
Pitico: Hermes Ayres Azevedo (1881-1959) – Historiador da Província, de Júlio Bressane
(Brasil, 2026)
Canibaes de jaleco
Pitico é o retorno de Júlio Bressane ao cinema ficção desde 2022, com Leme do Destino, mas também é um retorno de Bressane a um certo registro familiar em sua obra. É desnecessário perder tempo reforçando o tamanho da obra de Bressane – trata-se, resumidamente, de um dos sobreviventes e raros veteranos que seguem trabalhando regularmente no nosso cinema, um raro sujeito que não vejo mal chamar de gênio. Seus últimos trabalhos eram estudos interessantes, quase investigações especulativas sobre a história do cinema do Brasil, diria que seu longa anterior, o Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísica (2025), era quase o seu Histoire(s) du cinema, um mergulho pessoal que parte do princípio do cinema brasileiro para terminar desembarcando nos seus próprios sonhos. Um filme fascinante que vai se tornando também um auto-documento, pois o filme a partir de certo ponto, é, basicamente, um recorte da Belair, com os filmes de Bressane e Rogério Sganzerla, e mais a frente um deleite de viagem pela obra do próprio Júlio. Não é uma egotrip, não vejo dessa forma, mas uma espécie de jornada do cinema brasileiro pessoal de Bressane, aquilo que o formou e aquilo que se formou, dali em diante. Difícil de explicar, difícil de vender. Certamente, um filme que poucos se interessam em ver. O que dizer, então, deste novo longa? Exibido na Mostra com pouca repercussão, até amigos próximos se surpreenderam ao ficar sabendo, em cima da hora, que haveriam duas exibições de um novo longa de ficção de Júlio Bressane no evento.
Pitico, diferente destes trabalhos recentes, como o citado Relâmpagos, é um filme curto, tem 75 minutos, e é um dos raros longa-metragens em digital do cineasta que foram fotografados em preto-e-branco. É uma realização divertida, inventiva, parece mesmo um filme naquela vibração de um Cuidado, Madame (1971), remetendo à acidez de um Bressane cômico, impiedoso e louco, aquele cara que foi, obviamente, influenciado pelo cinema mudo. Paulo Betti assume o papel do personagem homenageado, e é preciso dizer, realiza um trabalho irrepreensível. São poucos os personagens do filme, mas todos estão nesse tom exato, do humor escrachado. Me remete e causa saudade, no melhor dos sentidos, de figuras tão fantásticas que transitaram em obras de Bressane no passado, como Grande Otelo, Wilson Grey e Guará Rodrigues. Ele é o habitante daquela casa, mas não se engane; Muito antes de ficar evidente que ele é um espectro de uma época, o arquivista que resiste mesmo ao conceito do tempo, a câmera de Bressane não deixa grandes dúvidas: é uma história de fantasmas.
Os planos que caminham pelo que restou da natureza da Mata Atlântica ao redor da casa, em uma das primeiras sequências do Pitico, surgem como uma subjetiva espectral indubitável. A imagem não caminha, ela flutua, sobrevoa, cambaleante, tateando aquele espaço com intimidade, não é um movimento natural. O trabalho com as intervenções musicais, além de remeter à obra de Bressane, em alguns casos colando trechos do som de seus filmes, vai compondo com a linda fotografia e a graça dos gestos de Paulo, esse espaço-tempo que parece pertencer ao historiador da província, o arquivista, a figura essencial sobre qual a sociedade está progressivamente erradicando, desautorizando, desinteressando. Pitico não é apenas uma comédia de cinema mudo, uma chanchada do novo milênio, é também um sopro de vida. Paulo Betti e seu fantasminha camarada não expulsam os invasores de sua casa apenas para seguir sendo o dono de seu reino, por sua sabedoria única, ele os apavora porque, fantasma ou não, há mais vida no espectro de Hermes Ayres Azevedo, numa forma de fazer cinema, de se observar a história – do Rio de Janeiro, das artes, de tudo – na maneira com a qual aquele fantasma se coloca diante da câmera, do que naquilo que não resiste, apenas aborrece, na forma do casal, mas também, num cinema que ignora sua própria história, tradição e cultura. Não é Bressane declarando guerra a ninguém, é a sua obra que grita, suplica, num contexto contemporâneo, para seguir existindo. Cada novo trabalho de Bressane, com inestimável ajuda de Noá, Bruno, Rodrigo e todas aquelas pessoas que aparecem ao seu lado no final do filme, jovens, por tanto. Não existiria Pitico, esta obra que parece de outra época, sem o esforço de tantos jovens realizadores, o que reforça minha impressão de que o filme está lá por si, não contra o cinema brasileiro deste século, mesmo porque, sejamos justos: Júlio Bressane é, provavelmente, o cineasta mais ativo do cinema brasileiro desde o ano 2000. Se temos medo de perdê-lo para o tempo, não podemos esquecer do recado que nosso espectro preferido, o de Hermes, nos relembra: a história é uma canibal, não necessariamente como naquele recorte de jornal lido por Hermes, de quem emprestei o título para este artigo, ela está pronta para nos dar uma mordida, é melhor que tomem cuidado.
Guilherme Martins
