Tributo a Michael Madsen: para além de Tarantino

Madsen em cena de Uma Casa na Colina, de Ken Weiderhorn

A partida de Michael Madsen em 2025 encerrou a trajetória de um dos rostos mais reconhecíveis do cinema de gênero americano dos últimos trinta anos. Um homem que podia entrar em cena, encostar na parede, responder com uma frase monossilábica e, ainda assim, transformar tudo ao seu redor. Mas longe do tom solene de um obituário, eu prefiro que este texto sirva como um pequeno mapa de exploração, um guia para visita de uma parcela mínima que seja da filmografia de Madsen (até porque o sujeito deixou uns 300 filmes no currículo), focando em alguns papéis onde seu talento particular, com aquele magnetismo lacônico, emergiu de várias formas, muitas vezes em produções B, thrillers de locadora e, na maioria das vezes, projetos independentes de qualidade duvidosa.

E, para este fim, quero excluir já de cara filmes muito conhecidos, filmes em que participou como coadjuvante (que, na verdade, é onde encontramos algumas de suas melhores performances, como em A Fuga, de Roger Donaldson) e, sobretudo, os dirigidos por Quentin Tarantino. A ideia é mostrar que Madsen era um mestre em injetar dignidade e imprevisibilidade em qualquer projeto, não importando o orçamento ou o nível da empreitada. Então vamos “desvendar” uma possível “assinatura Madsen” em filmes mais obscuros ou esquecidos que merecem uma descoberta (ou talvez nem mereçam, mas que Madsen faz brilhar de alguma maneira, onde seu magnetismo aparece de forma mais pura e sem filtros).

Em 1993, por exemplo, Madsen fez um thriller digno de um Super Cine chamado Uma Casa na Colina (A House in the Hills), de Ken Wiederhorn. Ele é o estranho que bate à porta de uma atriz em começo de carreira (a Supergirl dos anos 80, Helen Slater) encarregada de cuidar de uma casa isolada. Em linhas gerais, é um suspense erótico/noir de fim de noite, com poucas locações, roteiro clichê e um clima de desconfiança sexualizada.

Nesse cenário, Madsen entra como elemento ambíguo, um possível criminoso, possível sedutor, possível psicopata. O filme o apresenta quase como um corpo estranho no gênero, não é um vilão elegante, tampouco o bonitão confiável. É um sujeito de modos bruscos, e uma ironia que nunca se resolve em charme pleno. O que ele faz de único aqui é esticar o suspense não pelo que o personagem faz de fato, mas na maneira como ele parece testar o limite da protagonista e também o da própria mise-en-scène. E Madsen funciona como uma faísca errática dentro desse cenário, dando ao roteiro um imprevisto que ele, em tese, nem teria.

Pouco antes disso, em 1992, ele já estava lapidando esse mesmo tipo de presença num policial chamado Margens da Traição (Inside Edge), dirigido por William Tannen e Warren Clarke. Aqui, Madsen surge em cena num helicóptero, portando uma metralhadora e atirando pra todo lado. Um bom exemplo de como apresentar um personagem de Michael Madsen. Ele é um sargento que vê uma grande operação antidrogas dar errado e, de quebra, perde a promoção para um colega que ele culpa pela morte do antigo parceiro. Em vez de seguir o arco previsível do policial íntegro contra o sistema, o filme empurra o personagem para o outro lado da lei. Ressentido, ele se aproxima de um chefão do tráfico (o grande Richard Lynch), entra no jogo e ainda se enrosca com a mulher errada.

É um típico thriller de drogas e corrupção dos anos 90, cheio de clichês de delegacia, ação explosiva, mas Madsen puxa esse material para um lugar mais torto. Ele não faz o “herói caído” romântico, o seu diferencial está no modo como ele mistura dureza e desencanto. Seu personagem se move com a brutalidade habitual desse tipo de figura, mas carrega um olhar permanentemente azedo, como se estivesse cansado tanto dos bandidos quanto da polícia. Numa trama que poderia ser apenas funcional, Madsen injeta um amargor, transformando a corrupção em algo menos abstrato e mais físico com sua postura corporal.

Essa figura do profissional envolvido com violência, mas um pouco cansado de si mesmo, volta a aparecer em Dupla Traição (Man with a Gun, 1995), de David Wyles. Um neo-noir de orçamento enxuto centrado em um matador profissional chamado para um trabalho aparentemente simples, mas contaminado por complicações sentimentais e morais. Madsen é um matador de aluguel contratado por um poderoso mafioso (encarnado por ninguém menos que Gary Busey) para eliminar a sua esposa (Jennifer Tilly). O problema é que o alvo também é a própria amante do matador e ele se vê preso entre o desejo e a lealdade num jogo de chantagem, traição e brutalidade.

