
Privadas de Suas Vidas, de Gurcius Gewdner e Gustavo Vinagre
(Brasil, 2026)
A primeira vez que ouvi falar sobre o filme Privadas de Suas Vidas, acontece em paralelo com o momento onde conheci um de seus diretores: Gurcius Gewdner. Na ocasião, estávamos assistindo a uma sessão do atualmente foragido Cineclube Disgraça – emprego o termo estávamos pois inclui a mim e a um ou dois colegas, não sei ao certo, agora me falha a memória. Dentre os filmes que assistimos, estava Bom dia Carlos, dirigido por Gurcius. O filme, um cartão postal da cidade de Florianópolis, arrancou risadas com o personagem histriônico do médico que odeia seu paciente, Carlos, um homem com prisão de ventre que vomita por toda a cidade enquanto mostra as paisagens mais belas de Floripa. Ao mesmo tempo em que rimos, um detalhe ficou na mente de um amigo: o que realmente enojava no filme não era o ato de vomitar água com corante e macarrão mole cozido, mas sim pequenos detalhes, Carlos despenca no chão, ele lambe o corrimão de um túnel, Carlos deixa de lavar as mãos e passa as mãos sujas de vômito verde florescente nos olhos, na boca, no rosto… Uma sutil, microscópica e avassaladora nojeira de se embrulhar o estômago quando enfim percebemos o que de fato está acontecendo na nossa frente. Na discussão do curta, Gurcius comentou sobre seu próximo filme: Privadas de Suas Vidas, um filme de terror sobre privadas assassinas. Não esperava, no entanto, um retrato sobre os problemas para cagar de uma mulher traumatizada.
Cagar é bom quando a gente está em paz
Ouvindo na água o som
Que a merda caindo faz
Cagar é bom, música da banda Língua de Trapo
O filme abre com uma festa de quinze anos de um adolescente. A festa é uma cena que funciona com nuance própria: ela estabelece o ponto da vida dos personagens onde seus conflitos se formam e acabam se tensionando mediante o filme. O filme abre com essa dinâmica de família nuclear praticamente desfeita, os pais divorciados brigam para ver quem fica com os filhos, enquanto a mãe precisa equilibrar a atenção entre os dois filhos com ajuda dos seus colegas de trabalho. Esse breve prólogo termina justamente com a quebra do que parece ser o cotidiano dentro de um sangrento e específico absurdo. O filho da personagem de Martha Nowill, Luan, pula na privada e acaba perfurado por sua cerâmica. O corte, após isso, corta para Malu (Nowill), defecando em uma espécie de recipiente metálico sentada em um suporte dobrável. Esse aparato escroto que existe para evitar a cerâmica da privada não é suficiente para atender as capacidades fecais de uma mulher adulta, e justamente por isso Malu passa o filme com uma série de problemas intestinais originados pelo trauma da perda de um filho.
Esse trauma a paralisa não apenas no intestino, mas também emocionalmente. O filho que lhe resta é Gênesis (Benjamin Damini), um adolescente não binário que se mete em problemas na escola justamente pela defesa de seus direitos. Chama sua mãe do trabalho justamente por elu lutar para que na escola se ensine o pronome neutro. O conflito aumenta quando Malu se oferece para organizar um chá revelação para sua vizinha, uma influencer nos moldes de Virgínia Fonseca, que pretende capitalizar em cima de sua gravidez e da criação dos filhos. Malu organiza a festa, enquanto vive as tensões de criar Gênesis enquanto procura compreender pelo que seu filho está passando. Entender que, por mais que Luan tenha morrido, ela tem Gênesis, e Gênesis tem a ela. Essa relação, no entanto, compartilha do mesmo tipo de alívio que Malu destina a privada, ou seja, não existe alívio nenhum.
