Superman, de James Gunn
(EUA, 2025)
Superman e o ‘gênio’ James Gunn
Superman é um dos filmes de 2025. A volta da DC Comics na tentativa de se criar uma espécie de universo compartilhado nos cinemas se aproxima de alguma forma do que se faz nos quadrinhos: existe uma empresa, que tem uma propriedade intelectual, e essa mesma empresa precisa continuamente gerar produtos com essa propriedade intelectual para ter receita. Mais ou menos o que fez aquela experiência tortuosa chamada de filme que é o Homem de Aço (2013), de Zack Snyder. A verdade é que para o cinema tem sido uma boa época para a propriedade intelectual da editora americana: The Batman (2022), de Matt Reeves, e Coringa (2019), de Todd Phillips, e a sua sequência (essa muito mal recebida, por mais que seja um bom filme) Joker: Folie à Deux (2024), parecem se afastar do que normalmente se é feito nesses filmes de super heróis, o que James Gunn entende bem é que pouco importa para caras como Kevin Feige, o chefão da Marvel Studios na Disney, Superman tem uma alma, um espírito, e James Gunn parece querer fazer disso a base fundamental deste filme, que pretende ser um bom estudo de personagem.
Esse entendimento da alma de Superman vêm de uma relação similar ao que Phillips faz com o Coringa, mas parece fazer por outro caminho: Gunn não quer tanto planificar a figura do Superman a um signo vazio, ele é um homem extremamente ingênuo, movido a uma bondade quase que absoluta, mas ainda assim não se desprende a uma reinterpretação igual a feita com o vilão do Batman adaptado pelas mãos de Phillips. Enquanto o Coringa é o espelho do loser, beirando várias vezes a um presuntão, um embutido de protagonistas de Martin Scorsese, como Taxi Driver (1976) e O Rei da Comédia (1983), o Superman se apropria muito mais de seu próprio universo. Existe um Lex Luthor, existe uma espécie de Liga da Justiça, existe uma Supergirl, um Krypto e até mesmo um personagem secundarizado e desconhecido como Maxwell Lord está presente no filme. Mesmo assim, no fim do dia, existem algumas diferenças, existe uma preferência de James Gunn de como as coisas tem que ser.
Gunn é uma figura engraçada, ou melhor, a recepção que as pessoas têm dele que me gera risos. A galera que viu o filme e se atraiu mais pelo Superman do que pelo cinema saiu completamente satisfeita. Gunn virou um tipo de ídolo para essa galera desde o primeiro Guardiões da Galáxia (2014). O fato das duas sequências do filme, também dirigidas por Gunn, serem consideradas um sucesso absoluto por parte do público, cria uma espécie de tendência que opera em ‘favor’ de Gunn. As liberdades e comodismos do diretor são justificadas a partir daí, e, por meio disso, ele brilha e também ofusca. Vai além da escolha ousada de trilhas sonoras para o filme, ou desse lance meio meloso e piegas sobre família, uma obsessão sobre a reconciliação com a figura do pai que parece algo que saiu de Freud ou do Spielberg. Seja qual for o trauma de Gunn com seus pais, o filme parece exercer melhor essa presença do que a franquia dirigida por Gunn a serviço da Marvel. Sim, Superman é esquisito com os seus pais, tão apegado quanto o Senhor das Estrelas é com a mãe, mas a forma como o filme lida com isso é consideravelmente menos piegas.
Para além dos temas do filme, Superman é uma experiência divertida, vibrante, colorida… Gunn tenta representar essa figura ingênua de bondade absoluta, seu Superman da boa fé, no espírito de nosso tempo. Ele lida com o mundo do cinismo. Ele tenta enfrentar o conflito contemporâneo (Israel contra Palestina e Rússia contra Ucrânia), que deixa de se esconder na busca pela proliferação da democracia e passa a se justificar dentro da política, ele tem que enfrentar a fake news, o Twitter e sua própria crise existencial. O fato de Superman ver a mensagem de seus pais para se acalmar seria um bom comentário metalinguístico, uma vez que estamos sentados nas poltronas do cinema para ter nossas doces recordações do último filho de Krypton do jeito que nós nos lembramos: com a cueca por cima da calça e tudo mais que temos direito da mesma forma que Kal-El faz com Krypton.
D. A. Soares
