O Conto de Zatôichi, de Kenji Misumi
(Zatôichi monogatari 座頭市物語, Japão, 1962)
O Conto de Zatôichi Continua, de Kazuo Mori
(Zoku Zatôichi monogatari 続・座頭市物語, Japão, 1963)
Novo Conto de Zatôichi, de Tokuzô Tanaka
(Shin Zatôichi monogatari 新・座頭市物語, Japão, 1963)
Zatōichi (1962-1963)

O romancista Kan Shimozawa foi o primeiro a escrever sobre o massagista, espadachim e jogador de dados cego chamado Zatōichi (ou apenas Ichi). Shimozawa teve muitas de suas obras adaptadas para TV e cinema, e Zatōichi foi uma dessas mesmas obras. O livro que leva o nome do primeiro filme, Zatōichi monogatari, rendeu material para uma série de TV e um ícone do cinema de gênero japonês. A trilogia composta por Zatōichi Monogatari (1962), Zoku Zatōichi Monogatari (1962) e Shin Zatōichi Monogatari (1963) são o pontapé inicial para essa franquia sobre esse enigmático e referenciado personagem do cinema e da TV japonesa e, por isso, são o alvo de análise desse primeiro texto sobre Zatōichi, esse personagem quase que arquetípico que personifica tão bem o espadachim cego vivido por Shintaro Katsu, ator presente em algumas séries de longa duração em padrões parecidos com Zatōichi como Akumyo (1960-1974) baseada no romance de Tōkō Kon, e Heitai Yakuza ou Hoodlum Soldier (1965-1972). Foi nos filmes do gênero de chanbara, os filmes de luta de espadas, no entanto que conheci Shintaro Katsu e seu samurai cego e, justamente por isso, aqui escrevo sobre os três primeiros filmes dentre os vinte e seis filmes clássicos de Zatōichi.
Zatōichi monogatari (1962)

Zatōichi monogatari começa de uma forma bastante direta. Zatōichi pratica seu ofício, o de massagista, no caso, até o momento em que o letreiro se sobrepõe à figura do andarilho errante e o ofício da massagem é abandonado por uma longa caminhada de Zatōichi até que ele chegue a um vilarejo. A cena que conclui a apresentação deste personagem, com Zatōichi sentado junto aos Yakuza jogando dados no quarto da mansão, nos mostra como esse personagem é construído, não como um impressionante mestre da espada ou um honrado samurai, mas Ichi é um homem engenhoso que, além de sua espada escondida na bengala, é dotado de alguma malícia que usa contra aqueles que são, ou tentam ser, também maliciosos. O truque do jogo de dados no início do filme mostra bem o uso de Zatōichi dessa engenhosidade.
A sequência onde, a primeiro momento, Ichi deixa aparentemente os dados à mostra, fazendo com que os yakuza se aproveitem de sua deficiência para fazer um jogo ganho. Tendo seu dinheiro apreendido, ele tenta jogar os dados uma segunda vez, dessa vez, no entanto usa um segundo par de dados com um resultado oposto ao do copo, com isso fazendo com que ele consiga enganar os yakuza angariando seus ganhos. Essa pequena introdução dos artifícios maliciosos de Ichi com os dados nos mostra a outra face do filme, os yakuza, os golpistas, assim como Iichi, dotados da visão e de todos os encantos sedutores e maliciosos que a acompanham. Próximo à parte final do filme, quando Ichi se aproxima da irmã de um dos yakuza, ele reflete sobre a própria realidade de estar envolvido no crime organizado, a tese de Zatōichi sobre o crime organizado é direta: ser um yakuza é como estar afundando em um brejo, você sabe onde está mas é difícil de sair.
Se contra os yakuza Ichi usa de sua astúcia, existe um oponente que deverá obrigá-lo a usar sua espada. Esse papel cabe a Miki Hirate, um samurai habilidoso, mas que sofre com o alcoolismo, motivo por ter sido ostracizado de Edo e ter sido colocado para se relacionar com os yakuza. As duas figuras dos mestres espadachins carregam entre si uma espécie de valorização moral e tática dentro do contexto do filme, no caso, a batalha entre dois diferentes grupos criminosos. São os dois com maior capacidade para com a violência, eles são espadachins infinitamente superiores aos membros dos dois grupos e, ao mesmo tempo, são aqueles que procuram evitar participar da violência e do massacre causado pelo conflito. O duelo entre os dois samurais, que vão ao encontro da morte movidos pela honra de um com o outro (e não da guerra e de seus envolvidos), é marcado pela tragédia da perda de um honorável inimigo, neste caso, a única possibilidade de um amigo verdadeiro.
