Smashing Machine – Coração de Vencedor, de Benny Safdie
(Smashing Machine, EUA, 2025)

Smashing Machine é o primeiro filme assinado por Benny Safdie após o anúncio da separação de seu irmão, Josh, com quem co-dirigiu diversos bons filmes, e tem encontrado uma recepção injustamente morna.

Tirando do caminho de uma vez o que não interessa – o filme de fato falha em tudo que se convencionou chamar, com uma dose de ingenuidade, de pano de fundo: toda a articulação narrativa do contexto esportivo, da competição de MMA da qual participa Mark Kerr e também, até certo ponto, da relação do lutador com seu amigo e possível rival, Mark Coleman. O final cafona com a participação do verdadeiro Mark Kerr não parece ter sido dirigido pelo autor de Bom Comportamento. Acontece, felizmente para quem se interessa pelo filme, que são poucos os momentos como esse, que lembram cinebiografias engessadas que, por sua vez, estão dentre as coisas mais entediantes do cinema contemporâneo.

O filme opera melhor quando se concentra no universo mais íntimo do Smashing Machine (interpretado brilhantemente pelo The Rock), nas brigas intensas com sua esposa Dawn (Emily Blunt). De fato, o que interessa ao Benny Safdie são esses dois corpos em tensão eterna entre si, colocados frente a frente no ambiente doméstico em situação de incomunicabilidade profunda. É, como disse Carlos Reichenbach no Extremos do Prazer, mostrar o corpo para falar do espírito – rearranjar o corpo homérico do The Rock pelo espaço, colocá-lo em disputa com o de Emily Blunt. As dolorosas cenas se dão pela tensa coreografia dos corpos como desdobramentos absolutos do universo subjetivo dos personagens em toda a sua força, todo o seu ego e infantilidade.

A jornada de Mark Kerr é de amadurecimento, de resolução da disparidade entre seu corpo e sua cabeça dura de criança. A câmera se mantém observadora, constrangida com seu acesso ilimitado à vida conjugal, negociando constantemente as relações entre os corpos e o espaço. Para usar o corpo para de fato falar do espírito, é necessário que a câmera de fato se interesse por tudo o que o corpo evoca, incluindo a potência e a volúpia. 

O filme tem algo de assumidamente fetichista, cremos plenamente, sentimos o peso do mundo, tanto nas cenas violentas entre o casal, quanto também nas lutas de MMA e durante os intensos treinos, justamente por conta da maneira com a qual os corpos são enquadrados – contamos felizes com o passeio sinuoso da câmera que de fato se detém sobre esses corpos potentes, que dominam sempre o campo das mais diversas maneiras e nas situações extremas. O filme funciona melhor quando está sob fogo alto, seja nas cenas de pancada no ringue (a cena da primeira derrota de Mark Kerr é sensacional), nos acidentes ocorridos em dojos ou nas brigas de casal nas quais todas as dores e nós na cabeça, imputados pelo universo das lutas sobre os personagens, finalmente desaguam.

A câmera se insere no espaço de maneira frenética com o objetivo de trazer alguma ordem e, ao mesmo tempo, fazer sentir intensamente o turbilhão emocional que acomete esses corpos trágicos – tarefas que aplica com eficiência marcante: mesmo que a estrutura narrativa seja absolutamente convencional, o filme perfura nosso espírito pelo sensorial.

A situação é a mesma de alguns anos atrás: Benny Safdie continua sendo um dos autores mais interessantes e interessados do cinema americano do mainstream, se é que ainda é possível (ou útil) usar esse termo. Não podemos nos deixar enganar a priori por quem cita Bresson e Cassavetes como se isso bastasse, isso não tem a menor importância. Referências não importam se não estão de fato presentes de alguma maneira nos filmes. Mais especificamente, elas interessam quando deixam de ser apenas referências e, em um processo de transcriação, encontram-se de alguma forma embutidas na densidade do filme a ponto de funcionarem por si só no conjunto estético da coisa – de maneira a cortar o espectador de uma maneira particular, e não apenas agradar o cinéfilo médio. Benny Safdie se alimenta espiritualmente de grandes filmes de grandes cineastas, e felizmente as referências de fato se traduzem em um carinho cênico específico, na filosofia da construção de suas imagens frenéticas e repletas de coreografias contrastantes, no interesse pelo efeito voluptuoso da luz batendo na pele dos atores, no uso da profundidade de campo e das lentes teleobjetivas, no jogo de olhares imparável e no desenho sonoro sufocante. Por fim, ele se interessa por mise en scène. Aguardamos ansiosamente as próximas empreitadas porque gostamos de ficar sem ar.

Lucas Bueno