
Se Eu Fosse Vivo… Vivia, de André Novais de Oliveira
(Brasil, 2026)
André Novais segue sendo um farol, e a Mostra presenteou a cinefilia paulistana com algumas exibições de seu melhor filme até o momento. Sua dramaturgia de fogo baixo, que articula tão bem todo um espírito do tempo nos mais simples gestos cotidianos, e que deixou uma marca indelével no cinema independente contemporâneo nacional, atinge em Se Eu Fosse Vivo… Vivia, um outro nível de inventividade. É de se esperar que o cinema de André Novais, de vez em quando, puxe nosso tapete: não é incomum ser estabelecido um certo pacto que depois é implodido completamente, seja por meio da revelação de um dispositivo oculto, como no caso do eternizado curta-metragem Fantasmas, ou de outras rupturas formais que impelem a narrativa para um campo inesperado do fantástico, como em Quintal, e que ressignificam drasticamente muitos dos elementos mais banais que haviam sido estabelecidos previa e despretensiosamente. Se Eu Fosse Vivo… Vivia não é diferente, mas aqui o fantástico da aparição de disco voador não funciona como uma interrupção de uma suposta lógica narrativa mais realista estabelecida até então, e sim como uma progressão natural da jornada de Gilberto (interpretado pelo sempre presente Norberto Novais, pai do realizador), já marcada por uma esquisita tensão entre ficção científica e a dura realidade do luto. A puxada de tapete que Novais faz tão bem acontece justamente em momentos mais sutis, quase imperceptíveis, até que, após um passo para trás inevitável, tornam-se essenciais para a compreensão do todo, como, por exemplo, a trapaça sobre a morte que a personagem de Conceição Evaristo consegue aplicar, ainda que não sem uma consequência trágica, e que norteia todo o desenlace do filme. O que parece ser um mistério, no fim das contas, já estava dado o tempo todo, e quando percebemos isso, é tarde demais: aí está o triunfo da estrutura de Se Eu Fosse Vivo… Vivia, e também a chave para que o espectador entenda uma filosofia maior sobre o fazer artístico presente nos filmes de Novais e, ainda, uma síntese da reflexão do filme sobre o luto e a memória, o núcleo emocional soberano da narrativa.
O final do filme, outra puxada de tapete, sugere uma reflexão formal sobre esse processo, e funciona como uma espécie de declaração artística. A anedota que Gilberto conta, após ser abduzido, sobre Sherlock Holmes e o doutor Watson acampando, nada mais é do que um apelo para que se enxergue o óbvio, sobre como é fácil perder de vista o que é evidente. Se Eu Fosse Vivo… Vivia não é nada programático, sua estrutura não é nada engessada e não chama atenção para si mesma, mas essa última cena (muito boa, por sinal), pega o espectador pela mão e o convida a não pensar demais sobre o que viu, o caminho não deve ser exatamente esse. A resposta já está ali, e a emoção já está muito bem consolidada.
Se Novais pensa muito sobre a estrutura de seus filmes, sobre as implicações do dispositivo e das rupturas formais, é igualmente verdade que seu cinema é de intensa presença. Os pequenos gestos parecem importar mais, e as rupturas na estrutura jamais são espertinhas ou cínicas, mas orgânicas e parte de uma mescla bem-sucedida de ficção e realidade, mesmo no processo de produção do filme, ainda atrelado a ambientes e rostos familiares da vida de Novais. Os longos e doces momentos de ócio, com os personagens filmados a certa distância, fazendo parte integralmente de seus ambientes, de seus lugares, é aí que Novais consegue imprimir a textura de todo um mundo. A intensa presença de Norberto Novais e Conceição Evaristo juntos como um casal de longa data, sustenta maravilhosamente a primeira parte do filme, interrompida por esse luto misterioso e sobrenatural, mas cujas repercussões no espírito de Norberto o levam a vagar pelas ruas sozinho, como um sem-teto, uma casca. É uma sequência destruidora, como poucas nos últimos tempos de cinema nacional. O cinema de Novais é tanto arrojado quanto familiar, e Se Eu Fosse Vivo… Vivia é, até agora, o filme que melhor concilia esses aspectos, para depois elevá-los à enésima potência.
Lucas Bueno