É normal, por conta disso, ver Ichi como uma figura moralmente elevada perante toda a situação da batalha entre os dois grupos, entretanto, Ichi e Hirate são essas duas figuras poupadas da violência banal, parte disso se deve ao seu excepcional talento para a prática dessa mesma violência. O envolvimento de um na batalha justifica a participação do outro, tanto como duas forças equivalentes quanto como colegas que praticam um respeito mútuo. Mesmo assim, existe uma diferença marcada entre Ichi e Hirate. Essas figuras iluminadas, os budas da lama, renegados a conviver com o crime e a vadiagem, na contramão de seus ideais de anti-violência e honra ética. Mesmo nesses momentos de encontro, tanto Hirate quanto Ichi, esses que habitam o mesmo lugar como os mais honrados do brejo, vêm de dois lugares diferentes: Ichi como sendo uma espécie de misterioso prodígio autodidata da arte da espada e Hirate como sendo um samurai decaído pela desonra (no seu caso, seria o próprio alcoolismo). Essas diferenças se encontram justamente na forma como os estilos de kenjutsu de Hirate e Zatōichi.
Hirate usa movimentos mais amplos com sua katana desembainhada. São esses movimentos duros e rígidos que são usados para lutar contra grupos grandes de homens dentro do vilarejo. Parte dessa postura se traduz na forma como ele encara o grupo que representa. Diferente de Ichi, que tem uma relação agridoce com seus anfitriões, Hirate é reverenciado como mestre (por conta de seu antigo status como samurai) e parece de fato comprometido a servir aos propósitos do grupo como uma espécie de aceitação de sua decadência como samurai, essa que se dá tanto por seu problema com o álcool quanto pela doença pulmonar, esta que aparece como símbolo de sua própria decadência moral e social. O filme parece consumar sua queda quando começa a ameaçar o duelo entre Hirate e Ichi, duelo esse que só acontece quando Ichi toma ciência da participação do amigo da batalha e decide se juntar a guerra a contragosto para poder encontrar (ou até mesmo salvar) o amigo.
O duelo ocorre, principalmente, pelo cenário de confrontos entre forças equivalentes: se Zatōichi é um espadachim tão habilidoso quanto Hirate, ambos sendo budas enlameados de duas origens diversas dentro do caminho da espada, da mesma forma com que os dois grupos se enfrentando durante a batalha contam com suas próprias equivalências: enquanto o grupo de Iioka possui maior número, o grupo de Sasagawa possui uma enorme vantagem de terreno. Isso se molda quando pensamos na forma com que Ichi luta: se Hirate luta com a espada desembainhada, com movimentos amplos e abrangentes, seu rival usa um estilo de iaijutsu baseado no saque rápido da espada e em movimentos ágeis de esquiva e contra-ataque. Da mesma forma como Ichi é ardiloso contra os ardilosos, ele é honrado com Hirate, diferente do oponente que, mesmo com os homens de Sasagawa, ainda age com alguma polidez, mesmo que a contragosto.




O conflito entre Ichi e Hirate se resume bem ao se seguir à risca a frase atribuída a Rinzai (o nome japonês do mestre Linji Yixuan): Se você encontrar um Buda no caminho, mate Buda. Eles, essas figuras decaídas, são o topo do caminho enlameado que seguem. Ao se depararem um contra o outro entram em conflito de Buda contra Buda. Essas duas figuras, usadas como poder de coerção entre os dois inimigos, são ironicamente os únicos que podem atentar contra a vida um do outro e, ao mesmo tempo, são os únicos capazes de se cumprimentar. O fim do duelo, que termina com um abraço de morte entre os inimigos, encerra essa relação de equivalência, uma vez que Ichi se prova como sendo um espadachim superior, o que se torna parte de sua tristeza. Zatōichi segue seu caminho, não um caminho de guerra, mas sim um caminho de peregrinação.
Zoku Zatōichi Monogatari (1962)

A ideia de Ichi como essa figura impassível, quase que intocável aos meros e comuns mortais, é o que abre o segundo filme da primeira trilogia. O filme começa de forma parecida com o primeiro: evidencia um certo conflito de classe com o grupo de yakuzas expulsando a população da canoa em que Ichi dorme um sono pesado. Esse grupo de homens armados entrou no barco sem nem ao menos se dar conta de que Ichi está ali, dormindo, e justamente por conta disso eles entram em conflito com ele. O conflito no barco é breve, e conta com um golpe de habilidade bastante inusitado por parte de Ichi: usando a espada no cinto de um dos Yakuza, ele a pega pelo cabo e, enquanto é jogado para fora do barco, consegue ferir o olho do oponente antes de cair no rio. O movimento da queda, que se torna uma pirueta, substitui o movimento de pegar a espada e sacá-la.
