Socorro!, de Sam Raimi
(Send Help, EUA, 2026)
Se a classe trabalhadora tudo produz, a ela algo pertence…

Sam Raimi estreou seu filme Send Help durante o carnaval. Após vagar pelos bloquinhos da Augusta até a República, me encontrei com um amigo no shopping Frei Caneca. O verdadeiro terror, no entanto, se deu durante a espera no McDonald’s da praça de alimentação do shopping. A fila consideravelmente pequena não dava conta de ser atendida pelo pessoal reduzido. Duas pessoas na cozinha e um gerente cuidando dos atendimentos enquanto, uma hora ou outra, funcionários e clientes chegavam a ele com reclamações sobre a demora, cada vez maior, de pedidos. Esperei meia hora para pegar um refrigerante e depois subi para a sala de cinema. O filme de Sam Raimi, coincidentemente, se trata de uma fábula exatamente sobre esse tipo de ingratas relações de trabalho. Imagine o bravo gerente ilhado com o presidente do McDonald’s Brasil, o que eles fariam para sobreviver? Como se resolveriam os conflitos? A partir do momento em que o estado que faz a mediação social dos bens e das relações sociais é deixado para trás, como ficaria a gestão do contrato social entre esses dois indivíduos? Quando o avião cai, logo no início do filme, Send Help torna-se a fábula e Rachel McAdams é a proletária hipotética nessa possibilidade de um novo mundo, um mundo onde aquele que produz acaba por produzir também o próprio pertencimento.
Dessa forma, o filme se desenrola, conhecemos Linda (Rachel McAdams) e seu sonho pequeno-burguês de ascensão profissional dentro de sua carreira como contadora na empresa onde trabalha. Os outros trabalhadores, os quais se relacionam de um para um entre si, a veem como deslocada, rude e, talvez por conta disso, uma presença incômoda. Essa mulher que deseja se engrupir com os burgueses e se torna incapaz de se enturmar com seus colegas é retratada como uma mulher reclusa e solitária, encontrando como único amigo seu pássaro de estimação. Ela é esforçada e, frequentemente, vê seus chefes tomando o crédito que lhe pertence e acabam por deixá-la de escanteio tanto em sua ambição social quanto em sua ambição profissional. Quando o patrão, enfim, se aposenta, Bradley (Dylan O’Brien) quebra o delicado pacto de convivência entre Linda e seus chefes: ele tira sua esperança de promoção em prol de seu amigo do golfe, o inconveniente e execrável Donovan Murphy (Xavier Samuel).
O filme segue uma linha de consequências quase fatais: Donovan rouba crédito pelo trabalho de Linda, logo ela precisa estar naquele avião para fazer o trabalho por ele. Quando o acidente ocorre, ele tenta novamente tomar seu lugar no jato e acaba tendo seu fim decretado. O filme opera da seguinte forma: Linda é desautorizada ou desrespeitada por Logan ou por Donovan, seus chefes que exploram sua mão de obra e lhe privam de seu merecido prestígio, e então Murphy aparece: não como personagem, mas como lei. Cai o avião, Logan e Linda ficam presos na ilha. A passagem central para a consumação dessa estrutura é que, antes do avião cair, Donovan traz a audição de Linda para um reality show de sobrevivência à tona para as risadas e o escárnio de Logan e seus colegas. O avião cai, Donovan perece na queda se segurando em Linda tentando sobreviver e Logan passa a depender dela para continuar vivo preso na ilha.
Na ilha, vemos claramente como, dado este contexto, Linda se sai excepcionalmente melhor que o chefe. Ela conquista melhor comida, melhor abrigo, água potável e passa a entender como sua própria sobrevivência funciona dentro daquele recinto em específico. O contraste é marcado quando Logan se sujeita a subserviência de Linda e as relações de trabalho se invertem: Logan se encontra à mercê dos caprichos de Linda enquanto se encontra alienado da existência da mansão na parte de trás da ilha. Da mesma forma que Linda se encontra deslumbrada com a possibilidade de uma promoção sem perceber que essa expectativa nunca será cumprida. O filme flerta com essa inversão, o monstro por horas é Logan e seu enlouquecimento gradual ou Linda e seu cansaço frente à exploração do patrão e a manipulação que agora pode exercer sobre ele na medida em que se aproximam e se afastam movidos pelos mesmos atritos iniciais existentes no filme.
O conflito entre os dois termina com a morte de Logan. Como tal, Linda se consuma como monstro. Como o filme nos mostra isso? Com um carro conversível, um campo de golfe e o cargo de executiva na firma. Uma verdadeira self-made woman.
D. A. Soares
