Um passeio pela história

Dois momentos de Carlos Reichenbach na Sessão do Comodoro: 1) com a atriz Lina Agifu, a quem dirigiu em Garotas do ABC, 2) com o cineasta Andrea Tonacci e o então diretor do CineSesc, Luiz Zakir

Para recontar o que foi a Sessão do Comodoro, objetivamente um cineclube mensal organizado pelo cineasta Carlos Reichenbach no CineSesc, em São Paulo, ao longo de oito anos, é preciso entender o que era o cineclubismo em 2004, ano de sua criação. Não estou aqui querendo vilanizar o passado – a verdade é que existia, na capital paulista, onde eu vim morar um ano antes,  vindo do centro-oeste, até mais cinema de repertório do que existe hoje em constante exibição. O que não existia era aquilo que o nosso querido Carlão tentava recuperar. O espírito rebelde. O interesse por aquilo que não é, supostamente, de bom gosto. É misturar Luis Buñuel com Shinya Tsukamoto, Jodorowsky com Ruggero Deodato, é exibir curtas desagradáveis sobre a cultura punk, cinco minutos de uma mulher selando a própria vagina em The Sewer Circle. É essa cinefilia, sem barreiras, que Reichenbach defendia.

Quando o CineSesc, creio que na figura de Luiz Zakir, fez o convite para o Carlão organizar este evento, havia pouco tempo que o próprio cinema havia cancelado a sua sessão cineclube. Foi um baque na programação dos cinéfilos, especialmente os jovens como eu, procurando preencher lacunas do nosso conhecimento. O velho cineclube, programado por Juliano Tosi, exibia cópias em 35mm que eram verdadeiros achados da curadoria. A Sessão do Comodoro não substitui esta programação, ela surge como algo completamente diferente. Era a chegada da cinefilia digital, dos filmes piratas exibidos gratuitamente nos cinemas, em cópias que, francamente, nem sempre eram projetadas com dignidade numa sala de tela enorme como aquela.

O que Carlão trouxe para as salas de cinema, todos os meses, era uma curadoria diferenciada. Não existiriam sessões daqueles filmes, listados por nós para esta pauta, em outros lugares – o acesso para quem baixava filmes existia, mas não era como hoje. Atualmente, há trackers infinitos, dos quais os cinéfilos podem fazer parte, com enormes acervos, além dos drives organizados por corsários diversos que dariam orgulho ao Carlão. Naquela época, era necessário que poucos fizessem com que os filmes chegassem a muitos, era esse papel de facilitador de exibição e, quem sabe, agitador de debates que Reichenbach tinha.

Quero listar algumas sessões históricas que foram marcantes na minha jornada na Sessão do Comodoro, do ponto de vista pessoal. É difícil ignorar a sessão de abertura, porque Canibal Holocausto, com toda aquela grafia de violência, numa sessão no CineSesc, foi um radicalismo raro, mesmo que eu tivesse visto o filme antes. Uma sessão histórica também foi a de Audition, um clássico moderno de Takashi Miike, este eu conheci lá. Um filme tão lento e assustador, foi uma experiência fabulosa, ver amigos e conhecidos pularem, sem exageros, de medo. Teve a clássica sessão dupla onde vimos Thriller – A Cruel Picture, o filme feito por um assistente de Ingmar Bergman, como tanto propagandeava o Carlão, o Bo Arne Vibenius, que misturava rape revenge com pornografia, com um uso de cores tão inteligente, casado com um de meus prediletos filmes do começo deste século, Consequence, de Anthony Hickox. A oportunidade de assistir ao filme deste diretor num cinema, é uma chance que poucos tiveram. É um grande filme, ao qual anos mais tarde dediquei um episódio do meu podcast, o Detour. O papel do nosso Comodoro em difundir a obra de Hickox no Brasil é inestimável – diria que a grande maioria dos cinéfilos que foram atrás de ver a sua obra, fizeram por indicação dele, falando do Hickox regularmente no seu blog Olhos Livres. Lembro de Francis Vogner comemorando a exibição de Consequence, afirmando ‘como é raro ver um filme-poeira numa sala de cinema’. É isso.