A acrobacia elaborada entretanto lhe cobra um preço: Ichi é perseguido logo no início do filme. Mesmo assim, não parece ser algo que afete ou assuste Ichi. Na realidade, ele nem mesmo chega a ter chance de tratar do assunto. Ao sair da água, o massagista se deita embaixo de uma árvore e pega no sono. Enquanto dorme, em planos gerais, é filmado o encontro do grupo de yakuzas com um Ichi desacordado e outros dois espadachins. A batalha é intensa, mas aqueles que perseguem Ichi acabam mortos, enquanto os dois intrusos seguem seu caminho. Mais uma vez, Zatoichi acorda e segue a estrada cercado de corpos. A situação sequer o afeta em menor ou maior grau, ele apenas continua andando após ter sido salvo ao acaso. A figura misteriosa que salva o massagista do ataque na beira da estrada, no entanto, não se trata de um desconhecido, o espadachim misterioso de um só braço se trata de Yoshiro: o aniki, o irmãozão. A história desses dois sujeitos é separada por uma terceira pergunta, Chiyo, uma mulher que faz parte do passado de ambos: ela era noiva de Ichi até descobrir sua cegueira e, posteriormente, o larga para fugir com Yoshiro, isso é, até um ferimento deixá-lo aleijado. Mais para o final do filme, a cena onde Ichi se encontra cuidando de seu irmão, com os dois escondidos no templo, ele conta sobre o desfecho de sua história com Chiyo: quando fiquei aleijado ela fugiu de mim. Os dois irmãos se permitem rir da infelicidade um do outro, isso é um momento de união entre ambos até que um dos irmãos morre provocando a ira de Ichi, aquele que sobra, um sobrevivente.
Se no primeiro filme Ichi se mantém em uma posição elevada em relação aos outros, com a chegada de Yoshiro, o buda, ganha feições mais humanas: ele ama uma mulher, se apega a este passado e se torna menos vazio. No geral, Zoku Zatōichi Monogatari é um filme sobre esse homem imperfeito elevado encontrando um irmão, um igual. Quando Ichi luta contra Yoshiro, dá-se o único duelo do filme, único momento onde ele ou Ichi lutam contra apenas um único homem. Yoshiro é seu igual, da mesma forma como Hirate já foi um dia. A cena onde Ichi se lamenta pela morte do antigo adversário ganha outro peso quando pensamos por esse lado, porque dentro do próprio filme se estabelece um paralelo com a última cena: não em uma questão de linguagem, mas sim um paralelo ético e quase que moral para o personagem. Ichi lamenta a morte de Yoshiro no pátio do templo, no mesmo lugar onde o embate entre os dois começa. Esse duelo possui um elemento interessante: Yoshiro consegue desarmar Ichi, o embate entre os irmãos se torna físico e, sem uma arma própria, Ichi usa a wakizashi no cinto de Yoshiro para feri-lo. O duelo, que ocorre no mesmo vilarejo do filme anterior, no templo que encerra o filme passado e termina com ambos, Ichi e Yoshiro, cercados pelos homens de Sukeguro armados com bastões e espadas, obrigando os dois a fugir pulando no rio.
Se o filme atravessa essa noção mais humana de Zatoichi, é no segundo filme onde ele de fato encontra uma vazão para solucionar o conflito entre as duas facções, em vez de se apartar desse mesmo conflito por cima. O duelo contra o irmão, o conflito próprio de Ichi, se torna o conflito dele contra os yakuzas após a morte do irmão acamado, escondido no interior do templo. Em frente a um poço, com um corte rápido, Ichi decapita o chefe dos Yakuza em um plano aberto. Os créditos sobem e agora o Buda se encontra enfim coberto pela lama. Ele mata por vingança porque agora sai desse espaço moralmente elevado e se encontra na média junto aos demais em uma espiral de carnificina por vingança, honra e lucro.
