Rochas Vermelhas, de Bruno Dumont
(Les Roches Rouges, Bélgica/Espanha/França/Itália/Portugal/Suíça, 2026)

O décimo quinto longa da carreira de Bruno Dumont nos lança alguns desafios: como contornar expectativas geradas por um corpo de obra tão particular diante das imagens que nos são apresentadas, como não assumir que o seu falso naturalismo é um desvio de percepção, fadado ao amargor do pesadelo. Então, pensemos. Dumont tem filmes bastante distintos na sua carreira, mas tem traços de estilo bastante reconhecíveis. Seus filmes podem ser focados em uma beleza natural, mas geralmente carregam tons pesados quando refletem sobre o ser humano, sem trocadilhos com seu longa de estreia. Alguns títulos assumem-se de saída próximos do horror, como Hors satan e Hadewijch, outros, como os recentes A França e L’empire estão próximos de um thriller futurista, como aqueles que Olivier Assayas realizou na virada do século. O traço quase indiscutível é o olhar cuidadoso com que constrói visualmente seus filmes, a maneira como esculpe paisagens e expressa sua dramaturgia num choque do que eu gosto de chamar de ‘falso naturalismo’.

O que seria falso então? No naturalismo de Dumont, tudo é extremamente calculado. O natural remete menos ao comportamento humano e sim a compreensão particular de natureza do realizador, chocando as imagens e sua beleza incontornável, ao seu método de direção de atores geralmente rígido, um pouco como a sua Joana Dark, que fazia justiça, tanto em ambientação quanto em infantilidade, a verdadeira Joana, mas que tinha também longos textos recitados de frente para a câmera, totalmente não natural. O caso de Rochas Vermelhas nos desafia porque, embora seja sim possível reconhecer tons semelhantes em certos pontos, este filme se aproxima do falso na construção de certas imagens, como nas crianças saltando em plano extremamente aberto das rochas muito altas – e deveras perigosas para os infantes – e menos na dramaturgia. As imagens que surpreenderiam por expor crianças ao risco de estarem na natureza bruta, são as mais falsas do filme. Dumont gruda sua câmera nos rostos das crianças e, surpreendentemente, não saem dali expressões calculadas.

Há, sim, muita humanidade nas crianças, embora seja um potencial elemento de choque o fato de serem tão pequenas vivendo dramas tão adolescentes e esse romance ser ditado por uma menina de cinco anos chamada Eve. Não acredito em coincidências no mundo dumontiano, certamente o nome da menina não é. Nosso protagonista é a menor das crianças, ao menos fisicamente, mas se porta como o líder o tempo todo de seu bando, ele se chama Geo, é loiro, magrinho, ri dos adultos, locomove-se até entre países sem necessidade de um responsável, e, sim, ele tem cerca de cinco anos, é o menino alfa do nosso primeiro bando. Quando seu grupo se encontra nas rochas vermelhas de onde saltam no lindo mar Mediterrâneo sem medo das consequências, com outro grupo de três crianças, Geo conhece Eve. Embora vejamos Geo caminhar por todo o vilarejo muitas vezes, nunca vemos nenhum responsável, nenhum tutor, nenhum adulto que se relacione com o menino. Eve, no entanto, tem um palacete, um enorme terreno com sua casa, tem uma mãe ausente e moderna, sobre quem sabemos pouco, mas existe. Eve é quem dita as regras desse relacionamento de amor infantil. Ela anuncia desde o primeiro dia que os garotos saem para Geo: gosta dele, mas também está com o B., um dos outros garotos. Eve não cogita em nenhum momento romper quaisquer relações, é uma menina de cinco anos firme nas suas convicções no poliamor. Azar o dos garotos, que vão se digladiando, com progressão na violência.

Daí vem outro ponto que remete a minha ideia inicial sobre expectativas. Em um filme de Bruno Dumont, é de se esperar que em algum momento, o excesso de humanidade transborde, tornando-se violência de alguma forma. Como mencionei antes, há filmes onde ela é explícita, outras vezes fica mais velada. Não vou dizer que a violência não ocorra em algum sentido, afinal, os garotos estão se agredindo. Mas é ‘low key’, um Bruno Dumont leve, suave, digamos. Então, até mesmo o seu maior rompante de violência, quando Geo reage uma última vez ao confronto com o outro namorado de Eve, não somos surpreendidos, o rompante é seco, mas é construído de maneira a suavizar o golpe. As consequências não demoram a ser abrandadas e o filme fecha em outra cena de amor fofo, esquisito, desengonçado, mas admirável entre o casal central. A burguesa poliamorosa de Eve e o malandro das ruas de Geo se abraçam pela grade que o separa da riqueza da menina. Os dois se apertam tanto, que esse amor chega a doer, sem perder nenhuma beleza. Talvez este filme decepcione, quem sabe, alguns fãs de Dumont, por subverter tão pouco as expectativas – mas e daí? Para quem acompanha com real interesse a sua carreira, mas passa longe de ser um grande admirador, Rochas Vermelhas está entre seus filmes mais fortes.

Guilherme Martins