Yokohama BJ Blues, de Eiichi Kudo
(ヨコハマBJブルース, Japão, 1981)

Yokohama BJ Blues é o quinto projeto do músico e ator Yusaku Matsuda no cinema. Além de dar vida ao protagonista BJ, um músico que atua também como investigador particular na cidade de Yokohama para pagar as contas, Matsuda também compôs a trilha sonora do filme. O blues lento de Matsuda nos dá o ritmo do filme com suas nuances musicais e rítmicas enquanto observamos as excêntricas figuras de uma cidade que está muito além dos hotéis e pontos turísticos exibidos na cidade costeira. Em alguma medida, BJ percorre as entranhas de Yokohama. Não nos é permitido observá-lo tocando em algum dos suntuosos hotéis dessa que é uma cidade turística, tradicionalmente conhecida por receber estrangeiros em seus portos e vielas. Matsuda não está cantando para os turistas nos hotéis de luxo próximos à Landmark Tower. A primeira coisa que o filme nos traz, a mérito de imagem, é esse espaço pouco grandioso, afastado dos palcos e camarins, de assistirmos esse nosso protagonista terminando uma refeição sentado na privada do que parece ser um banheiro público.

O caminho de BJ pela noite, à contraluz, nos apresenta um belíssimo plano sequência onde podemos enfim observá-lo correndo frente à câmera para finalmente chegar a um bar, na tentativa de pegar uma carona no caminho. A entrada de BJ no bar já nos traz algo interessante referente à caracterização de alguns personagens dentro do filme: a figura de um homem com uma jaqueta de couro vermelha, com aquele corte meio cowboy e óculos escuros, remetendo ao visual clássico concebido para representar um yakuza. Essa figura, que se destaca na multidão do bar, que se move performaticamente em cada movimento frente à câmera, revela uma espécie de rebeldia performática que aparece frente ao filme. Seja o ato de comer sentado na privada ou de roubar papel higiênico apenas para jogá-lo fora, BJ rapidamente acaba protagonizando naturalmente pequenos movimentos de rebeldia gestual. O filme, mais de uma vez, mostra com uma certa beleza os grupos de jovens descendo as ruas em seus carros, em bandos, reunindo-se na rua onde promovem uma espécie de hedonismo quase que pautado por um comportamento de gangue. Não à toa, uma das instituições que poda tanto a BJ quanto essa liberdade juvenil é a organização chamada de Família, que parece uma analogia indireta da Yakuza, e normalmente age com um viés mais conservador em detrimento ao hedonismo juvenil.

BJ vive uma vida alternativa, fora do padrão, em transição entre as demandas do presente, a sua paixão pela música e os fantasmas que assombram seu passado. Eiichi Kudo, ao filmar as andanças de BJ em Yokohama, explora a mise-èn-scene em termos de profundidade de campo. Frequentemente vemos o uso de zoom in e a mudança de foco no meio de diferentes planos que acabam por viabilizar um re-enquadramento do plano. É como, por exemplo, um primeiro plano num primeiro momento mostrar BJ ao fundo da cena e após um movimento de um personagem no primeiro plano, um zoom in enquadra novamente um plano detalhe de BJ atendendo o telefone na parede do bar. Esse detalhe frequentemente se faz presente dentro do filme. A forma como Kudo conversa com a câmera, de como utiliza a objetiva para pensar o posicionamento dos corpos dentro do plano, permite com que o caráter do plano mude dentro da cena. Enquanto BJ conversa ao telefone, revisitando os fantasmas do passado provocados por um antigo amor representado por Mincoko (Mari Henmi), ao desligar o telefone deparamos com o olhar fatalista da enfermeira para ele. Esse olhar lança uma sombra fatal sob as costas de BJ, o que nos introduz ao plot twist do final do filme.

Assim como o blues, nessa melodia melancólica e constante, a câmera se ajusta, se adapta e explora a profundidade de dentro dos enquadramentos. Seja por gravar planos por dentro da janela, ou pela transição através da mudança de foco, ou do zoom. Enquanto todos os elementos se movem no quadro, as presenças em primeiro plano ou jogadas mais ao fundo dentro da composição do enquadramento acabam por compor um jogo de possibilidades onde a câmera ganha maior flexibilidade sobre a agência da mise èn scene, alterando em diferentes profundidades de campo enquanto enquadra os diferentes corpos presentes na mira da objetiva.

Essa mobilidade do plano não se limita apenas a trocas de focos e zoom in. O filme é composto de diversos planos sequência que acabam por passear pelo cenário, visitando os personagens em diferentes pontos, sob diferentes perspectivas. Para exemplificar, voltemos ao começo: BJ chega ao bar, uma cena interna, e logo se coloca no palco, começando seu show. O instrumental da banda, que precede a voz de Matsuda, acompanha um plano sequência inteiro que vai de acompanhar o rosto de BJ no palco por detrás do balcão, passar pelas costas de uma pessoa sentada e explorar toda a complexidade da composição do palco. As pessoas sentadas à mesa, bebendo, conversando, o dono do bar a quem somos introduzidos, que se levanta para servir uma mesa, e BJ no palco, o plano sequência termina com um zoom in no rosto de Matsuda enquanto ele performa a trilha sonora do filme diretamente do palco. A apresentação de BJ recebe um tempo de folga, acompanhado do começo ao fim da música, aproximadamente uns dois ou três minutos, e vem junto dos créditos iniciais do filme.

Yokohama BJ Blues é um filme policial que, por horas, parece ser uma concha de retalhos onde se encaixam alguns videoclipes de Matsuda no meio da história. De algum modo, em BJ, o que surpreende deixa de ser o plot twist, ou o visual urbano que permeia todo o filme, mas sim a capacidade de pausar a investigação, a busca pelas respostas e nos permitir sentar no bar para sofrer ouvindo um melódico blues, ou observar as paisagens da cidade portuária de Yokohama. O filme, que foi inicialmente concebido pelo próprio Matsuda, é a história dos jovens espíritos que insistem em correr contra a correnteza das preocupações da vida adulta e escolhem as paixões em detrimento do aluguel, ou de fazer três refeições ao dia.

D. A. Soares