Os Deuses da Peste, de Gabriela Luiza e Tiago Mata Machado
(Brasil, 2025)

Deuses da Peste e Shakespeare no centro da crise da filosofia messiânica
Em primeiro plano, Caliban veste sua coroa. Foi roubado, doutrinado, amaldiçoado, descartado e agora, por fim, coroado. O plano capta seu rosto enquanto os corpos que o coroam dançam atrás de si.
A sobreposição dos planos, janela onde se prende a relação entre o tempo e o espaço, é de alguma forma a unificação dos diferentes tempos com os diferentes espaços. No caso do filme: do teatro com a cidade, do presente com o passado, dos personagens com os atores, do palco com o backstage e, de forma mais profunda, do signo com o “mundo”. A partir daí, a sobreposição para de se traduzir apenas pela imagem, pela união dos planos, e passa a adquirir outro caráter, este que me interessa tanto quanto o primeiro, pois além da fascinação gerada pela imagem, gera-se também uma fascinação pela sobreposição do texto e do elenco, que dentro dos três atos circula por diferentes papéis.
Existe até então um espelhamento entre os diferentes períodos do filme, os muitos tempos e situações que circulam pelo espaço do quadro. Se ao começo do filme vemos o personagem de Renan Rovida ser ensinado pelo personagem de Paulo Goya a como andar como um personagem de Shakespeare. A partir daí, já existe uma confrontação. Enquanto o veterano procura a autenticidade no ato de se andar, o aluno busca a artificialidade, a performance. Essa confrontação inicial se repete ao transmutar o casarão em palco: Caliban, que ensina seu pai sobre a ilha, é instruído sobre o pensamento racional do mundo de fora. O oculto de Caliban contra a ciência de Próspero. Mais à frente, novamente encontramos uma cena parecida, desta vez, com uma repetição dos dois atores que anteriormente viveram Próspero e Caliban, dessa vez, a relação se mantém, porém adotando outro debate. Do oculto parte o discurso decolonial e da ciência esclarecida vem a história oficial, europeia, dos “vencedores”. É Shakespeare. É Caliban, do olho da tempestade para o centro da crise da filosofia messiânica.
Esses espelhamentos vão além da relação de Próspero e Caliban, do oculto com o decolonial, do esclarecido com o colonizador. A união dos tempos com os espaços gera mais que a união do palco com a cidade, usa da possibilidade que o cinema traz de libertar Shakespeare do palco e o joga para a cidade, ou melhor, para o país. O monólogo que encerra a vida de Próspero ganha outro sentido quando pensamos no passado próximo, longe dos trágicos heróis de Shakespeare. Não falamos mais da peste negra, a pandemia ganha novo nome, nova forma e um outro tipo de impacto, assim como o tirano ganha nova roupagem. Da Europa para o Brasil, de Próspero para Heleno, o pequeno, e dele para o Rei Branco. Da mesma forma em que o casarão se torna palco, o palco se torna rua e, no fim, se torna novamente casarão, para finalmente voltar ao teatro.
Enquanto o filme se permite a mostrar-nos suas diferentes camadas, quase como em forma de dobradura, afinal tudo está de certa forma sobreposto pela lente do paralelo, ele brilha mesmo quando se dirige a reimaginar Shakespeare, quando se prende ao teatro e quando liberta esse palco do teatro para alcançar as ruas. Em alguma parte do caminho, no entanto, perde sua potência. Quando Heleno abandona Próspero e se torna mais Heleno do que deveria ser, aí então é que me interessa menos. No fim, o filme parece querer jogar com uma inocência que eu não tenho.
D. A. Soares