Foram tantas grandes exibições, como o Sem Controle, de Paul Verhoeven, as exibições de Joe D’Amato, com Buio Omega e L’alcova, provavelmente a primeira vez que o cineasta foi tratado com seriedade na nossa cultura. Foi lá que vi pela primeira vez o clássico de Mario Bava, Cães Raivosos, outra sessão histórica de pura maldade tornada grande arte, num poliziotteschi profano, intragável e magnífico. O DVD projetado pode não estar à altura da fotografia de Bava, mas tem algo daquele negócio solar estourando nas lentes, nenhuma baixa definição impedia de se ver, era incrível. Carlão adorava brincar com esses filmes, como lembrou Leopoldo Tauffenbach na entrevista que conduzimos para a Fuller. Foi nesse dia que ele subiu o som do cinema no volume máximo, para agredir a turma ao som punk de Tetsuo. Goste-se ou não deste filme, o Tsukamoto aprovaria a ideia de Reichenbach de apreciação. Como sempre: ser agradável não é o seu objetivo.

Após os primeiros anos, o CineSesc pediu que as sessões fossem reduzidas para apenas um filme, o que as torna menos custosas para o cinema. Nós lamentamos, afinal, parte da diversão era a curadoria de Carlão casando obras de cinema extremo, porém, é verdade que as sessões terminando na madrugada criavam um problema prático para sua continuidade. Existia o extra para os funcionários, existia o transporte público, pois a Sessão do Comodoro era numa quarta-feira, no meio das semanas. Seguimos tendo dias memoráveis, mas creio que diminuiu, aos poucos, o senso de surpresa e agitação. Houve sessões em 2004 que subiam filas pela rua. Em 2006, na altura da Sessão ‘única’, a situação havia mudado. Tínhamos assíduos frequentadores, figuras históricas, mas não era aquela loucura de antes. As ideias de Reichenbach eram fascinantes, como sempre. Lembro perfeitamente de ir, sozinho, assistir ao I Walked with a Zombie, um dos maiores clássicos de Jacques Tourneur. Uma sessão surpreendentemente tranquila, mas tão marcante. Misturavam-se Nicholas Ray, Albert Lewin e Jean-Claude Brisseau, e, ocasionalmente, surgiam filmes de horror novos que ele conhecia nas suas pesquisas sobre os limites da imagem. Muitos deles eram aberrantes, às vezes ruins mesmo, mas não menos interessantes por isso.

Nestas pesquisas, o Comodoro exibiu, por exemplo, um dos primeiros longas de Dennis Illiadis. O cineasta grego, pouco tempo depois, seria selecionado por Wes Craven como o autor da refilmagem do seu clássico Aniversário Macabro, mas eu, honestamente, soube apenas que ele teve sua obra exibida no Comodoro agora, pesquisando. É esse ímpeto que fazia o Carlão procurar, revirar o que de novo produzia o cinema extremo, fosse ele europeu, americano, brasileiro, japonês ou o que fosse, é ali que reside a autêntica cinefilia que ele representou. A impressão é que, com o passar do tempo, a Sessão foi dedicando-se cada vez mais para o experimento, ousando e focando menos em cineastas de grande obra, como tantos citados aqui. O que não impedia ele de exibir também os mestres como Nagisa Oshima e o campeão de filmes exibidos pela Sessão do Comodoro, Lucio Fulci, cujas faces tão diferentes de sua obra foram exploradas.

De Lucio, o Carlão mostrou o clássico cruel de Beatrice Cenci, o giallo rural, extremamente violento de O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos, o pós-horror autorreflexivo de A Cat in the Brain, e outro filme tardio do mestre, o Voices from Beyond, dois títulos dos anos noventa, sem exibir qualquer título da fase da produtora Fulvia, de Fabrizio de Angelis, que costumam ser os filmes sempre exibidos de Fulci.

Houve muito cinema experimental, média, curtas, radicalismos variados. A Sessão do Comodoro nunca se furtou a ir do cinema extremo pelo gore, ao extremo da linguagem. Não existia este limite, onde essas coisas se diferem. As matizes do cinema eram todas uma só. A única coisa que a Sessão do Comodoro recusava, veementemente, era o conformismo, a preguiça intelectual e a ausência do risco. Foram anos de cinefilia pura, interrompidos apenas pela passagem de Carlos Reichenbach, que ao longo dos anos, mesmo quando tinha dificuldade de enxergar os filmes, os seguiu exibindo, usando o seu espaço para instruir e apresentar novas possibilidades para a cinefilia. Esforço que jamais esqueceremos.

Guilherme Martins