Primata, de Johannes Roberts
(Primate, EUA, 2025)
Johannes Roberts é um homem com uma missão. Num momento em que o cinema de horror sofre tanto com filmes que se desejam sofisticados e por vezes se sobrecarregam de significantes para tentar bancar uma ambição que os cenários básicos não sustentam, Roberts, desde que surge na cena de horror no começo da década passada, opera na direção oposta e tenta depurar seus filmes ao máximo. É um cinema que acredita na ideia do filme de horror como uma montanha-russa de emoções e o cineasta como um manipulador hábil. A ambição desses filmes se resume a entregar seus sentimentos mais primários, pode não ser muito, mas no contexto atual se destaca pelo tesão com que Roberts se entrega à sua empreitada.
Seu novo longa, Primata, é uma das versões mais desavergonhadas deste desejo. Roberts já fez dois filmes de Tubarão com a série Medo Profundo, e aqui volta a ideia do horror como revolta da natureza. No caso, trata-se de um chimpanzé caseiro infectado com um vírus raivoso, tornado uma besta assassina fora de controle. Primata não tem tempo a desperdiçar, a cena inicial explica o que vai acontecer, e após tempo o suficiente para introduzir as personagens humanas (duas irmãs e seus amigos que estão lá para servirem de vítimas), o chimpanzé Ben está fora de controle, o filme todo dura menos de 90 minutos com créditos finais. Roberts entende a lógica da economia, a relação entre as irmãs tem o suficiente para oferecer às atrizes algo para trabalharem para além do instinto de sobrevivência, o cenário não perde tempo para oferecer qualquer subtexto. O que existe é uma casa luxuosa cuja arquitetura é pensada para oferecer ao filme situações e o desejo de explorar o gore das cenas de ataque.
Primata é um filme bastante direto. Os ataques são cruéis e sangrentos. Roberts entende que num filme desses tanto a antecipação da violência como a chegada súbita dela servem como as maiores atrações. O filme ataca as suas personagens com vigor. Não traz em nenhum momento qualquer empatia pelas personagens em cena, seus atores são modelos, carcaças para as quais Ben vai se servir. Roberts tem pouco interesse em personagem e habilidade para com eles (o longa mais desinteressante dele que vi, Do Outro Lado do Porta, de 2016, é o que mais tenta se preocupar com dramaturgia), mas ele entende o poder da imagem do núcleo familiar sob ataque para o impacto do filme de horror e a explora ao máximo. É uma característica peculiar do cinema de Roberts que frequentemente retorna à imagem de dois irmãos numa situação extrema (aqui, Medo Profundo, Os Estranhos: Caçada Noturna, mesmo Resident Evil: Bem Vindo a Racoon City).
Roberts dá preferência para efeitos práticos tanto no uso do chimpanzé quanto nas cenas de violência, com efeitos de computador usados apenas para adornar as sequências, o que aumenta o peso delas comparadas a alguns filmes similares. Primata não chega a ter o domínio que George Romero demonstrara em Comando Assassino (1988), ainda hoje o melhor “filme de macaco assassino”, mas seu filme compara bem a Link – O Animal Assassino (1986), de Richard Franklin e acreditem “tão bom quanto um filme de Richard Franklin” é um elogio considerável para um filme de horror de 2026. Curioso observar como, em todos esses filmes, o animal foi de alguma maneira manipulado pela ciência e de que a sua fúria assassina soa como um gesto de resistência, uma forma de afirmar a própria individualidade. Como Roberts tem pouco interesse nas suas personagens e como a maioria delas são jovens bem fúteis, é possível afirmar que, desejos assassinos à parte, Ben é a figura mais simpática em cena, tão vítima à sua maneira quanto os manequins que mata. Ele é filmado por Roberts com um misto de maravilhamento e alguma empatia que escapa aos humanos em cena.
Um cineasta como Roberts se preocupa muito mais com situações do que com o todo. A pergunta “o que este filme quer dizer”, que por vezes domina o discurso sobre filmes de horror contemporâneo, é secundária para “o que podemos fazer para extrair mais de cada cenário”. Por exemplo, as irmãs passam uma parte razoável do filme se refugiando na piscina, por Ben não sabe nadar, e o filme extrai bastante dos seus esforços de alongar essa situação e encontrar novos focos de tensão em meio a esta espera, um grupo de personagens imóveis e um vilão que só pode circulá-los. Nunca soa como mero adiamento porque Roberts entende que é preciso extrair algo de cada situação.
Primata abraça este desejo de montanha-russa e espetáculo de gore de forma bastante desavergonhada. Em certo ponto, um grupo de rapazes excitáveis bate na casa para encontrar as jovens garotas, exclusivamente para que o filme aumente sua contagem de corpos. Abraça-se o ridículo sem meios termos, há uma cena em que uma personagem tenta fugir e descobre que pegou a chave do carro errado e o momento é engraçadíssimo. Roberts sabe tirar algo de tudo que seu filme oferece. O pai das irmãs é interpretado pelo ator surdo Troy Kotsur, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante por Coda em 2021, e claro, quando o filme tem oportunidade, explora a surdez dele para gerar tensão, definitivamente longe de qualquer bom gosto, mas bastante eficaz, e Kotsur está bem em cena e este é um papel melhor e de mais destaque do que Hollywood vinha lhe oferecendo pós-Oscar.
A trama toda dele sugere um dos meus clichês menos favoritos do filme de horror, o da personagem secundária que tem grande conhecimento sobre o mal em cena que está destinada a colidir com a ação, mas é geralmente morta sem realmente impactar o desenlace. Stanley Kubrick popularizou esta ideia na sua adaptação de O Iluminado (1980) e ela é recorrente nos filmes de horror desde então. Toda vez que vejo um filme cortar para uma subtrama em que uma personagem está tentando chegar à ação central, eu já torço o nariz, não curto muito as cenas com Scatman Crothers em O Iluminado, assim como não curto quando filmes tão diferentes como O Padrasto (1987) ou Fragmentado (2016) lançam mão disso. Nem preciso dizer que Primata é um filme muito pior que O Iluminado, mas é agradável ver que, quando Kotsur chega na casa das jovens, ele de fato é incorporado ao clímax. O temperamento de Roberts é muito funcional para permitir gastar tempo com uma subtrama “irrelevante”, tudo que está em cena em Primata está lá para ser usado.
Primata é pouco mais que seus piores instintos, orgulhosamente malvado na forma como resolve o destino de cada personagem. É fácil apreciar o controle formal de Roberts, um domínio de tensão e elemento de cena. Ele é um reformista conservador numa cena de horror cada vez mais higienizada e dominada por filmes de autor envergonhados. Um filme como Primata pode soar pouco ambicioso, mas existe nobreza no desejo de produzir algumas cenas de horror de impacto e manter a plateia minimamente engajada no resto do tempo.
Filipe Furtado
