The Mastermind, de Kelly Reichardt
(EUA/Reino Unido, 2025)

Ao longo de trinta anos fazendo longa-metragens, a carreira de Kelly Reichardt está estabelecida ao ponto de reconhecermos, sem dificuldade, certos padrões em seus filmes. O cuidado aos detalhes, na construção lenta, mas progressiva de suas tramas. Nunca desatenta ao suspense, mesmo que os seus suspenses sejam, digamos, suspensos. E, claro, uma certa pictorialidade, quase trivial, sutil e cotidiana. Há também os aspectos quase óbvios: as grandes performances de seus atores e o pano de fundo social, às vezes mais superexposto, às vezes menos. Considero que The Mastermind esteja no grupo que melhor explora esse aspecto na sua obra, porque é evidente o tempo todo as camadas de subtexto social, nos EUA de 1970, pressões sob as quais o protagonista sofre de seu íntimo, em distopia com a questão externa de seu mundo. Mas o que fascina, neste campo temático, é a lucidez com que esses temas estão em pauta sem desviar seu olhar, o interesse por trás de tudo, dos movimentos feitos pelo seu personagem, cuja trama envolve um golpe que vai progressivamente soando menos profissional.
Antes de nos debruçarmos sobre as desventuras de J. B., o personagem de Josh O’Connor, queria também fazer um elogio específico ao cuidado de casting. Além da brilhante atuação de O’Connor, que repete o mote tradicional que outras estrelas viveram, de terem algumas de suas melhores atuações dirigidas por Reichardt, eu gosto particularmente de como todos os coadjuvantes não parecem ali ao acaso. Não defendem apenas personagens, como representam signos interessantes na composição, como é o caso da Alana Haim, que interpreta sua esposa, uma ícone da cultura pop alternativa, cujo a personagem não tem uma oportunidade de sorrir em cena. Outra escolha que me chamou atenção foi a Hope Davis como a mãe de Josh O’Connor, porque ela foi uma das imagens recorrentes do cinema independente americano nos anos 90, soa como uma escolha bastante coerente, como a mãe protetora de J.B., aquela que cai fácil no papo do filho e termina financiando suas desventuras no crime, enquanto acredita ajudá-lo. Foi ótimo revê-la e sua presença me transmitiu um peso sobre a história de um cinema ao qual este filme e a obra de Kelly Reichardt pertencem. Acho que ela encontra um tom particularmente interessante para todas as performances, sem histrionismo, mas expressivas, vibrando de maneira particular, crível e emotiva na sua medida, como o casal de amigos que abriga J.B. na sua fuga. Tanto a cena em que Maude, interpretada por Gaby Hoffmann, o convida a desaparecer de suas vidas, quanto a despedida de Fred, interpretado por John Magaro, de J.B., após tentar convencê-lo a se mudar para o Canadá num abrigo de exilados políticos, sem sucesso, são exemplos notáveis de um tom cuidadoso, sem frieza, mas sem tratá-lo com piedade indevida.
O filme conta como J.B. usa seu conhecimento como um ex-estudante de artes para planejar o roubo de quatro pinturas de um museu em Boston em 1970. Assistimos progressivamente ao processo reverso do conceito do plano de um gênio do crime, como na maioria dos heists no cinema. O golpe é amador, construído com seus comparsas, sujeitos comuns como ele, no porão da sua casa. J.B. é um sujeito desempregado, mas parece vir de um meio de algum privilégio, seu pai é um juiz famoso, a quem J.B. parece levar pouco a sério. Tudo é desenvolvido entre tarefas familiares, com seus dois filhos entrando e saindo de cena no meio dos atos deste golpe, o que, momentaneamente, sugere que J.B. mereça mais simpatia do que parece. Apesar de todo o amadorismo, o golpe transcorre e as quatro pinturas são escondidas por ele na sua casa. Enquanto segue sua rotina de desempregado, entre enganar a mãe e zombar o pai como um bom sabichão, entre atos nada apressados, o comparsa de J.B. é preso cometendo outro delito e termina entregando seus parceiros para atenuar sua acusação, inclusive o fato de J.B. ser o mentor do crime.
