Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins
(Brasil, 2026)

Há um grande momento em Vicentina Pede Desculpas, na qual a protagonista, após dias e dias de peregrinação (e não uso essa palavra sem o devido peso, há uma aura religiosa muito clara na jornada espiritual de Vicentina), assiste a si própria pela primeira vez, em uma entrevista que ela havia dado para a televisão dias antes. Seu filho era o motorista de um ônibus que caiu de uma ponte, matando ele próprio e a grande maioria dos passageiros, subitamente. Acidente ou suicídio? De qualquer maneira, Vicentina passa a contatar as famílias das vítimas para marcar uma conversa frontal com o único objetivo de se desculpar. Inúmeras cenas mais tarde, chega esse momento, no qual ela se vê de fora, por outra perspectiva. Até ali, Vicentina havia sido guiada por um sentimento de culpa impossível de expiar, por uma responsabilidade materna maior que ela própria, e muito tocante por conta da forte performance de Rejane Faria. Muitas vezes Vicentina foi questionada sobre o motivo de sua peregrinação, pelos próprios familiares das vítimas, e sua única resposta era uma confissão: ela simplesmente não sabia, mas continuava sua jornada da mesma maneira. Confrontada com a própria imagem, a de uma mãe suplicante, implorando perdão ao filho na frente de um deprimente cenário televisivo, Vicentina reage e, pela primeira vez, desliga a televisão, que ela insistia em manter ligada para que pudesse acompanhar todas as reportagens sobre o ônibus que caiu da ponte. O que resta? Novamente uma imagem de si própria, mas dessa vez refletida na tela escura da televisão desligada. Não há escapatória possível, mas a jornada de Vicentina, em algum momento, deverá ser sobre seguir em frente.

O reflexo na televisão é uma ótima imagem, com densidade simbólica. Há outros momentos assim em Vicentina Pede Desculpas, ainda que durem pouco. Quando o corpo morto do filho de Vicentina é levado para um jazigo longe do resto da família por conta de burocracias administrativas do cemitério, vemos ao longe diversas construções sendo erguidas, uma parede de concreto para além das árvores, e logo depois novas covas sendo construídas em meio ao terreno sinuoso e arenoso. A jornada de Vicentina pelos mais diversos locais também tem seus momentos tocantes, principalmente quando sua figura calejada e com dificuldades para andar se encontra no meio de ambientes tão hostis e de difícil acesso, mas também igualmente comuns. A própria queda do ônibus do elevado é uma imagem forte, a ruptura violenta na banalidade cotidiana que depois é reiterada ad nauseam pelos jornais televisivos. O filme funciona muito, portanto, quando o realizador se interessa mais por situar os personagens em determinado ambiente, e é feliz em encontrar os mais diversos espaços que dão conta de um imaginário brasileiro muito particular, esses espaços enormes e de difícil circulação. É nesses ambientes que se encontra a resposta do incidente do ônibus, pelo menos em espírito, e não em um motivo uno e de simples assimilação como busca a própria Vicentina.

Apesar disso, Vicentina Pede Desculpas é mais um filme de closes, de rostos, do que de paisagens e planos abertos. O rosto de Rejane Faria é o filme ideal, e é inegavelmente a força motriz, e a direção excessivamente marcada que lhe é passada resume, de alguma maneira, alguns problemas dramatúrgicos do filme. A personagem é igualmente sempre sofrida e sempre forte, um retrato um tanto perfeito de si mesma que funciona em algumas cenas e menos em outras. Vicentina busca religiosamente expiar uma certa culpa, mas sua representação encontra um limite justamente pelo excesso de dignidade que lhe é conferida a todo o tempo, fragilidade evidente em uma cena na qual o pai de uma das vítimas não aceita o pedido de desculpas e passa a atacar o filho de Vicentina. A defesa instantânea que Vicentina faz de seu filho não é o problema, pelo contrário, ela resume todo o tema do filme, mas a encenação excessivamente marcada, digna, e limitada pelos closes nos rostos dos atores enquanto um embate mais físico começa a se desenhar naquela mesa de jantar. O filme opera assim, nessa tensão entre um olhar mais detido ao ambiente e a outro olhar que pesa mais a mão na marcação do drama, intensa sem dúvida alguma, mas também excessivamente digna há todo momento. O epílogo resume bem: o belo final do filme na piscina, que sedimenta a religiosidade simbólica ali presente com a ação do batismo, do renascimento, poderia talvez ter funcionado melhor sem a cena da música cantada pelo menino para Vicentina.

Lucas Bueno