O filme apresenta Madsen sem o glamour dos assassinos profissionais. Um sujeito que se move devagar, fala pouco e é observador. Mas, em vez de fazer o clichê do assassino estóico, ele injeta uma espécie de fragilidade. Há algo quebrado no seu andar pesado, nas tragadas de cigarro barato e na forma de segurar a arma como se fosse ao mesmo tempo a extensão do corpo. Em um clima de um noir tardio, com muita chuva, luzes duras e uma certa fatalidade, Madsen funciona como o elemento mais autêntico. Pode-se até não acreditar nas reviravoltas do roteiro, mas acredita-se nesse homem. 

Aqui, abro uma exceção entre filmes obscuros e adiciono um filme mais famoso que merece uma lembrança. No mesmo ano de 1995, Madsen adentra num território diferente com A Experiência (Species, 1995), de Roger Donaldson. Uma ficção científica high concept travestida de filme de terror erótico, sobre uma criatura híbrida perseguida por uma equipe de cientistas e militares. É cinema de estúdio, com efeitos especiais, elenco estrelado e uma trama que mistura paranoia, biologia e, obviamente, desejo. A criatura em questão é interpretada por Natasha Henstridge, que utiliza da sedução para chegar ao seu propósito.  

Dentro da equipe heterogênea que está em seu encalço, Madsen interpreta o especialista na parte da força bruta, um cara contratado pela sua capacidade prática de lidar com situações perigosas. Cercado de falas expositivas, ele faz um trabalho reativo na maior parte do tempo. Responde a tudo com ceticismo, com aquele humor de quem acha todo mundo um pouco ridículo. E o que Madsen faz de único é tirar qualquer verniz heroico da figura do protagonista badass. A energia dele é mais terrena e um pouco grosseira. Quando o filme descamba de vez para o absurdo, é a presença dele que sustenta alguma sensação de realidade e perigo concreto. Em meio ao espetáculo de CGI noventista e pulsões sci-fi, Madsen traz o que sabe, os trejeitos físicos, as expressões faciais, o pragmatismo, que tenta navegar o absurdo com ironia seca. É quase um alívio cômico involuntário e funciona justamente por ser o Madsen.

Do laboratório, voltamos à ação de videolocadora com Alvo Executivo (Executive Target, 1997), um clássico da PM Entertainment e dirigido pelo mestre Joseph Merhi. Cinema de perseguições de carro, conspiração política e explosões filmadas com prazer artesanal. É o tipo de filme em que a coerência narrativa é secundária diante do número de dublês arremessados no capô dos veículos.

Madsen poderia surgir aqui como apenas mais um anti-herói genérico ou de segunda linha. Em vez disso, ele surge como uma força um pouco imprevisível que o filme pede. Seu personagem encara o perigo de frente, mas o que marca é a calma esquisita com que ele atravessa o caos. Enquanto tudo queima ao seu redor, ele mantém a fala mansa, quase sussurrando, gesticula o mínimo necessário, parece quase entediado. E isso cria um contraste interessante com a histeria da produção, numa trama que envolve terrorismo e o sequestro do presidente dos Estados Unidos (Roy Scheider). A “assinatura Madsen” aqui é essa capacidade de parecer perigosamente relaxado em meio a carros capotando. Ele empresta ao filme um traço de crime movie mais sério, quase como se um personagem de um noir urbano tivesse ido parar, por engano, dentro de um exagerado exemplar de ação, do tipo que a PM fazia em toda sua glória.

A partir daqui, as escolhas começam a ser mais aleatórias. É complicado escolher o filme “certo” para esse guia quando um ator como Madsen chegava a lançar, depois da virada do milênio, por volta de oito ou nove filmes por ano, alimentando fartamente o mercado direct to video. Mas vamos começar esse período com Outlaw (2001). Por quê? Não sei ao certo, mas é dirigido pelo Bo Svenson, então já temos ao menos um motivo. Além disso, é um crime movie que tenta pagar de sério, com um ótimo elenco, o tipo de coisa que Madsen costuma se sentir em casa.

Madsen interpreta novamente um matador profissional e, desta vez, é contratado pelo filho de um chefão do crime para descobrir quem matou o pai. O contrato vem com cláusula de “resolva o caso ou morra”. O filme se organiza quase como um noir de investigação no submundo, com essa figura do Madsen circulando entre capangas, informantes, velhas contas abertas, contracenando com atores do calibre de William Forsythe, Jeff Fahey, Martin Kove, Shannon Whirry e o próprio Bo Svenson.

O que Madsen faz de interessante nesse contexto é novamente recusar o glamour do assassino de aluguel infalível. Seu matador é um sujeito que conhece bem as regras do jogo, move-se nesse submundo, mas nunca dá a impressão de estar totalmente no controle. Em um filme de clima duro, cheio de desconfiança, Madsen injeta uma espécie de melancolia discreta na figura do hitman. Cada encontro pode ser uma traição, e ele brinca com isso nas falas e mais na forma de encarar os outros personagens, como se estivesse sempre calculando o risco de tomar um tiro pelas costas. É um protagonista que carrega o peso da própria profissão, fazendo o filme parecer, como já disse, um pouco mais sério do que, talvez, ele realmente seja.

