao Japão, decidiu se tornar dramaturga. Elas se conectam pelo tema: Morisaki promove uma peça sobre Franco Basaglia, figura central da luta antimanicomial na Itália. A peça traz o ator Garô Kiyomiya, interpretado por Kyōzō Nagatsuka, andando em um palco escuro, contracenando com cadeiras vazias. O plano se fecha no monólogo enquanto o próprio público participa da peça: as pessoas que assistem a peça usam instrumentos deixados pela própria montagem da peça, gerando um som de fundo para a apresentação. Esse movimento é interrompido quando o neto de Garô entra no palco. Tomoki, interpretado por Kodai Kurosaki, chega a até mesmo a bater em parte dos objetos cênicos, como se tivesse invadido abruptamente aquele espaço. Ele é imparável, mas o avô rapidamente o incorpora à peça. Ele se torna parte do palco.
A peça atinge um interessante eixo de conexão com Drive My Car: Kafuku usa as telas e diferentes idiomas para conectar os diferentes atores a peça pelo texto, em O Sentido da Vida, no entanto, a peça conecta a vida das duas personagens por fora, sem papéis, sem ensaios. Marie-Lou se conecta pela peça por conta de seu trabalho como cuidadora, enquanto isso Mari se conecta com o tema através do câncer. O filme atravessa essa relação das duas: elas transitam no espaço uma da outra, Marie-Lou viaja ao Japão para cuidar da amiga, Mari começa a trabalhar na casa de repouso administrada pela amiga. Elas passam a pertencer a vida uma da outra. Na segunda leitura da peça, quando as duas se tornam amigas, confidentes e companheiras, quando Mari não pode mais sair da cadeira de rodas, é que de fato observamos a força do laço construído pela peça.
A sequência da montagem da peça no jardim da casa de repouso, momentos antes de nos ser introduzido o fato de que o local era antes um manicômio, é marcada por um acidente causado por Tomoki. Em vez de as enfermeiras correrem para levantar os idosos, eles começam a se levantar sozinhos, eles se ajudam a se levantar, a massagear seus pés e pernas. Mari observa da cadeira de rodas. Ela se levanta também e abraça a amiga, seu sorriso trêmulo diz tudo: “eu quero viver”. E como é lindo. Como é lindo o cinema de Ryusuke Hamaguchi, e como é igualmente devastador… O filme nos apresenta outra elipse, dessa vez, vemos Garô e Tomoki jogando as cinzas em uma montanha perto de Kyoto, onde ficava a residência de Mari. O filme se encerra mesmo na casa de repouso, onde vemos que Marie-Lou pode finalmente pegar no sono, sabendo que ela e sua amiga provocaram uma mudança real no local e na vida de seus residentes. Um cocô de passarinho cai na cabeça dela, ela ri. A ponte que leva o impossível a se tornar possível só pode ser vista depois que encontramos o caminho, afinal.
D. A. Soares
