Sonhos não envelhecem

Sei que é estranho chorar por alguém que não se conheceu, mas eu chorei quando o Godard morreu, eu chorei quando o João Gilberto morreu, e agora eu chorei quando o Lô Borges morreu. O Lô Borges eu conheci, tiramos uma foto rapidamente após um show lindo dele, mas não foi só a foto, o Lô no palco, soltinho, talvez meio bêbado, parecia um moleque, parece que o show inteiro foi eu e ele na sala de casa falando de Clube da Esquina enquanto ele toca as músicas. A conversa não era de fofocas nem de sabedorias transcendentais, não tinha grandes furos, tinha o Lô falando que o amigo dele, o Bituca, fez essa música, que ele tava nervoso esse dia porque o estúdio estava armado, todos a postos, e não tinha o que gravar, então ele se retirou para compor a canção, só ele e uma garrafa de whiskey, que estava vazia na hora que acabaram gravando, e dá para ouvir isso bem na voz dele no disco.
Da outra vez que o vi, não falei com ele, estava num bar animado em Belo Horizonte com música ao vivo, olhamos para o lado e lá estava Lô na outra mesa, bebaço, de bem com a vida, alegre e bebendo. Acho que interagiu com os músicos do bar, mas não cantou. A impressão era que, se você estivesse muito por Belo Horizonte, encontraria frequentemente Lô Borges manguaçando por ali, sempre alegre e com amigos. Dois amigos meus participaram de uma dessas manguaças, um amigo da família de um deles, o Tadeu, é grande amigo dessa turma e não cansa de contar histórias. São histórias que têm uma energia completamente diferente de ouvir histórias da turma da música de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Bahia, do Ceará, de Pernambuco. Minas é outra coisa. Até o modo como eles se narram, é só lembrar do modo como Caetano, Belchior, Chico, Roberto, se narram em seus depoimentos ou nas próprias canções, é algo bastante específico, talvez único.
É engraçado que a outra figura distante de mim que me fez chorar tenha sido o Godard, há muitos Godard imaginados por muitos que ouvem esse nome por aí, mas eu, cá com minha cabecinha, tenho um Godard meu, um amigo que sempre tem seu tom malandramente intimista, meio frio mas apaixonado, sua voz mansa, seu bom humor cortante e autodestrutivo, fala do mundo principalmente, sem conseguir evitar falar de si. Parece mais com o Godard que se filmou em Acossado, o Godard que o Linklater filmou. O Nouvelle Vague de Linklater parece mais com Clube da Esquina do que com certa ideia da nouvelle vague que possam ter os desavisados no circuito da arte. Anos depois, em sua obra-prima da maturidade, Carmen, já longe da explosão de paixão juvenil, sem neura para jorrar, Godard fala sobre paixão dessa perspectiva adulta, mantém viva uma chama de amor e verdade num mundo como o nosso. “Há que procurar” entoa o cineasta, à beira da loucura, como um lamento, quase que só para seus botões. Esse drama das paixões em que Godard também escolheu o maneirismo, enfim, o drama barroco, a pira estética, a constante busca pela pulsão de vida que é nosso problema, de não recusar o mundo e produzir o viver, como seguir adiante em meio aos sonhos que não envelhecem, mas queimam irrevogavelmente atrás de nós dia após dia. O drama barroco e o coração juvenil do primeiro disco se tornam, no segundo, uma relação meio soturna, mas obstinada, com a solidão, a distância, a rua escura e vazia onde passou uma procissão. Onde estiveres, sigo te amando, sigo vivendo. É Lô Borges sussurrando, como Godard quando diz que há que procurar, ele quase que clamando: não esqueça de sonhar.
A vocação de Milton passou por ser o Milton das Multidões, o Milton Coração Civil, internacional, menestrel da redemocratização, cantando no Fantástico cercado de crianças vestidas de branco, ele foi ser essa coisa do Brasil. Foi o caminho dele, parte uma escolha, parte uma imposição. Milton é forte, pedra firme, rocha profunda, sua voz é a terra rugindo o coro dos deuses. Não é assim que vemos Lô. Lô soa frágil, uma pluma. Lô ficou ali por Minas, preferiu ficar na sua, e o desespero das gravadoras para que continuasse produzindo obras da magnitude e sucesso de Clube da Esquina só feriu sua relação com a música. Parece obsceno falar qualquer coisa de Lô que ele próprio não diga, tinha esse menino, Milton passou pela casa de Márcio, ele tocava bem o violão, não tinha como ignorar. Quem é esse moleque que o icônico Milton Nascimento chamou para assinar um disco ao seu lado?
Pois lembro da única anedota envolvendo o Chico Buarque no livro do Clube da Esquina: a gravação do tão esperado, lendário antes mesmo de ser gravado, Clube da Esquina 2, estava um caos, não havia a menor possibilidade daqueles meninos trabalharem naquele estúdio amontoado. Chico, com sua autoridade, foi quem colocou ordem ali, enxotou para fora todo mundo que não fosse necessário para a gravação, que não fosse amigo dos meninos, e conseguiu instaurar a paz necessária para que aquela obra nascesse como deve, não como a força implacável do capitalismo cultural acaba impondo que tudo aconteça. Veja só, a presença do lendário poeta e político da música popular brasileira, da voz de maior autoridade e notoriedade das rádios e televisões do país, foi importante não por algum motivo que esperaria alguém que está louco para ouvir Chico Buarque abrir a boca, mas sim por ser alguém com o poder de trazer o silêncio para dentro da sala. Se por algo chama o clamor de seu Via Láctea, de 1977, é por esse retorno ao momento, ao eterno, ao silêncio. O direito irrevogável ao silêncio e à amizade, esta é a parte que jamais se enferruja e que tempestade nenhuma ameaça, de todos os castelos que Lô e Milton e a turma construíram. O direito a sonhar, pois se abandonamos nossos sonhos, lembra a canção de Townes Van Zandt, todas as palavras que podemos dizer são apenas mentiras.
Quando o João Gilberto morreu, muitas manchetes focaram demais em comentar sua ‘lendária chatice’, e relativamente poucas lembravam justamente da importância que teve sua postura perante o silêncio, perante o vazio. O silêncio de João Gilberto é uma das coisas mais presentes em toda a História da Arte brasileira. Se você prestar atenção, ele está entre um barulho e outro nos filmes de Sganzerla, ele aparece até hoje nos olhos de Helena Ignez, ele é o “Eu tenho tanto pra te falar, mas com palavras não sei dizer”. É muito triste saber que não mais saberei que o Lô Borges pode estar ali na outra mesa, bebendo alegremente com os amigos, despreocupado da vida. Como também é triste saber que Godard não está caminhando ao redor de um lago na França ou Suíça, meditando o mundo que conhecemos tão pouco e já tanto nos esmaga, eu senti o baque, foi muito esquisito, muito trágico, por mais esperado que fosse, saber que não teríamos mais a voz de Godard nesse mundo cada vez mais órfão do silêncio. De Lô Borges, não sei o que dizer, senão que a única coisa mais preciosa que o silêncio é o som do Clube da Esquina.
Villar da Cruz
