Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson
(EUA, 2025)

Mesmo antes de seu lançamento, muito se falou sobre Uma Batalha Após a Outra. Paul Thomas Anderson tende a atrair seu interesse na sua posição de grande autor aprovado, mas mesmo assim, comparado a este, bem menos atenção foi dedicada ao seu anterior Licorice Pizza, a despeito de me parecer um filme mais interessante, inclusive nas suas imperfeições e becos sem saída. Mas está aqui uma grande produção com um astro reconhecido em Leonardo DiCaprio e um tema relevante, com um estado policial e uma colisão entre um ex-terrorista e um militar reacionário mais do que pronto para passar um trator em tudo e todos.
Um filme pronto para ser lido e discutido, como manda a lógica da indústria atual. Para competir na economia de informação contemporânea, o cinema de autor atual precisa importar uma lógica da televisão e garantir que vai ser assunto por alguns dias, de preferência semanas, suas ideias têm que estar prontas para ser destrinchadas por menos coerentes que sejam. Uma Batalha Após a Outra segue esta cartilha perfeitamente, o que não o torna um mau filme, mas empobrece paradoxalmente a conversa sobre ele, já que os temas correntes estão longe do que ele tem de melhor e isso reforça a necessidade de cravar uma posição pouco produtiva.
É um filme cheio de gorduras desnecessárias, como de hábito. Anderson pode ser um cineasta bem irregular, e ele não é do tipo que recusa uma ideia. É uma das suas características mais simpáticas, isto de deixar o filme tropeçar enquanto coleciona personagens, sequências e sugestões independentemente de quão bem elas funcionam. É algo que é fácil de se perder porque seus fãs insistem em tentar encontrar uma ideia de perfeição para justificar toda a atenção neles depositada. Esta inconstância não é especialmente um problema num filme melhor como Trama Fantasma e é fácil de tolerar num filme que a incorpora como parte do processo como Licorice Pizza, mas num filme de perseguição bastante direto como Uma Batalha Após a Outra, não esconde como tudo é um tanto desconjuntado. Quando vejo Anderson, tento aceitar que os impulsos mais tolos tendem a existir lado a lado com as boas ideias.
A tensão política é até certo ponto uma isca, algo que já fica claro no título de duplo sentido, já que a batalha mais importante da qual ele trata é da paternidade. Há diversas figuras paternas correndo atrás da personagem de Chase Infiniti, todas elas de alguma forma falhas. É um desses filmes que invocam diretamente o Rastros de Ódio, mas numa chave dedicada menos a reforçar as tensões ideológicas da formação nacional, mas a servir para restaurar os laços familiares. Há também, como já mencionado por alguns críticos como Adam Nayman, um bom tanto de Exterminador do Futuro 2, um filme que Anderson nunca escondeu adorar, na forma como é construído. Um lembrete de que o filme é, antes de mais nada, uma oportunidade de Anderson de brincar de fazer um filme de ação de alto orçamento e, se ele é bem-sucedido, é sobretudo como um filme de perseguição empolgante.
Uma Batalha Após a Outra será discutido principalmente em termos políticos, porque vivemos em uma época literalista, e as pessoas veem signos e se obcecam com eles. Pensado assim, este é um filme muito contraditório e, às vezes, totalmente oportunista, sem ter muito a dizer. As cenas com Del Toro (que interpreta a figura paterna secundária, mas mais bem-resolvida do filme) cuidando das coisas enquanto sua cidade cai no caos de uma intervenção militar têm alguma força, mas a maioria das cenas que sugerem acampamentos e ações militares/revolucionárias são mal resolvidas. Joga-se com as tensões do momento pelo poder sugestivo delas, mesmo que o filme permaneça distante delas. Nisso não é muito diferente de diversos outros filmes de gênero político, mas a auto importância às vezes deixa essas operações com um gosto amargo.
Anderson sempre teve um gosto por um olhar sociológico, uma das razões pelas quais se focou em obras históricas, mas não costuma se sentir muito à vontade com o discurso político em si. Sangue Negro tem muitas coisas interessantes sobre a formação do capital americano e os homens por trás dele, ao mesmo tempo em que tenta, tanto quanto possível, ignorar o marxismo do autor original, Sinclair Lewis.
Uma Batalha Após a Outra é a segunda adaptação que Anderson faz de Thomas Pynchon, e assim como o bem mais fiel Vício Inerente, ele aproveita a ressaca da contracultura de Pynchon para criar um certo imaginário melancólico, uma ideia de mundo que escapa de personagens fora do tempo, no qual se vê força e beleza nessa inadequação enquanto esvazia ela de resistência. Vineland, o livro de Pynchon que “sugeriu” este filme, foi publicado em 1990 e é bem inseparável dos sentimentos bastante negativos do autor para com os EUA dos anos Reagan. A crença de Anderson de que ele pode atualizá-lo tem alguma força, mas também sugere como o cineasta por fim vê o cenário bem divorciado das suas causas.
