Wet Mácula, de Jean-Claude Bernardet e Sabina Anzuategui
(Companhia das Letras, 2024)

“Detesto o conhecimento enciclopédico. Nota de rodapé, detesto. Passei de skate por Sartre, Foucault, Marx, Hegel. Li pedacinhos (…) Hoje, com a dificuldade de enxergar, não leio mais. Pratico a audição selvagem.” – WET MÁCULA
Jean-Claude Bernardet, um dos notáveis críticos e acadêmicos do nosso cinema, morreu em julho de 2025. Esse livro é parte essencial de seu legado, e seu valor está na teimosia formal de ir na contramão da fossilização da própria narrativa. Lá pela centésima página de Wet Mácula, uma mensagem de Heloísa Jahn ao editor da Companhia das Letras é inserida na íntegra, logo após um longo trecho no qual Jean-Claude Bernardet detalha sua relação com Glauber Rocha. Na mensagem, ela propõe um procedimento de trabalho para a construção de um livro, que consistiria em uma enorme série de conversas semanais com Bernardet em seu apartamento no Copan. Durante as conversas, ele discorreria de maneira livre sobre uma série de tópicos pensados por Heloísa e que, editados posteriormente, dariam forma à sua (auto)biografia – o próprio Wet Mácula.
A inclusão da própria carta que deu origem ao projeto não destoa de maneira alguma do resto do livro. Já nas primeiras páginas, Bernardet e suas duas colaboradoras, a já mencionada Heloísa Jahn e Sabina Anzuategui, colocam em xeque a biografia tradicional e rejeitam sumariamente a construção de um perfil jornalístico ou oficialesco. A abordagem adotada na construção de Wet Mácula é impressionista – admite e discorre sobre falhas na memória, saltos na cronologia e prioriza associações livres e sensações. O resultado é particularmente bem estruturado e formalmente dinâmico: é comum que diálogos entre Bernardet e suas interlocutoras interrompam algumas das histórias com parênteses que rearticulam, complementam ou negam o que já foi dito.
“Posso dizer: Ah, estou trabalhando com minha amiga, ontem nós nos encontramos, tomei um pouco de uísque e depois falei muito, ela gravou, de vez em quando me fazia uma pergunta etc. Posso dizer isso, e as pessoas vão entender. Mas isso elimina o fato de que você veste uma calça vermelha, que o gato tá na poltrona preta, que o meu sangue circula, e umas tantas outras sensações. Que anoiteceu, que esfriou. Narrar a própria vida é uma bóia, à qual a gente se agarra. Uma perda ou ganho literário?”. Esse trecho é uma síntese do que é proposto em Wet Mácula, e logo fica evidente que o livro não poderia ter sido construído de outra maneira: seria ilógico escrever sobre a vida de um teórico e crítico de cinema tão radical sem 1) ousadia na forma, e 2) a priorização absoluta da sensação, da textura da memória.
Se uma biografia é, por definição, incompleta, Bernardet e suas colaboradoras fazem da incompletude um ponto de partida, usando das próprias lacunas para criar antes de tudo imagens e impressões, em uma alegoria com o próprio cinema: “Falei também do espaço em off, esse espaço invisível que circunda a tela. E onde muita coisa acontece. Ele precisa ser ativado por um som, um olhar, um diálogo dirigido a um personagem fora de tela, um movimento de câmera. Esse livro usa intensamente o espaço em off. Não são as múltiplas elipses que usamos como recurso narrativo. É a minha vida”.
O caráter fragmentário do dispositivo de Wet Mácula permite que seja abordada uma ampla gama de assuntos. Há muito das ideias de Bernardet sobre cinema e sobre o ato de lecionar, mas também (e no mesmo plano de importância) muito de sua vida íntima, da relação precocemente interrompida com a mãe e os efeitos psíquicos da separação ao longo do tempo, dos penosos tratamentos médicos, das relações sexuais, da relação de Bernardet com outras figuras marcantes do cinema nacional ao longo de décadas. Todos esses elementos vão e vêm ao longo da leitura, puxam um ao outro em um fluxo cativante que permite ao leitor acesso a uma intimidade sem precedentes ao protagonista, ainda que por frestas e com alguma opacidade.