Poderíamos resumir a farsa de gênio do crime como uma comédia de erros, mas não é realmente o que o filme é. Isso está em cena, ele falha e os erros são engraçados, improváveis e amadores, mas não é um filme sobre galhofa. Ainda que a imagem de J.B. vá progressivamente se desfazendo, ele soe cada vez menos como um cara legal, o cara que seus filhos tanto parecem curtir, aquele apreciador de arte que decidiu virar corsário, essa digressão na direção da falha absoluta em ser tudo que deseja é filmado como algo suavemente trágico, triste, mesmo patético. J.B. não se tornou o golpista do século, o pai legal, nem o colega inteligente e sensível que seus amigos de faculdade esperavam. Apesar de obviamente não precisar ser um ladrão, ele vai culpar a família, num de seus atos de desespero de justificar por que fez tudo isso, embora a verdade provavelmente seja que ele realmente acreditou na fábula que conta para si mesmo. Na ideia de que isso era viável, sem consequências e de que ele era apenas um cara muito legal lidando com um momento social complicado em seu país. Sua ‘coolness’ vai se desfazendo até uma das cenas finais, quando, sem dólares no bolso, necessários para pegar uma condução para Toronto e sair do país, ele percebe que toda expertise para falsear documentos e ter ideias mirabolantes, papo suave e simpatia, não vão convencer ninguém a lhe ajudar naquele ponto. Resta para ele o impensável, tornar-se o criminoso que ele acreditava não ser atacando uma vítima inocente.
Essa parábola moral, centrada na crise social americana da época, não será suficiente para J.B. desistir e se entregar às autoridades, mesmo porque ele perde as pinturas para a máfia antes de ter chance de pensar na hipótese de devolvê-las. É notável como, por onde ele atravessa na sua fuga, vemos sinais de um país caótico e desesperançoso. O fato de que seu insucesso em ir se esgueirando pelas casas de amigos acontecer relativamente cedo na fuga força-o a rever a ideia de fugir para o Canadá, mas, creio, parte do ponto da recusa original tem mesmo relação com o fato de que J.B. não se percebe como exilado, talvez nem mesmo como criminoso. Acho que mesmo depois da decadência, digamos, de sua trajetória, ele mantém um otimismo interno, melancólico talvez, mas uma esperança de que ele vai dar a volta por cima, aquela fé que ele pede à esposa que tenha nele. Quando ele pensa ter encontrado a solução para ter os trocados que precisava para fugir do seu país, J.B. se mistura a uma manifestação libertária, como aqueles exilados com os quais ele não queria se misturar. Apanha da polícia e é preso, para um destino previsível, mas invisível ao filme. Tão perto de um novo golpe perfeito, tão distante quanto sempre.
O tom de distanciamento e proximidade, doçura e estupidez, que ela estabelece com esse personagem e sua jornada, é aquilo que diferencia The Mastermind da média dos filmes que procuram instalar trama de gênero num caos social. O tema existe, ele é dado, mas, honestamente, o olhar é mais voltado à moral do que ao social. Reichardt compõe esse mundo, mas ela não pinta J.B. como quem quer apenas dar cores ao fracasso de uma iconografia americana. Seu fracasso é reflexo de dinâmicas criadas nos detalhes – da sua família, sua não identificação com o pai de sucesso, sua sensação de não cumprir com seus supostos deveres familiares com sua esposa e filhos. Tanto ele quanto seus comparsas são pessoas construídas como simples, mesmo que ele pareça acreditar ser mais esperto que todos. Ele faz diversas coisas melhores que os outros, inclusive apreciar e entender as artes, mas nada disso diminui suas inadequações. Ele segue desempregado, de cueca, enquanto sua esposa vai trabalhar. É admirado pelos filhos, mas não sabe quando os filhos não têm aulas. Como mencionei, sua construção nos dá caminhos para estarmos ao seu lado nessa jornada, mesmo que esta revele o quanto distante ele está da imagem que construímos.
Nós começamos The Mastermind numa paleta de cores pastéis, mas felizes, naquelas cenas de abertura ao lado do museu. Aos poucos, as cores vão se diluindo, quando J.B. vai se afundando. As batidas de bebop, tão agradáveis na trilha, vão se ressignificando, quando ele deixa de ser o cara inteligente e sagaz para ser um cara desesperado, vendo nada sorrir para si. Em vez de aguardarmos o próximo passo da trama de um ás do crime, de vermos J.B. como o corsário de seus sonhos, usando o sistema, passamos a acompanhar, nas batidas do jazz, os próximos atos de desespero e solidão. É um dos feitos de Kelly Reichardt, os tons pastéis viram sombras e escuridão, como no quarto onde ele forja seu novo documento nos seus momentos derradeiros. Nem o jazz, nem as artes plásticas podem salvar J.B., nem velhos amigos, nem sua família. É uma comédia triste, quase trágica, amável. Como são as utopias.
Guilherme Martins