O filme funciona melhor como uma fantasmagoria da atual paranóia americana e, mantendo seu jogo de duplos, acena para as fantasias da esquerda e da direita sobre uma à outra. O grupo French 75 está muito próximo do que a direita americana imagina que seja a “Antifa” (até mesmo em sua proeminência de mulheres negras) do que qualquer sugestão do passado/presente, embora a conspiração da qual Penn quer fazer parte seja simultaneamente assustadora/engraçada e uma ideia bem datada de culto fascista, algo que não deixa de ser bem representativo. De qualquer forma, eles claramente pretendem espelhar um ao outro, e o filme se sente bem à vontade neste jogo duplo. À parte isso, não faltam platitudes sobre as próximas gerações e uma nostalgia em algumas escolhas estéticas, sobretudo o uso de músicas de Steely Dan e Tom Petty no começo e fim da parte central da ação.
Há também muito sobre libido e neuroses sexuais como combustível para as decisões das personagens, ecos sobretudo de O Mestre, no qual a política também era uma questão de tesão deslocado e mal resolvido, sobretudo nas cenas do robô fascista de Penn, e se a ideia tem um poder sugestivo, o filme nunca dedica tempo o suficiente a ela para afirmar sua força.
A despeito dos seus fãs sisudos, Anderson é um cineasta muito bem-humorado. Assim como seu mestre Altman, ele raramente deixa passar uma oportunidade para uma piada, certamente bem menos cínico a respeito. Os filmes iniciais de Anderson eram melodramas excessivos e torturados sobre figuras paternas daninhas, mas desde a virada do século, ele parece ter se acalmado numa chave bem mais cômica, novamente geralmente com pano de fundo de frustração sexual. Ele acredita firmemente que uma piada bem colocada pode encobrir muitos pecados, e recorre muito a isso com resultados variados, e Uma Batalha Após a Outra segue sempre muito fiel a estes instintos. Na dúvida, o filme parece sempre apostar no absurdo cômico dos excessos do seu cenário.
É um filme muito direto, com diferentes grupos perseguindo uns aos outros, que vai adicionando complicações para enrolar e depois as resolve com soluções fáceis: um interrogatório que se resolve rápido demais, uma personagem coadjuvante com mudança abrupta de atitude, o alcance misterioso das organizações rivais, um carro sendo dado a partida sem chave. Existe algo de preguiçoso nesta estrutura, como se Anderson quisesse seguir inflando o seu filme, mas não tivesse paciência para imaginar cada situação. Ele faz muito bom uso de James Raterman, um ex-interrogador militar aposentado que prestou consultoria em filmes anteriores do realizador, como o interrogador principal de Penn, e ele funciona como uma peça assustadoramente autêntica e uma saída fácil.
Como filme de ação, é notável a preferência de Anderson de manter o ritmo e momento dramático frenético, ao mesmo tempo em que o excesso de sacadas trabalha por vezes contra ele. O filme não resiste ao apelo de reviravoltas e atrasos que supostamente realçam o toque autoral de Anderson, mas que com frequência soam como um ruído que mais atrapalha do que ajuda o que o filme tem de melhor. Quase como se Uma Batalha Após a Outra tivesse vergonha da sua própria facilidade em fluir como superprodução de ação e buscasse repetidamente se travar.
O filme é excitante, e Anderson demonstra todo o seu prazer por ter todos os fogos de artifício que o patronato de Di Caprio lhe traz. O que o filme tem de melhor é, com frequência, um cineasta de talento se refestelando com todos os recursos que normalmente lhe seriam negados. Um filme cujo sucesso é a afirmação da sua própria existência, numa escala que supostamente devia ser negada ao cinema de autor americano. Algo que não deixa de lembrar um pouco os filmes tardios de Quentin Tarantino, no qual o sequestro do maquinário hollywoodiano se torna um fim em si mesmo.
Anderson fizera algo parecido no começo da carreira com Magnólia, que muitas vezes funcionava na mistura da energia do prodígio e da falta total de vergonha de afundar o pé na jaca dos próprios instintos, mesmo quando o estardalhaço todo podia parecer questionável. Uma Batalha Após a Outra é um filme bem melhor porque Anderson é, um quarto de século depois, um cineasta muito mais habilidoso do que nos seus primeiros filmes, mas é um filme bem mais descontrolado do que seus trabalhos recentes. Não deixa de funcionar como um eco curioso que o atual presidente da Warner, Michael De Luca, era chefe de produção da New Line quando Magnólia foi feito em 1999, como se Hollywood girasse para continuar no mesmo lugar.
