
Primetime, de Lance Oppenheim
(EUA, 2026)
Algum tempo atrás, o algoritmo do YouTube me sugeriu alguns vídeos de canais que, basicamente, imitavam, em 2026, o trabalho do To Catch a Predator, que era esse programa sensacionalista da televisão dos EUA sobre caça a pedófilos, apresentado por um certo Chris Hansen. Confesso que não conhecia o programa, mas me chamou a atenção a facilidade com a qual, sem recursos nenhum, os youtubers fazem exatamente aquilo que vemos em cena no Primetime: as armadilhas com especialistas que são como hackers cooptados, isso é, gente que fala com muito conforto a língua dos fóruns e discords da vida, onde a pedofilia reina, mas que servia de cabeça seus pares pedófilos para serem expostos na sua grande fragilidade, e, claro, indubitável criminalidade. Gosto sempre de lembrar que, por mais nojenta e asquerosa que a pedofilia seja, ela é, antes de qualquer outra coisa, comprovadamente uma doença – pedófilos que não agem sobre seus desejos por controle emocional, medicação e terapia não são raros. O que me chamou atenção é que, mesmo recentemente, os comentários que falavam da figura de Chris Hansen como um herói e sobre como as pessoas deviam tentar envolvê-lo nos vídeos eram muitos. O mito que o tradicional ‘cidadão do bem’ criou em torno da figura de Chris segue forte, a despeito de toda a tragédia real estilizada ao limite neste longa de Lance Oppenheim, dos esforços de Robert Pattinson em dar um colorido caótico ao seu Chris, e, claro, dos fatos básicos, de que aquelas pessoas estão longe de fazerem um verdadeiro trabalho adequado de combate a pedofilia, afinal, visam lucros, anunciantes, fama.
Parte do que fascina no Primetime é o filme tentar mergulhar em todos os riscos que encontra na linguagem do reality, desavergonhadamente abraçando o sensacionalismo como parte de sua estética. O filme oscila entre momentos onde tudo isso é interessante e tantos outros em que é um desastre, sem qualquer limite para o tombo. Um exemplo: a dramaturgia toda da relação de Chris e sua esposa, sua família. Aquilo é terrível, é mal realizado, parece pedir desculpas pelo comportamento animalesco do sujeito no resto do filme. Ele pode passar por cima de todos, mas, veja bem, ele realmente ama sua família. É nesse curto-circuito que o filme tenta sobreviver, entre ser um espelho cínico dessa política, e, no mesmo momento, abraçá-la indiscriminadamente.
Me interessaram os registros menos palatáveis, a trama com o Skyler Gisondo, o ator contratado para fazer o adolescente que serve de isca, a forma como o filme pisa fundo na merda ao simular as cenas, como na cena esquisita onde o outrora garoto que contracenava com Tom Cruise em Jerry Maguire, entra na casa como um pedófilo que abaixa as calças em nu frontal sem cortes, para passar chantilly nas suas genitais para uma criança lamber, criando o choque no rosto de Gisondo quando ele se vira para encará-lo, provavelmente a imagem mais contemporânea que este filme reproduz.
Minha impressão é que Oppenheim queria se aproximar do abismo, consciente daquilo que fazia – que aderir esteticamente era importante para ele realizar o filme que desejava. A linha tênue entre aproximar-se do abismo e cair nele é mesmo complexa e arriscada, na minha experiência pessoal, Primetime erra muito mais do que acerta – um clássico filme-problema que será sempre interessante, tem seu valor, mas também passa longe do Redacted, de Brian De Palma, outro filme que se afunda na dramaturgia do grotesco, mas talvez seja crueldade deste crítico equiparar os cineastas.
Guilherme Martins