Shin Zatōichi Monogatari (1963)

Em Shin Zatōichi Monogatari, as cores não são a única mudança aparente em relação aos dois primeiros filmes. Tokuzo Tanaka assume o terceiro filme da franquia e procura um Zatoichi que é colocado não como essa figura moralmente elevada no meio dos decadentes do final do período Edo, mas sim como parte do conflito estabelecido após Zoku Zatōichi Monogatari.
Ao invés de apresentar Ichi vagueando pelas paisagens do Japão no final do período Edo, Shin Zatōichi Monogatari trabalha com Ichi sendo diretamente abordado por um grupo buscando vingança pelo assassinato do chefe Kanbei, que aconteceu no primeiro filme. Os planos anteriores mostram Ichi no meio de locais públicos frequentados pelo populacho. No meio dos maltrapilhos, a figura do buda se encontra perseguida pelos rivais do passado. A propósito, justamente por essa mudança nos conflitos entre as relações de poder que permeiam o filme, este é o episódio da série em que Ichi mais rápido saca a espada para matar um oponente. Ele não é mais um inconveniente que encosta com os desonestos para fazer parte de seus esquemas de aposta e golpes desonestos procurando tirar uma migalha, ou castigar sua desonestidade. Ichi é o alvo de uma vendeta, é o personagem que aparece como foco central do conflito e por isso, mesmo que queira, não consegue fugir do conflito.
Esse conflito interno, representado pelo uso da espada, acaba representado por Ichi enquanto ele viaja sozinho. Passam por ele um grupo de crianças que tiram sarro do nosso querido Zatō e um amigo, um músico itinerante acompanhado da esposa e uma criança. Esse contraste estabelecido entre os dois é interessante: Ichi é um espadachim famoso, com uma série de romances fracassados e desilusões amorosas que o marcaram profundamente, mas que, por sua fama, possui alguma condição para pagar o amigo para tocar seu shamisen na estalagem. A música tem um ar melancólico sobre sua condição social e, antes que ele a toque, Ichi possuí um diálogo sobre sua vida como espadachim e assassino. Esse tom reflexivo é cortado por uma cena violenta de um assalto que, posteriormente dentro do filme, será resolvida por Ichi que pede ao chefe local para castigar seus subordinados responsáveis pelo assalto. Essa primeira passagem termina com Ichi se despedindo de seu amigo na encruzilhada.
Esse é o filme onde Ichi pela primeira vez tenta desistir da espada e se afastar da trilha de sangue ao invés de cruzar com ela como uma espécie de árbitro enviado através do acaso. Ele ativamente procura resolver a vingança pela morte de Kanbei por outros meios e promete a irmã mais nova de seu mestre, a quem ele possui uma certa afeição romântica, que abandonará o caminho da espada. Essas promessas, no entanto, acabam saindo pela culatra quando Ichi e seu mestre acabam entrando em um conflito pessoal e moral: Banno não quer que Ichi se case com sua irmã, ao mesmo templo ele se envolve com uma gangue de sequestradores. Isso resulta em um duelo no meio de um bosque que termina com Ichi derrotando seu antigo instrutor após os dois se golpearem simultaneamente.
Esse embate termina em um plano fechado no corpo caído de Ichi enquanto Banno insiste em falar com seu oponente. Ele então percebe o corte e morre no canto superior do quadro. O plano aberto de Ichi deixando para trás o corpo de Banno e Yayoi junto de sua promessa quebrada toma a decadência gradual de Ichi dentro da trilogia: enquanto era um intocado Buda marginal em Zatōichi Monogatari ele vai ganhando contornos mais humanos enquanto em Zoku Zatōichi Monogatari ele passa a olhar para trás, para seu irmão, para os amores perdidos e culmina em uma vingança final contra Sukegoro, homem que explora seu talento em Zatōichi Monogatari. Shin Zatōichi Monogatari no entanto fecha esse ciclo de apresentação de Ichi com um homem impossibilitado de fugir da violência, diferente da figura do primeiro filme que se encontra acima dela, ou do homem do segundo que a escolhe como finalidade: uma forma de reconexão com Yoshiro e vingança contra Sukegoro.
É esse homem, Ichi, nosso amado Zatō que mesmo cego permite acessar essas três diferentes visões sobre a violência. É ele, o cego que supostamente representa uma figura de vulnerabilidade que se apresenta não apenas como o espadachim habilidoso, mas também como um golpista e um perspicaz observador do Japão no final do período Edo. Seu nome é Ichi, ele é um Zatō e vive apenas dos trocados que ganha com a massagem, mesmo assim consegue viver, afinal ele gasta bem pouco para o próprio sustento.
D. A. Soares