O vigor é sempre bem expressivo, e essas cenas em grande escala mantêm sempre algum impacto. O grande final de ação é muito bom e orquestrado com bastante energia, o ritmo sempre nos carrega para dentro da ação, e as paisagens da estrada têm uma presença que fica na memória. Uma Batalha Após a Outra tem recursos que faltam aos bons filmes de ação atuais e alguma criatividade que a maioria dos filmes de grande orçamento não consegue nem começar a sugerir.
Tudo é construído em torno de espelhos e duplos, com DiCaprio e Penn perseguindo sua filha, ações passadas e presentes ecoando umas nas outras, múltiplas ilusões e fracassos, e assim por diante. A abertura agitada evidencia algumas das fraquezas dramáticas de Anderson, mas o filme melhora muito assim que se estabiliza e é possível pelo menos admirar a ideia de começar com o que é realmente o contexto do passado das personagens (é mais ou menos a mesma coisa que Drive My Car faz, só que num tom e intenções bem diferentes) e tem alguma força a ideia de que este prelúdio é algo que assombra os personagens, mesmo que estes 40 minutos iniciais sigam muito claudicantes, que Anderson não se sinta nada à vontade no meio dos personagens revolucionários. O filme respira muito melhor quando o ponto de vista dominante passa a ser o do pai maconheiro atrapalhado, mas bem-intencionado de DiCaprio na parte principal.
As cenas com o militar troglodita e robótico de Penn são carregadas de tintas muito exageradas e Anderson oferece bastante espaço para o ator, que jamais será confundido com um intérprete sutil, pesar a mão na sua performance. A escalação dele traz à mente sua presença no Sobre Meninos e Lobos, do Eastwood, pelo qual ganhou o seu primeiro Oscar. Lá, seu personagem era visto por um viés trágico e aqui farsesco, mas a ideia da figura paterna truculenta e sem pudores que representa os excessos violentos do país que o filme novo busca se beneficiar da imagem do filme anterior. Estas cenas são as mais desiguais do filme, Penn está fracamente tempo demais em cena para o que a caricatura dele oferece, mas Anderson é ótimo em contrastá-las com as cenas mais suaves com DiCaprio. A alternância entre elas é, muitas vezes, o ponto forte do filme. É uma alternância que permite que o filme mantenha seu impacto emocional, mais pessoal do que político, ressonante.
Uma Batalha Após a Outra está no seu melhor no desejo desesperado de DiCaprio por encontrar Infiniti. Pai e filha têm muito pouco tempo de cena juntos, mas a necessidade dele dá ao filme um bom centro dramático. É um dos melhores trabalhos de composição do ator, que permanece muito engraçado em sua rotina de maconheiro desastrado, mas consistentemente comovente e novamente um bom espelho da caricatura bem mais superficial que Penn oferece. Ele falando sobre não ser capaz de pentear o cabelo dela; talvez seja a cena de que mais gostei de DiCaprio em qualquer filme.
Boa parte dos filmes do começo da carreira de Anderson era dominada por figuras de autoridade fracassadas. Algo que ele vem deixando para trás nos seus filmes mais recentes. Uma Batalha Após a Outra difere de seus primeiros trabalhos por realmente gostar do pai, apesar de sua pouca eficiência (é importante para o que o filme deseja que DiCaprio pouco faça ao longo dele) e por ser principalmente da perspectiva dele, a uma afetuosidade que pouco esconde que, a despeito dos seus excessos, este é um trabalho de um homem de meia idade bem mais acomodado e bem resolvido na sua própria posição.
As cenas de DiCaprio com Del Toro são especialmente ótimas; os dois atores interagem muito bem entre si. Del Toro oferece a presença mais tranquila do filme e há algo de relaxado nas interações dos dois que funciona muito bem contra o tom acelerado do filme todo. Uma suavidade que serve de escape para os excessos de significantes e fogos de artifício com os quais o filme joga. Um descanso num filme que parece, por vezes, sempre tentar um pouco demais. São os momentos que mais lembram os filmes recentes do realizador.Se todo o resto fosse tão bom quanto essas cenas, Uma Batalha Após a Outra seria digno dos maiores elogios que recebeu. A maior parte dele é vítima do excesso de ruído, mas é fácil admirá-lo mesmo quando tropeça em si mesmo. Há um prazer inegável no sequestro do maquinário hollywoodiano, sobretudo num momento em que ele parece tão divorciado do melhor cinema, mesmo que o todo seja meio trôpego. Um último suspiro de uma ideia de cinema cada vez mais próxima da extinção.
Filipe Furtado
