Paraíso Proibido, de Carlos Reichenbach
(Brasil, 1981)

Carlão Proibido
Essa redação não teve acesso à cópia digital linda, deliciosa, de Paraíso Proibido, restaurada, mas raramente exibida e não digitalizada por falta de interesse de não-sei-quem. Diferente da cópia sem cortes de Amor, palavra prostituta que existe apenas em 35mm, Paraíso Proibido foi restaurado, alguém tem. O Carlão Proibido, restaurado e disponível, mas guardado a sete chaves, negado a seu único propósito, que é ser assistido, cuspindo na memória de seu autor em prol de uma ideia de posse, de direitos autorais, de proteção de exibição, enfim, trama mesquinha, caricatura do momento em que estamos do capitalismo, ao ponto que poderia ser trama de um filme de Carlão, e é: a de Paraíso Proibido.
A miséria humana como comédia, se tem um paraíso, quer dizer que estamos falando de um ideal, algo projetado fora da realidade, num devir possível, pela negativa de toda a mesquinharia que presenciamos e pensamos que não deveria exatamente ser assim. Ou seja, ele é proibido justamente na medida em que não existe, pois talvez, de alguma forma, nós escolhemos a materialidade das coisas e usamos a ideia do paraíso justamente para consolar nossas carnes hipócritas, nossas vidas cretinas. O filme começa nesta atmosfera cínica e avacalhada da locução de rádio, a tragédia não passa de farsa, estamos surfando nessa vida de desilusão amarga, ostentando como podemos a postura de nossa relação com esse mundo que negamos ou no qual nos chafurdamos.
O homem aqui é o herói e a tragédia de si mesmo. Suas crises estão ligadas ao quanto ele não consegue se desvencilhar da trama estúpida do mundo que nega, por culpa do mundo, e por ocasião em série de sua própria fraqueza. A beleza, a inocência, o sonho, sempre estão presentes, mas constantemente se contaminando pelo mundo, se envenenando, descobrindo o próprio cinismo, a própria maldade, de uma resignação à única forma possível de conseguir aproveitar a existência neste mundo. É nessas desventuras e tramoias que se manifesta o Carlão Sonhador. É um filme de evidência, tramas trabalhadas no diálogo, na encenação, no extremo oposto de filmes como O Diabo, Provavelmente, que acontecem na espiritualidade, na interioridade pura, expressa pelo maneirismo de mise en scène. O maneirismo de Carlão está em levar ao extremo uma atmosfera de encenação do teatro melodramático, beirando a dramaturgia do barroco circense, mas não para criar um universo autoral estetizado, mas para elevar à máxima potência a materialidade do drama, a literatura com corpos, gestos, conflitos. O sentido mais cinematográfico possível da palavra literatura, sendo a caneta nem mesmo a câmera, mas a sutura geral das operações cinematográficas.
Chegando ao fim do filme, no entanto, temos um churrasco em que vemos vários dos personagens ali presentes e muita coisa acontecendo. Tendo acompanhado com atenção a narrativa, sabemos o que está se passando na cabeça de cada um daqueles personagens naquele momento, o que eles querem, o que eles desejam, o que estão sentindo, o que estão tirando da situação, o que buscam por trás da superficialidade que alguém ali presencia. Sabemos, portanto, mais do que qualquer um daqueles personagens, tudo que se passa espiritualmente ali. Sabemos tudo de suas interioridades naquele momento. No entanto, essa ‘interioridade’ que, naquele momento, conhecemos por completo, de cada personagem, não é o infinito de sua subjetividade, é tão somente tudo que sabemos sobre suas intenções, suas opiniões sobre o que está ao seu redor, suas dissimulações, seus jogos, seus labirintos, tudo baseado nas dramaturgias reais e evidentes que presenciamos, tudo nu, tudo obsceno, tudo mostrado, muito presente na imagem, na cena. Superficial, não, Carlão se prova um materialista, mas esse materialismo não nos desperta cinismo e desilusão perante a vida, negação do mundo, pelo contrário, ele nos lava a alma. Como a melhor poesia, Carlão devolve nossa existência à nossa materialidade, a nossos corpos presentes e momentos futuros. Podemos tentar mentir, nos enganar, enganar aos outros, nos trair, trair nossos imaginários, nossos infinitos, mas no fim das contas, tudo há de retornar ao caminho material, à existência real, isso há que sempre ser um consolo. Toda a morte interior, os abismos, a interioridade destruída, são só vai e vem, e podem ser esperança, localizada no investimento na experiência, na fé na materialidade da vida.
Podemos enxergar o filme como a negativa do tal “Paraíso Proibido”, que, por ser proibido, não está em quadro, ou, exatamente o inverso, podemos enxergar o filme como justamente as aventuras e desventuras que estão em tela. Carlão não reduz o ser ao material, ele transborda os sonhos na matéria, inflaciona de acontecimento seus filmes, pois não é o sentir puro e abstrato que compõe o mundo espiritual, é o acúmulo de acontecimentos, e a memória, também como matéria.
O personagem correndo aos gritos pela praia, em desespero, não é a marca da ausência do tal paraíso proibido, pelo contrário, é o paraíso proibido. É sua performance do paraíso, do desespero, da angústia, do escândalo do poeta maldito que ele escolheu performar e, portanto, ser. A relação melancólica com a moça que vemos, essa infinitude de sentimentos, paixões, de violência que vemos, são todos eles aqueles corpos performando suas interioridades como reais, sendo, e somente sendo, existindo, aquilo é o nosso único paraíso possível, céu e inferno constantemente borbulhando em corpos que escolheram a vida.
Assim, uma concepção de mundo materialista, em que toda a espiritualidade emana da matéria e da construção ou destruição da própria história, em vez de ser a expressão de uma essência anterior – Alma Corsária ilustra isso melhor do que nunca. De certa forma, o tal paraíso é também o próprio filme, tão transbordante de gozo estético, físico, erótico, sensual, cinematográfico, que é a experiência desse filme tão talhado na energia de vida. Falo isso de memória, né, vi o filme há muito tempo numa sessão especial que nos deu um gostinho da obra que nos é interditada, e depois voltei para essa vida chata e mesquinha de trabalho liberal e teatros do cinismo.
Villar da Cruz
