Obsessão, de Curry Barker
(Obsession, EUA/Inglaterra, 2025)

O espectador como cúmplice dentro do horror satírico

Obsessão (2026) começa sua história a partir do olhar romântico de um homem que deseja se declarar à garota por quem é apaixonado. Assim, o longa se inicia com um recorte que simula uma comédia romântica e um enquadramento que omite conscientemente elementos ao espectador. Por meio de um plano e contraplano, anuncia-se aquilo que será visto ao longo da narrativa, ainda que esse público ainda não saiba. O foco se concentra no rosto de Michael Johnston; o fundo não importa, o mundo ao redor menos ainda. Seu discurso e sua figura são o centro da imagem. Até mesmo a garçonete que simula Nikki permanece calada, sustentando apenas um sorriso. A câmera, então, expande esse fragmento e revela a existência de outro homem. Mais uma vez, a palavra é masculina. 

Paralelamente, o longa peca em sua escolha de insistir e tornar a personagem de Inde Navarrette alguém cuja palavra precisa ser constantemente validada, sobretudo nas cenas envolvendo seu pai. A dúvida sobre a veracidade de seu relato acaba reproduzindo um mecanismo bastante conhecido: a descrença direcionada às mulheres. Ainda que esse recurso possa dialogar com a proposta de colocar o espectador ao lado de Bear, sua repetição enfraquece a personagem e reduz parte da potência crítica que o filme parece buscar.

Embora o horror se transforme com uma baixa construção de tensão, torna-se interessante observar como, mesmo após o desejo e os indícios da transformação, o espectador permanece na posição de observador. A abertura suave e constrangedora se dissolve para dar lugar a um horror construído a partir de uma perspectiva patriarcal. É um horror misógino, pautado no controle e em um desejo que só se realiza dentro do não consentimento. A câmera passa, então, a tornar o espectador conivente. Não observamos Nikki; observamos a forma como ela é observada. Sua imagem é constantemente mediada pela obsessão do protagonista, e é justamente nesse deslocamento que o filme encontra seu maior desconforto.

A imagem reforça esse controle com enquadramentos centralizados e composições rígidas. Seu ápice talvez esteja no cenário do quarto de Bear: os pôsteres cuidadosamente posicionados, as luzes laterais, tudo disposto de maneira quase excessivamente calculada. O problema é que essa organização nem sempre amplia o desconforto. Pelo contrário, ao se unir a outros recursos, como a colorização e certas escolhas que parecem buscar um distanciamento de um horror mais frontal, o longa recorre a marcas bastante familiares do gênero contemporâneo — o que não é necessariamente um demérito. É natural que diretores consolidem estilos e cada época desenvolva suas próprias aproximações estéticas. A impressão que permanece, no entanto, é a de que Barker ainda não abraçou — ou compreendeu por completo — as forças que o próprio filme carrega. Diferentemente do último filme de Massacre da Serra Elétrica, em que os momentos gráficos revelam o aspecto mais interessante da obra, Obsessão encontra sua força justamente no que permanece atmosférico: o abandono vivido por Nikki e a incapacidade de Bear de aceitar a rejeição. O terror está no comportamento, na escolha — ou melhor, na não escolha. Sua manifestação física serve muito mais para amedrontar o protagonista e, por consequência, uma parcela do público, que permanece olhando e, por vezes, rindo dos acontecimentos, mas jamais se retira. Está ali, sentado, aguardando o pior

E o pior, de fato, vem. O desfecho do longa revela, mais uma vez, a covardia de homens como Bear, reforçada por uma dupla crueldade: a dele, ao deixá-la naquela situação, e a de quem assiste, traçando um paralelo com aqueles que consentem e se calam diante da violência masculina. É essa violência que a câmera estática captura. Nikki segue sem domínio sobre o próprio corpo. Ao retomar, ainda que parcialmente, o poder de escolha, sua primeira decisão é afastá-lo. Só então a câmera se move. O pesadelo não acabou; apenas deixamos de olhar para ele.

Lara Guimarães