Alguns anos depois, essa fadiga moral se traduz em farda em Marcados para Morrer (Chasing Ghosts, 2005), de Kyle Dean Jackson, um policial urbano, com Madsen vivendo um investigador veterano tentando desvendar uma série de crimes, mas cercado de corrupção e fantasmas do passado. 

Madsen encarna esse policial gasto com uma precisão desconfortável. O filme o apresenta como alguém já cansado, se arrastando pelas cenas de crime, com a voz lânguida, mas que ainda consegue, de vez em quando, acender um brilho de ironia ou de fúria. É um filme bem padrão, um policial genérico, mas o diferencial é esse desgaste palpável que Madsen coloca em cena. O personagem parece estar sempre à beira do colapso e essa vulnerabilidade faz o filme. Até porque não há muitos atrativos para além disso em Marcados para Morrer. No clima meio neo-noir, meio drama policial, Madsen funciona como bússola moral torta, um homem que já cruzou algumas linhas que não deveria, mas também sabe reconhecer em si o último traço de algum tipo de valor.

Para finalizar, vou quebrar a regra mais uma vez e incluir neste pequeno guia dois filmes em que o Madsen não é o protagonista. Mais pro final dos anos 2000, ele foi deixando os papéis centrais de lado e passou a aparecer com mais frequência como coadjuvante. Ainda existe uma boa safra dessa fase em que ele lidera o elenco, mas não poderíamos deixar de destacar, por exemplo, a sua escala curiosa, mais ‘artística’, na Europa com Traição em Hong Kong (Boarding Gate, 2007), de Olivier Assayas. O filme gira em torno de uma ex-prostituta (Asia Argento) envolvida com um executivo do setor financeiro, numa trama de sexo, chantagem, dinheiro sujo e thriller globalizado.

Nesse ambiente de relações de poder, Madsen interpreta justamente o executivo envolvido com a protagonista, uma figura de imposição sexual e financeira, mas também de vulnerabilidade. O personagem é apresentado como esse homem de meia-idade que mistura arrogância, desejo e um certo desespero. O que Madsen faz de único aqui é quebrar um pouco a casca do “macho alfa perigoso” que ocasionalmente o acompanha. Há momentos em que ele parece patético em sua tentativa de controlar a situação, e o ator abraça isso sem medo. A energia dele oscila entre o predatório e o frágil de forma magistral e as sequências em que contracena com Asia Argento são notáveis. 

No meio de tanto lixo cinematográfico, Madsen encontrava, ocasionalmente, um tempo para demonstrar por que foi um dos grandes, como nesse filme do Assayas. Então, vamos descer o nível novamente. O outro título é especial porque a direção é do Russell Mulcahy. Sangue no Asfalto (Crash and Burn, 2008) é desses filmes que pegam uma carona no sucesso da série Velozes e Furiosos, com um agente do FBI se infiltrando no submundo das corridas clandestinas e é rapidamente envolvido com um chefão do crime, vivido pelo Madsen, e todo tipo de gângsteres das ruas.

Madsen aparece como uma peça-chave da trama nesse universo motorizado, um figurão do crime impiedoso, o cara com quem não se brinca. O que ele faz de singular é aproveitar o tempo de tela para imprimir um senso de história prévia, como se o personagem já tivesse vivido dezenas de outros filmes que não vimos. A dureza está ali, claro, mas há também uma leveza torta, um jeito de tratar a morte e o perigo com indiferença. E uma presença que rouba todas as atenções. É o típico caso que acontece em muitos desses títulos, Michael Madsen é maior que o filme. Ele entra, ocupa o espaço, aponta para um mundo mais áspero e interessante do que o roteiro consegue sustentar, e ainda assim empresta a essas produções uma dignidade estranha, um charme selvagem que não estava exatamente no pacote.

Em termos gerais, havia nele esse talento raro de fazer qualquer projeto ficar um pouco mais vivo, e muitas vezes quando o projeto nem merecia tanto. Um olhar atravessado, um gesto econômico, uma pausa antes de uma explosão de violência, pequenas escolhas que inflam um tipo de cinema B que poderia passar anônimo, mas ganha textura quando ele está em cena. Tarantino sempre soube aproveitá-lo muito bem nesse sentido, sobretudo em Cães de Aluguel (1992). E Madsen tirou proveito disso para fazer sua carreira e construir essa “assinatura Madsen”.

Revisitar esses filmes e tantos outros que poderia ter citado por aqui (como o filme nacional, Federal, de 2010, por exemplo) é, portanto, uma forma concreta de homenagem. Não só porque eles registram diferentes variações da mesma persona magnética, mas porque é neles que o carisma bruto de Madsen continua pulsando, teimoso, atravessando tramas imperfeitas e lembrando que, às vezes, basta um ator certo para um filme torto valer a pena.

Ronald Perrone