Pai Mãe Irmã Irmão, de Jim Jarmusch
(Father Mother Sister Brother, EUA/França/Irlanda/Itália/Alemanha/Inglaterra, 2025)
Pai Mãe Irmã Irmão é mais um Jarmusch que pretende extrair o máximo de vida a partir de uma estrutura rígida e programática, de três capítulos muito parecidos nos quais é radiografada, em cada um, uma dinâmica familiar diferente. É pensado a partir da repetição de elementos de um capítulo a outro e da variação dos mesmos jogos cênicos ilustrativos, que dizem muito mais respeito à própria estrutura do filme do que a qualquer possível noção universalista do tipo “no fundo todas as famílias são iguais”. Mais adequado ao filme seria dizer que todas as famílias passam por uma mesma crise, ou que o interesse de Jim Jarmusch parece se localizar em observar, com alguma distância, como uma crise única no mundo se faz sentir no seio da estrutura que molda toda a dinâmica das diferentes famílias ocidentais. Se há bastante humor em Pai Mãe Irmã Irmão, é porque Jarmusch vê essa crise como inevitável desde o início, e nela não vê motivo para lamentos, apesar de um espaço reservado a uma melancolia sincera e carinhosa com a qual alguém poderia observar sua própria trajetória com uma estrutura familiar em colapso em 2026. Não é um filme conservador, pois escapa desse registro, mas é de fato um filme dedicado à família nuclear em crise que não se preocupa também em rompê-la conceitualmente, apenas em registrar a crise desse modelo com a devida carga emocional que perpassa (ou deixa de perpassar) a vida de cada um dos personagens.
É interessante notar que nenhuma das três histórias retrata uma família tradicional nuclear completa, em um momento de ápice do modelo tradicional. Pai Mãe Irmã Irmão é um filme de pôr-do-sol, no qual Adam Driver e Mayim Bialik, que funcionam muito bem como irmãos, passam por incontáveis silêncios constrangedores durante o curto reencontro com seu afastado pai, interpretado pelo Tom Waits, e a figura da mãe está ausente. O mesmo ocorre na segunda história, cujo alicerce é a triangulação entre a mãe Charlotte Rampling e as duas irmãs Vicky Krieps e Cate Blanchett, que funcionam muito menos como irmãs. O terceiro e mais fraco dos episódios conta apenas com a figura dos irmãos, interpretados por Indya Moore e Luka Sabbat, cujos pais faleceram. Essa mudança maior na dinâmica do último episódio confere a ele um aspecto mais livre: é possível aqui explorar a cidade (nesse caso, Paris) de maneira mais intensa do que nos outros dois capítulos, confinados à casa materna ou paterna. É no último capítulo que a sinceridade entre os familiares consegue aflorar de fato, agora que estão livres dos pactos sociais tácitos que distanciam, das mais diversas maneiras, os outros personagens nos primeiros dois episódios. É também nesse último episódio que o movimento geral do filme atinge seu ápice, onde essa inércia melancólica que parece tomar conta dos jovens se faz presente, como se fosse resultado de todo um movimento geracional anterior e que deixou o mundo do jeito que está. Pai Mãe Irmã Irmão é um filme de pôr-do-sol, e o maior sucesso do filme é conseguir articular um mal estar melancólico e saudoso em meio a sua estrutura rígida e sem mais longos discursos.
Trata-se de um colapso pacífico e bem-humorado. No primeiro capítulo, que se passa em New Jersey, Adam Driver se faz presente na vida de Tom Waits com mais constância, mandando dinheiro e nutrindo alguma amizade distante. Mayim é a filha mais abertamente afastada, adulta, e depois de dois anos sem ver o pai, ela se surpreende quando começa a suspeitar de que Tom Waits talvez não esteja tão mal quanto ele quer fazer transparecer – na realidade, ele performa uma fragilidade e pobreza para os filhos, enquanto leva outra vida. No segundo, que se passa em Dublin, Charlotte Rampling aguarda Cate Blanchett, sua neurótica filha mais velha, e Vicky Krieps, a mais nova e aventureira das duas, para seu chá anual, a única vez no ano na qual, pontualmente, as três se encontram. O terceiro capítulo acompanha os irmãos independentes Skye e Billy pelas ruas de Paris, enquanto relembram a vida e se despedem do apartamento que dividiram com os pais. Ao longos dos três episódios, repetem-se copos d’água, famílias de skatistas na rua, a cor grená – as repetições e as variações são o próprio tecido conjuntivo do filme, e se a estrutura programática pode ser, a priori, cansativa, as dinâmicas entre os membros de cada família são interessantes o suficiente para sustentar a coisa toda. Pai Mãe Irmã Irmão pode ser irregular e rígido demais, mas se nem todos os capítulos são igualmente bons e se Cate Blanchett e Vicky Krieps acabam sendo um destaque negativo em meio ao resto do elenco, o movimento geral do filme é bem-sucedido, e Jim Jarmusch logrou fazer mais um filme que merece ser visto.
Lucas Bueno
