Traição entre amigas, de Bruno Barreto
(Brasil, 2026)
Uma câmera na mão da direita liberal
Godard falava que os romances ruins dão bons filmes, enquanto isso o dito cujo adaptou apenas grandes romances, então de qualquer lado podemos concluir que é muito bom adaptar romances. Traição entre amigas tem Bruno Barreto falando que se interessou em adaptar o best seller com Larissa Manoela no papel principal por curtir histórias que falam sobre a condição humana. Não que o próprio seja um grande artista, mas essa construção, “a condição humana”, costuma conotar toda uma perspectiva de direita: a desigualdade é profunda e inevitável, pobres criaturas, etc. Não à toa, o próprio Godard já brincou de se dizer de direita, ela, a direita, tem uma coisa com o cinema, a mais inteligente se apoia nessas mesmas ideias da “condição humana” para contar histórias complexas quanto aos atravessamentos de temas, sem que seu discurso precise se provar com um mapa de mundo pré-fabricado. O que esses filmes teriam de fraqueza propositiva – não propõem um caminho, uma luz -, ganham em realismo e honestidade. O que chamo de fraqueza propositiva, claro, ao extremo, pode ser chamado de cinismo, niilismo, pode beirar o fascismo, em certos casos. O cinema, mais do que qualquer outra arte, por seu discurso invisível, seu olhar que é o mundo, é o lugar da “vida como ela é”. A literatura realista e o cinema têm, portanto, em comum, essa coisa de privilegiar o desenrolar inteligente de uma boa história à ilustração de um discurso pronto, ambos preferem que o mundo narre a si mesmo, simplesmente existindo.
Infelizmente, a fraqueza propositiva de que falo, o cinismo inteligente, a recusa a dar uma resposta, não é exatamente o forte de Traição entre amigas. Quando a autora do romance fala que queria fugir ao maniqueísmo, é ainda usando uma linguagem de “bem e mal” para falar das complexas condutas e escolhas das personagens. A obra não escapa ao maniqueísmo, ela tão somente aceita que pessoas boas são capazes de atitudes ruins e vice-versa. No arco geral, o filme trata de aprendizado num sentido ascendente. Esse tipo de movimento moral não costuma ser o da maior parte das obras literárias de direita, geralmente uma montanha-russa de ida pro inferno. Se tal honestidade do realismo, que é a virtude de algumas obras de direita, pode ser um ponto de interesse do filme, essa localização moral morna é responsável também por seus limites. O filme todo, em seu modo de produção, em sua aparência, sofre dessa mistura de “Quero falar a verdade” com uma ideologia irrefletidamente liberal.
No entanto, como a coisa que enfia a cabeça no rabo para sair sorrindo pelo umbigo, o filme tem uma divertida orquestração do baile de hipocrisias, cinismo, absurdo e alienação que é a estrutura toda do drama burguês, no turbilhão do qual as pobres protagonistas foram metidas, passando por poucas e boas para aprender um pouco a se proteger do mundo. As conclusões podem tentar um otimismo capenga, mas o movimento da trama acompanha um mundo desolador e esmagador de espíritos, propenso para criar mais vilanias e redes de maldade, que as protagonistas estão, na última cena, mais do que nunca prontas para encarar de frente, cada uma tendo aprendido um pouco mais de si e vendo a outra de outra forma. O drama do absurdo, por mais que não tenha a fineza de um cineasta que soubesse brincar com essas figuras histéricas na farsa das aparências que são as estúpidas mães das protagonistas, tem seu sabor meio agridoce nas mãos de um cineasta que faz o mínimo bem feitinho. Seu descomprometimento com visões de mundo prontas ou programáticas, atrelado a um universo, o do romance pop, que se preocupa apenas com contar bem uma história cheia de pontos impactantes, proporciona uma originalidade à orbitação da narrativa, para nós tão cansados de filmes que funcionam mais como ideia, metáfora, ilustração de tese. Traição entre amigas consegue ser mais interessante como representação materialista de mundo, justamente porque o esqueleto de seu roteiro não é o primeiro capítulo do manifesto comunista.
Traição entre amigas, utilizando conscientemente a imagem de ninguém menos que a ex-estrela mirim Larissa Manoela, é um coming of age desde o princípio sobre cinismo e desilusão. Larissa Manoela interpreta a si mesma, uma estrela, uma moça que só sabe ser estrela, e sua presença é, de fato, marcante. Sua maldade, sua sensibilidade, sua vulnerabilidade, ela toda consegue encontrar espaço pra brilhar na trama aqui armada. A paixão muito honesta, e até meio engraçada, por exemplo, no absurdo dela estar se comparando a Carmen Miranda – não que seja absurdo qualitativamente, mas as duas não poderiam ser mais diferentes como persona -, consegue se aproximar dessa montanha-russa de emoções agridoces que é o cinema internacional que o filme mira ser. Quantos diretores de filmes de indústria adolescente falam que se interessaram no material por falar da condição humana? É o tipo de espírito, esse de cinema de paixões que sabe o que fala, mesmo que não seja lá muito inteligente, que é sempre bom ver nas telas por aqui.
Villar da Cruz
