Sombra de Turim, de Jia Zhang-ke
(都灵之影 / Torino Shadow, China/Hong Kong/Itália, 2026)

Este curta de Jia Zhang-ke foi exibido pareado ao Joy of Joys, de Jonathan Glazer, e menciono isso porque, francamente, a curadoria pode te fazer ter a impressão de que será outro filme sobre infância, pois o primeiro ponto de vista que o filme assume é de uma criança. Outro risco que corremos é o de o curta ser outro espetáculo de horror com inteligência artificial, como recentemente tem lançado o bom diretor. Acho que escapamos das armadilhas com louvor.

Este Sombra de Turim é um filme agradável, conservador dentro do registro de um Jia, mas feito com o talento de sempre, que demora a revelar-se como uma encomenda do museu de cinema de Turim, o que é um mérito aos meus olhos, porque ele constrói dramaturgia real antes de mergulhar no fascínio pela arte. Jia mostra a família chinesa dividida, mãe e filha ficam vivendo no próprio país, o pai parte para ser dono de um restaurante chinês em Turim. Ele trabalha o dia todo, relembra a filha diversas vezes, não sai do restaurante. Então, o filme apresenta, em uma elipse, a ida da esposa para Turim, visitando o marido. A filha fica. Vai ser filmando com o celular da mãe tentando mostrar a cidade para a filha, que o curta faz o mergulho nesse labirinto do cinema. Não é exatamente nada de outro mundo, mas é divertido o que ele constrói a partir do paralelo com o Moretti, a forma como mostra a arquitetura e os prédios tombados da cidade. É inusitado, mas emocionante. Enquanto a vida daqueles personagens seguirá dividida, mesmo com a mãe no limite. Existe essa magia, como no olhar infantil, o olhar livre da cinefilia produz semelhante engajamento. É um filme bonito.

Guilherme Martins