O filme passa a trabalhar com diferentes núcleos centrados em pelo menos três conflitos existentes dentro do ecossistema do prédio onde os personagens habitam: Malu vive seu drama familiar com Gênesis, enquanto a blogueira despreza o filho pcd do casamento anterior do marido que se preocupa em ser esquecido e desprezado após a chegada do novo filho do pai. À margem dessas preocupações familiares se encontra Villaça (Otávio Muller), o zelador. Ele investiga o desaparecimento sobrenatural dos diferentes residentes do prédio ao lado da vidente Dona Katka, interpretada por Olívia Torres. Sua personagem, a pupila sobrenatural de Bruce LaBruce na arte de ler o futuro com base no catarro, na merda e nos vestígios de excrementos deixados pelos seus clientes. Ela traz esse ar mais absurdo ao filme: um rastreador espectral, as visões com o demônio que habita as diferentes privadas e as leituras do futuro, enquanto o único homem disposto a escutá-la é justamente o Zelador, Villaça, que está prestes a ser demitido.
A partir daí, vemos as mais ousadas e diferentes jogadas com gore, privadas e merda. Muita merda. Essa mesma merda se mostra, em questões de textura, sempre ou muito líquida (tal qual o vômito de Bom dia, Carlos ou visualmente bastante parecido com café coado) ou então em uma textura pastosa colocada ali digitalmente. O ápice desses conflitos descamba na festa do chá revelação, onde a influencer Suellen faz seu lobby de influência. Naquela sala, reunida de influencers e outras figuras convidadas por ela, a caixa de gordura do prédio enfim explode em merda e as rusgas familiares se resolvem em vingança e reconciliação. Enquanto isso, Villaça vai embora junto ao caminhão de mudança.
Que la tortilla se vuelva
Que los pobres coman pan
Y los ricos mierda, mierda
Que la tortilla se vuelva
Que los pobres coman pan
Y los ricos mierda, mierda
Que la tortilla se vuelva, música de Chico Sánchez Ferlosio
A vingança de Gênesis contra sua mãe encontra o ápice do filme: aliada com Helinho (Miguel Navarro), o afilhado de Suellen, ela decide envenenar a comida da festa com laxantes. As pessoas comem, bebem e ficam com vontade de cagar, e cagam nas privadas, as privadas possuídas pelo demônio, o demônio do desamor. Rende-se, dentro desse plano, duas cenas brutais envolvendo o casal Suellen e Renato (Marco Pigossi). Renato, ao ver a merda subindo na privada, tenta usar um ácido para limpar o encanamento: ele termina com o rosto derretido e caído no chão do banheiro, enquanto Hélio pergunta ao pai se ele o ama. Enquanto isso, Suellen tem o desfecho mais sangrento: enquanto caga, seus filhos são puxados do ventre e engolidos pela privada. Ela se joga ao chão e começa a puxar pelo cordão umbilical, enquanto suas roupas brancas se mancham de sangue, enquanto tenta negociar a vida de ao menos uma das crianças. Não a vida de um filho, mas sim seu ganha pão. Enquanto essas cenas violentas acontecem, as tubulações do prédio estouram e, no salão de festas, os convidados são cobertos da merda escura e líquida, o lodo fecal que existe dentro do prédio.
Ela e o marido, representantes dos setores mais reacionários da sociedade, acabam mortos em meio a merda, impotentes frente ao sobrenatural. Enquanto isso, a operária liberal Malu se salva ao reivindicar a violência praticada contra a própria família ao se referir a Gênesis pelo nome e conseguir enfim se aliviar: ela defeca a merda guardada por onze anos e fecha o portal do inferno que existe dentro da privada. E assim, o filme se encerra: Gênesis, Malu e Helinho terminam o filme reunidos juntos, como família, enquanto tomam um sorvete de baunilha. Nessa hora, quase vomitei no cinema: eles cobertos de merda tomando sorvete foi mais perturbador que Olívia Torres se fundindo a merda dentro da privada ou a montanha de bosta que soterra o portão do inferno que existe na privada do salão de festas ao final do filme.
D. A. Soares