Bernardet fez parte da história, acompanhou de perto e esteve no centro de grandes movimentos culturais e acadêmicos, conviveu com as mais diversas figuras igualmente mitológicas. Mas se houve algum interesse em fazer de Wet Mácula uma “cápsula do tempo”, a preocupação central continuou sendo a impressão, a marca deixada por essas figuras na vida de Bernardet, e não o reforço de qualquer canonização. A maior parte desses encontros se dá por meio de rápidas e memoráveis anedotas – uma das melhores do livro é o encontro do protagonista com François Truffaut, que visitava o Brasil em 1965. Conversaram um pouco, mas o assunto rapidamente chegou ao golpe militar de 64. A partir daí, sabemos apenas que os interlocutores se exaltaram e que o clima azedou (segundo Bernardet, Truffaut cheirou algo de esquerda nele). O encontro termina por aí, Truffaut volta a se misturar entre os outros convidados do coquetel e some de vista. Mais detalhada, evidentemente, é a relação de Bernardet com Glauber Rocha, marcada por um constante “morde e assopra”, por críticas ácidas de um para o outro seguidas de trocas mais amigáveis e convites inesperados. O melhor resumo da relação, novamente, é fornecido pelo próprio Bernardet: “cada um achava que o outro era de direita”. Wet Mácula nos coloca no centro das discussões sobre os rumos estéticos do Cinema Novo, das divergências entre os caminhos abertos pela completa imersão do Glauber de Terra em Transe e os filmes de Saraceni, Joaquim Pedro, Person. Nosso protagonista nunca se interessou em ser ponta de lança do movimento, mantendo-se à margem, mas sempre presente em alguma capacidade na intensa troca de ideias.
Há ainda longos trechos dedicados à relação quase paterna que Bernardet manteve com Paulo Emílio Salles Gomes, mentor máximo do pessoal do cinema. Também há confissões sobre atritos com Ismail Xavier, buscas incessantes por um local para fumar com Eduardo Coutinho e a exposição de fissuras irreconciliáveis e inevitáveis entre a ala mais conservadora dos professores de cinema da USP e Bernardet, cuja ousadia também se fazia presente na organização curricular. Em resumo, para os interessados nas próprias figuras históricas do cinema brasileiro, Wet Mácula oferece fofocas valiosas, contadas em seu ponto de vista particular, como seria natural. O livro ainda conta a perseguição sofrida por Bernardet nos corredores uspianos durante a ditadura militar – por um bom tempo, ele viveu sob a ameaça de prisão – ameaça também facilitada pela sua imagem de “patinho feio” em meio a figuras como Rudá de Andrade e Paulo Emílio, colegas já consagrados e menos vulneráveis. Perseguição, fuga, encontros furtivos e breves, mas profundamente marcantes – muito do livro trata disso tudo como extensão do espírito de Jean-Claude.
Wet Mácula é uma tentativa de transcriação da própria subjetividade de Bernardet, do seu modo de sentir o movimento constante da própria vida, intenso e errante. É uma interpretação muitas vezes livre e opaca da vida de um dos teóricos mais interessantes do nosso cinema, mas que também admite e articula suas próprias falhas: são memórias, afinal. O livro encontra um ritmo fluido e suave em suas histórias fragmentadas e associações livres, também cria impressões profundas e duradouras sobre o protagonista sem jamais prendê-lo aos lugares comuns da identidade. Em determinado momento, ele discorre sobre como, ainda na infância, não fazia ideia do que se tornaria – provavelmente um indigente. Em outro momento, ele detalha intensamente suas relações sexuais com outro homem sem qualquer interesse em se rotular, colocando em primeiro lugar a sensação. A partir de Wet Mácula, vemos que há certamente algo de nômade em Bernardet, de punk também. No livro há rigor formal e crença no poder afetivo do cinema. Há experimentação de fato, porque sem isso nada faz muito sentido. Há tiradas e pequenas impressões, pequenos gestos banais que assombram uma vida mesmo quando o resto do mundo parece estar em estado de ebulição. Há o que mais nos interessa também, que é o que de melhor havia em Bernardet, que é a escolha pela contramão, pela rebeldia.
Lucas Bueno
