Onde Repousar Meus Olhos, de Hong Sang-soo
(눈 둘 데가 없네 Nowhere to lay my eyes, Coreia do Sul, 2026)

Se By the Stream é marcado por um movimento de reencontro do equilíbrio, como uma volta para casa, uma estabilização das energias confluindo para uma harmonia possível, Nowhere to lay my eyes é em tudo oposto. By the Stream mostra vários estranhos se encontrando em meio a montanhas geladas e criando laços, até que se tornem uma unidade dramática densa e de intensa generosidade mútua.

Nowhere to lay my eyes começa como um filme banal de família e vai desmantelando os laços da protagonista com as pessoas em cena, até que não haja mais um núcleo harmônico (família), e sim várias ilhas irredutíveis umas às outras. Ela vai se afastar da mãe e da vida pessoal, vai para o mundo. Amarga com o irmão, amarga com o terreno que recebe, amarga com as conversas sobre namorar etc, ela quer fugir para uma outra coisa, uma outra dimensão, que acaba sendo expressa por seu trabalho artístico.

A poesia não busca o equilíbrio com a vida cotidiana, mas existe em outra dimensão marcada pela amargura. A beleza pura não só representa, mas contém, abafa, todo o desprezo que essa mulher tem pela sua vida, ou, aliás, não só pela sua vida, talvez pelas possibilidades de vida conforme o mundo que temos as oferece. Ela se encerra completamente na natureza, como se produzisse uma dimensão paralela, uma suspensão da vida.

Assunto central, portanto, são as fronteiras entre essa dimensão da poesia e a dimensão da vida real. Essa personagem expressa seu desprezo pela ideia de documentário como um gênero artístico que se autoproclama a expressão imparcial da realidade, ao contrário da ficção, que se deseja a realidade, mas dentro de um pacto estabelecido em que estamos conscientes desse desejo. O assunto escolhido pelo documentarista, o padrasto, complica ainda mais essas fronteiras: ele filma um ritual que é, todo em si, performático, fruto de uma escolha estética que possui um significado profundo. A dimensão textual do documentário, o conteúdo das entrevistas, seria também ele próprio oposto à pretensa parcialidade do documentário. Os entrevistados refletirão, eles próprios, sobre o significado da performance que eles estão encenando. O que a agrada na ideia de documentário do padrasto é que se trate de um dispositivo em que o que está em jogo não é um fato natural imparcial, mas um jogo poético proposto por essas pessoas para suas próprias vidas, colocando em cena a própria vida como uma encenação sem propósito que não o subjetivo. Tudo isso em torno de um tema que retorna a legitimidade à poesia: nada mais real que a morte.

A vida em família também é uma estrutura teatral que vai se desmontando conforme cada personagem se revela uma pessoa real. Para a ideia de família da mãe, não faz sentido que a filha, se não está lá tão bem-sucedida por conta própria, não queira ir se juntar à prosperidade da mãe. E toda a ideia de mundo da mãe é incompatível com a da filha, a tal ponto que esta nem queira mencionar os filmes que faz, para não ter que explicá-los. Explicar seria despertar o desdém da mãe. Como na cena da discussão do conceito de documentário, o filme todo é latência do fato de que não dá para abrir a boca sem aumentar ainda mais as distâncias.

A mãe abriu um restaurante, mas nunca fala sobre cozinhar, apenas sobre empreender. Ela se preocupa com o futuro da filha, mas não consegue articular exatamente o que é o futuro, só sabe que precisa acumular bens, ao mesmo tempo em que não esconde certo desprezo pelo fato de que a filha não parece se preocupar com essas coisas. Parece querer castigar a filha, ou a filha parece acreditar nisso. O título não é nada delicado, não ter onde repousar os olhos é torturante, trata-se de uma situação em que não basta fechar os olhos, uma vez que assim, por trás das pálpebras, eles ainda estarão lá, sem onde repousar.

A protagonista é marcada por essa desilusão, essa subtração que não encontra o zero como resultado, algo que cai para fora, sem um chão onde cair. Desafeita às afetações de quem se ilude facilmente com a poesia, ela apenas fica irritada com a presença de uma menina que sorri para tudo como quem ainda está tentando se preencher com essas ilusões, “Que menina esquisita”, ela resmunga para a gente. Ela não busca pessoas a quem se aglutinar, encara a nova amiga como um estorvo que, por razões práticas, vale aceitar como companhia e tentar compreender. Ninguém que não tenha entendido as coisas interessa a ela, mas sua intransigência tão a priori pode sugerir que mesmo quanto ao padrasto artista, por exemplo, seu impulso é de também já recusar de partida. Em algum lugar de sua cabeça, talvez ela viva na dimensão da poesia, e o outro, como evidência irremediável do real, sempre lhe bate num lugar de recusa. Ela afasta.

Existe um curto momento em que finalmente ela estende a mão para segurar a menina, sua nova irmã de consideração. O gesto não é o de união, mas como que de um convite desesperado. As duas podem coexistir, podem se encontrar numa dimensão de amizade. A dimensão de amizade não é a da poesia, não é imune ao real. Podemos, reconhecendo a amargura entre nós, contemplá-la juntas. Deixar a poesia de lado e não se deixar contaminar pela amargura, esse lugar de fina sintonia, é onde pode acontecer um encontro possível, a amizade.

É uma postura intransigente da filosofia oriental em contraste com a ocidental, em que em vez de a gente ficar quebrando a cabeça com essas questões espirituais, com a eternidade, a gente simplesmente se afasta delas e percebe que a vida só continua sendo. A amargura dessa talvez incompatibilidade entre mundo interior e vida real chega a um nível inconciliável, em que mesmo o cineasta se vê impotente perante essa questão, que é, aliás, a questão principal e incontornável do fazer cinema.

A partir de sua perspectiva do cotidiano, da utilidade e da vida real, a mãe simplesmente não tem o que dizer sobre o filme da filha, filme que também se encerra em si mesmo. Ela simplesmente não consegue trazer algo dele para o mundo real, diz apenas: “É curto, né?”. O filme fala por si só, e a posição da mãe, o tempo durante o filme é: “O que exatamente estou fazendo?”. Não é a de escutar. Não podemos condená-la: se sua filha fala que fez um filme, o que você faz? Vê o filme. Essa, na vida real, é a ação que você realiza. Se mergulhamos no filme dentro do filme, é porque Hong finalmente conseguiu, talvez, nos sintonizar com o inexplicável deste, e somos finalmente livres para enxergá-lo como o que ele é, ou seja, algo que não serve para exibir numa sala de cinema, mas é também maior que um filme.

Lembra daquele texto que o Godard deu no fim do História(s) do Cinema?

“Se um homem atravessasse o paraíso em sonhos e saísse dele com nada além de uma rosa como evidência de sua experiência, o que dizer então?”

O filme de Hong Sang-soo é quase como se Godard olhasse para essa rosa e dissesse: “O que eu faço com essa merda?”. E alguém respondesse: “Sei lá, deixa em cima da mesa, estamos atrasados”, mesmo sabendo estar mentindo.

Villar da Cruz